Uma gata entrou na igreja e deitou-se junto ao altar – o padre percebeu tudo

O gato entrou na igreja e deitou-se junto ao altar padre entendeu tudo

A missa da manhã decorria calma, sem pressas nem sobressaltos. Tudo era já tão habitual: as palavras familiares das orações, os rostos de sempre quase todas mulheres idosas, umas dez no máximo. O padre Manuel servia aquela paróquia havia vinte e três anos e já não esperava milagres; sabia que numa terça-feira o templo raramente teria mais alguém.

A celebração já estava no fim quando ouviu o ranger discreto da porta da igreja.

Ergueu os olhos e ficou imóvel.

Pelo corredor central, caminhava a passos lentos um gato.

Era cinzento, de pelo macio e espesso, com uma mancha branca no peito. A cauda erguida como bandeira. Andar seguro, como quem sabe muito bem para onde vai.

As devotas começaram a murmurar alguém benzeu-se apressado, outra ergueu as mãos num susto. O gato passou indiferente por entre ícones e velas, foi direito ao altar, e ali se enroscou.

Ficou enrolado, o focinho nas patas, imóvel. Apenas os olhos amarelos permaneciam abertos fitavam o altar sem pestanejar, carregados de intenção.

Uma pressão apertou o peito do padre Manuel.

Reconheceu-o imediatamente.

Meu Deus, como teria ele chegado ali?

As mãos tremeram-lhe. Por breves segundos, fechou os olhos, tentando recentrar-se, mas logo veio-lhe à mente a imagem de D. Laurinda.

Laurinda Henriques, senhora de olhar doce e cansado, sempre de vestidinho de flanela. Vivia sozinha num apartamento antigo, de dois quartos, nos subúrbios de Lisboa. Ia à igreja todos os domingos devagar, apoiando-se na bengala, mas fiel como poucos.

E todos os dias alimentava os gatos ali do bairro.

Também são criaturas de Deus, senhor padre disse-lhe certa vez, quando ele a visitou com a comunhão. Como podemos não ter compaixão deles?

A Faustina era a sua preferida. Gata cinzenta, de pelo fofo, que Laurinda encontrara ainda bebé, magrinha e tremelicando de frio. Criou-a, amou-a, Faustina respondia-lhe de igual modo não se afastava nunca da dona.

Quando o padre visitou Laurinda pela última vez já lá iam umas três semanas Faustina estava sentada no parapeito da janela, fitando a dona como se pressentisse algo.

Senhor padre, sussurrou Laurinda nessa ocasião se me acontecer alguma coisa, não deixe a Faustina sozinha. Ela sabe cuidar-se, mas é tão esperta.

Ele assentiu, apertando-lhe suavemente a mão.

Agora, ali estava Faustina, deitada ao altar.

O padre Manuel compreendeu tudo. Uma vaga de frio percorreu-o por dentro.

O resto da missa terminou-se por automatismo, como se estivesse noutro lugar.

Leu as últimas orações maquinalmente, os lábios movendo-se sozinhos, enquanto só ouvia um pensamento: é preciso ir. Agora mesmo.

As beatas dispersaram devagar, com as velas nas mãos e conversas baixas. Algumas olharam para o gato, que ainda repousava junto ao altar, serena.

Ó senhor padre, esse gato… perguntou uma delas, mas ele cortou, com um gesto cansado:

Agora não. Depois.

Tirou a casula, vestiu a batina preta os dedos hesitantes, os botões recusando-se a fechar.

Meu Deus, oxalá esteja enganado.

Mas sabia, sentia em cada fibra que não estava.

Faustina ergueu o focinho quando ele se aproximou. Olhos nos olhos, miou uma vez grave, contido.

Como quem diz: “Compreendeste? Ainda bem.”

Vamos, murmurou ele, estendendo a mão.

A gata levantou-se, espreguiçando-se como quem teve um sono fundo, e seguiu até à porta. Ele foi atrás.

Lá fora, o dia estava cinzento, o vento arrancava folhas secas dos passeios e agitava os galhos despidos. A casa de Laurinda ficava a um quarto de hora dali.

O padre Manuel apertou o passo, quase correndo. Faustina vinha segura ao lado dele, patinhas ligeiras, cauda digna.

Só queria chegar a tempo.

Mas sabia: se Faustina viera à igreja, deitou-se ao altar era porque tudo já estava decidido.

Caminhou, recordando Laurinda sentada no seu cadeirão, à janela, coberta por uma manta, sorrindo ao vê-lo entrar. As mãos trémulas faziam o sinal da cruz, recebendo a comunhão.

Sabe, senhor padre dissera ela da última vez não tenho medo. Vivi bem, fui mulher amada, criei minha filha, tenho netos, ainda que longe. Deus nunca me abandonou.

Nem há-de respondeu então.

Ela suspirou:

Eu sei. Mas mesmo assim, é uma solidão… A Faustina está comigo, claro. Mas a casa é tão silenciosa.

Na altura, ele acreditou que era só um desabafo rotineiro. Não reparou que talvez fosse uma despedida.

Chegou enfim ao prédio conhecido fachada cinzenta, pintura gasta, o intercomunicador avariado há meses. Terceiro andar, sem elevador, como sempre.

Subiu os degraus, agarrado ao corrimão. O coração batia forte de nervosismo ou de pressa.

Faustina adiantou-se, sentou-se diante da porta do 3.º D pintada de azul desbotado, com o número dourado quase apagado.

O padre bateu.

Uma, duas, três vezes.

Silêncio.

Premiu a campainha daquela antiga, a chiar. O som apagou-se pelo apartamento.

Nada.

D. Laurinda! chamou. Dona Laurinda, sou o padre Manuel!

Sem resposta.

Chegou o ouvido à porta. Talvez ela não ouvisse bem, já com a idade…

Mas demasiada quietude lá dentro.

O padre agachou-se, fitando Faustina, que não tirava os olhos da porta.

Com as mãos trémulas, tirou o telemóvel e ligou ao agente da PSP o sargento que o ajudara noutro infortúnio, tempos atrás.

Alô? Senhor João Marques? Fala o padre Manuel. Sim, da paróquia. Preciso de ajuda urgente. É uma idosa, não abre a porta. Tenho receio que… é preciso arrombar.

O agente respondeu sereno:

Morada?

Rua de São Vicente, cento e nove, terceiro esquerdo.

Vou já.

O padre pousou o telemóvel e sentou-se no chão, costas contra a parede.

Faustina aproximou-se, roçou-se-lhe na batina. Ronronou baixinho, aflita.

Foste muito boa sussurrou . Vieste chamar-me.

A gata deitou-se a seu lado.

Ali ficaram.

E o padre pensou nas vezes que poderia ter visitado a senhora Laurinda. Talvez ela estivesse pior do que mostrava. Talvez esperasse…

Perdoa-me, Laurinda. Perdoa-me.

O agente chegou em quinze minutos.

João Marques, homem encorpado, com ar exausto, subiu as escadas com dificuldade. Viu o padre sentado, admirado:

Senhor padre Manuel? O que se passa?

D. Laurinda não responde, temo o pior…

O agente compreendeu, achou familiar a situação.

Espere aqui.

Bateu à porta com força profissional.

Dona Laurinda Henriques! É a polícia!

Nada.

Procurou na bolsa um pequeno pé-de-cabra, ajustou-o na entreporta, fez força primeiro um estalo, depois estalou a madeira.

Mais um empurrão o fecho cedeu.

A porta abriu-se de par em par.

Saiu um cheiro a medicamentos e a tempo parado, um silêncio denso, estalando.

O padre Manuel fez o sinal da cruz e entrou atrás da polícia.

A entrada era-lhe conhecida. No bengaleiro, pendia o velho casaco castanho de Laurinda; os chinelos azuis, alinhados como sempre, junto à porta.

Adiante, o corredor. À direita, o quarto.

O agente empurrou a porta, gelou no batente.

O padre espreitou por cima do ombro dele.

O coração quase se lhe deixou cair do peito.

Laurinda estava no cadeirão, ao lado da janela, envolta na manta. As mãos cruzadas no peito, a cabeça tombada para trás.

Como se apenas dormisse.

Mas o rosto, descolorido, parecia já cera.

Meu Deus… murmurou o padre, quase inaudível.

O agente suspirou fundo, aproximou-se, tocou-lhe no pulso e acenou a cabeça pesaroso:

Já cá está há três, talvez quatro dias.

Três dias.

O padre ajoelhou-se, ali mesmo à porta.

Três dias sozinha, no apartamento em silêncio, sem que ninguém notasse a ausência.

A filha noutro distrito. Netos também longe. Vizinhos? Quem liga a vizinhos hoje em dia…

Só Faustina não abandonou. Ficou perto da dona, poderia sair pela janela entreaberta, mas não foi.

E só depois, percebendo tudo, foi à igreja.

Conhecia-a bem? perguntou o agente, já de telemóvel em punho.

Sim, respondeu o padre, engolindo em seco. Era das minhas paroquianas. Uma mulher de bem.

Precisa avisar a família. Sabe onde estão os documentos dela?

Acho que no armário ou na escrivaninha, respondeu com voz embargada. Senhor João, eu falo com a filha, tenho o número.

O agente assentiu:

Perfeito. Vou chamar a ambulância.

O padre Manuel aproximou-se, ficou olhando o rosto plácido de Laurinda sereno, quase iluminado.

Não sofreu. Deus levou-a suavemente. Talvez adormecida.

Perdoe-me, murmurou. Por não ter vindo antes. Por não ter percebido.

A mão pousou, cuidadosa, nos cabelos prateados.

Fez-lhe o sinal da cruz e começou a ler o Ofício dos Defuntos baixinho, quase a sussurrar. A oração corria-lhe dos lábios como lágrimas.

Na porta, Faustina esperava, imóvel, olhos postos na sua dona.

E então ele entendeu: aquele gato amava Laurinda mais do que todos os familiares.

Mais do que a filha que lhe telefonava uma vez por mês.

Mais do que os netos, que só vinham por obrigação, uma vez por ano.

Faustina seguiu-a até ao último suspiro.

E depois não a deixou, foi à igreja, chamou ajuda.

O padre Manuel ajoelhou-se junto ao gato, pegou-o devagar ao colo.

Faustina não resistiu. Encostou-se-lhe ao peito, ronronando roucamente.

Pronto, já está, minha querida. Eu cuido dela. Prometo-te. Faremos tudo com dignidade cristã. E tu ficarás comigo, está bem?

E chorou.

As lágrimas caíam sobre o pelo cinzento e macio, enquanto afagava Faustina e pensava como o verdadeiro amor se mostra em gestos, não em palavras.

Laurinda foi a enterrar três dias depois.

Veio a filha rosto pálido, olhos vermelhos, toda de preto. Trouxe só um ramo de flores, não trouxe os netos “demasiado longe, têm escola”, justificou.

Dos paroquianos, vieram perto de vinte sobretudo as senhoras de sempre, aquelas que conheciam Laurinda. Entoaram o “Dai-lhe, Senhor, o eterno repouso” com vozes quebradas.

Padre Manuel celebrou a encomendação. Rezou olhando o caixão o rosto de Laurinda sob o véu branco, límpida.

Perdoe-me, serva de Deus. Pela distração, pelo esquecimento.

E ao lado do caixão, enrolada no chão de pedra fria da igreja, repousava Faustina.

Veio sozinha, de manhã, ao chegar a urna.

Deitou-se e dali não saiu.

A filha tentou enxotá-la, acenou com o lenço preto:

Sai daqui! Este não é lugar para gatos!

O padre interveio:

Deixe-a. Precisa despedir-se da dona.

Ela hesitou, mas calou-se sob o olhar sério do padre.

No cemitério, levaram Faustina consigo não a deixariam sozinha. O padre carregou-a nos braços durante todo o cortejo.

Após as exéquias, a filha aproximou-se dele:

Obrigada por tudo. Por a ter encontrado. Por avisar.

Não me agradeça, murmurou o padre. À Faustina. Foi ela que me guiou.

A mulher olhou o gato como que surpreendida.

Fique com ela. Não posso, tenho alergia.

Assim farei, garantiu o padre.

A filha afastou-se, sem olhar para o jazigo recente da mãe.

O padre ficou.

Olhou aquela terra ainda húmida, a cruz provisória.

Laurinda. Tão mansa. Tão só.

Quantas outras Laurindas haverá em casas por todo o país? Vão envelhecendo, partindo sem ninguém notar. Esquecidas.

Exceto pelos gatos. E por Deus.

Ele fez uma festa ao gato:

Vamos para casa?

Faustina ronronou baixinho.

Desde então, na igreja, no parapeito do altar, passou sempre a descansar uma gata cinzenta e fofa.

Os paroquianos traziam-lhe mimos, afagavam-lhe o pêlo, murmurando:

Que criatura especial. Alma santa.

O padre Manuel sorria discretamente.

À noite, sentava-se na poltrona, Faustina ao colo, a afagá-la até ela fechar os olhos e ronronar baixinho.

E no brilho dos seus olhos dourados refletia-se a luz da candeia do altar.

Silenciosa. Inapagável. Eterna.

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