Merlín, o Gato Mágico do Autocarro: Como Uma Passageira Solitária, um Bilhete de Loteria e um Feitiço de Estrelas Mudaram a Vida de Ana em Lisboa

O gato olhava para ela em silêncio. Suspirando e ganhando coragem, Mariana esticou a mão para ele, esperando que as mangas do casaco de pele a protegessem das garras daquele peludo clandestino…

O turno estava a terminar e Mariana atravessou para a traseira do autocarro, espreitando cuidadosamente debaixo de todos os assentos.

Para ela, o autocarro era quase uma segunda casa e, tal como em casa, em casa de Mariana reinava sempre uma limpeza imaculada. Talvez porque em casa ninguém lhe fazia desarrumação?

Ó Mariana, já está na altura de arranjares um homem diziam-lhe as colegas despachadas lá do terminal. Já vais a caminho dos trinta, sempre sozinha E vê lá tu estares ao volante, nem profissão de mulher é! Aqui os homens até perdem a paciência com tanto passageiro complicado!

Só me aparecem passageiros simpáticos respondia ela, sorrindo. Gosto do meu trabalho. E um homem não é como um gato ou um cão que se vai buscar à loja!

As colegas trocavam olhares de sabedoria. Elas bem sabiam o trabalho que um homem ainda podia dar, mais do que qualquer bicho de estimação.

Então ao menos adopta um gato! Sempre fazes companhia, rapariga aconselhavam, amigas.

Mariana sorria com desânimo:

O gato é que não se deixa adotar até agora… dizia-lhes, e ia para casa, punha música baixinho, preparava o jantar, depois lia um bocado e ia dormir…

Os dias, uns iguais aos outros. Ao fim de semana nem gostava de estar em casa; dava-lhe tempo a mais para si própria. Por isso, nesses dias, fazia questão de ir passear de autocarro: gostava de se sentir passageira, como alguém cujo destino era a felicidade, entregue a mãos alheias…

Aquele dia não fugia à rotina. Findo o turno, foi inspeccionar o interior do autocarro, pronta para ajeitar tudo.

Ao espreitar sob o banco de trás, teve um sobressalto. Dois olhos brilhantes fitavam-na!

Ó, és tu? Miau-miau-miau! Como vieste aqui parar? Mariana baixou-se de cócoras. Perdeste-te, foi?

O gato apenas a observava, calado.

Depois de respirar fundo, Mariana ganhou coragem e tentou agarrá-lo, contando que o casaco lhe protegesse das possíveis unhas do clandestino felpudo.

O gato deixou-se puxar e, assim que o tirou de debaixo do banco, Mariana conseguiu inspeccioná-lo melhor.

Era um animal vistoso.

Mariana não ligava muito a raças de gatos, mas aquele rosto peculiar e o pelo farto denunciavam um persa. No pescoço, um colar com uma medalha.

Merlin leu em voz alta, rodando o gato de um lado para o outro. Ora vejam só, será que és mesmo o grande mago Merlin?

O gato bocejou, sem negar a possibilidade.

E agora, o que faço contigo, senhor Feiticeiro? decidiu tratá-lo com deferência, afinal tinha nome de respeito E onde vamos à procura dos teus donos?

O gato olhou-a e voltou a bocejar, como quem diz: “Eu é que sei? Sabes que mais, estou era com fome, e uma soneca também me dava jeito!”

Era óbvio Mariana só tinha uma hipótese. Quer dizer, no fundo eram duas, mas quem teria coragem de abandonar um clandestino assim na rua?

Ora então, vais dormir em minha casa hoje e amanhã meto um anúncio com a tua fotografia. Certamente há alguém à tua procura!

O gato não se opôs. Mas, mal Mariana se encaminhou para a porta do autocarro, ele começou a dar voltas a querer saltar-lhe dos braços.

Então, o que foi? perguntou, sem saber falar gatês, mas o gato saltou, voltou para debaixo do banco e apareceu, logo a seguir, com algo entre os dentes.

Que tens aí? questionou, inclinando-se.

O gato largou na mão de Mariana um bilhete de lotaria.

Ora esta! Mariana ficou pasmada Deixa cá ver O teu dono perdeu-te a ti e ao mesmo tempo este bilhete?

O gato apenas a fitou, como a dizer: Vamos ou não vamos para casa?

Mariana apressou-se, a matutar se deveria mencionar o bilhete no anúncio. E se alguém tentasse enganá-la dizendo ser o dono, só por querer o prémio?

Era melhor ser esperta! Por hora, precisava era de comprar algo especial para o visitante.

O que é que gostas? perguntou-lhe, estando já no supermercado diante da secção de comida para gatos.

Merlin examinou os pacotes e, finalmente, puxou um deles com a pata. Mariana aproximou-se da prateleira.

É este mesmo? confirmou ela.

O gato agarrou o pacote com a boca. Dúvida desfeita.

És mesmo inteligente! elogiou-a.

O gato miou, como quem diz: Isso eu sei! Feitas as compras tanto para ela como para o Merlin seguiram para casa.

Anda, faz de conta que estás na tua casa! disse, pousando-o no chão.

Merlin partiu logo à descoberta. Mariana foi preparando a comida; não tinha loiça própria de gato, improvisou com dois pires um para a comida, outro para a água.

Assim que o animal comeu, Mariana tirou-lhe uma fotografia e montou um anúncio. Preferiu não mencionar o nome e muito menos o bilhete de lotaria.

Imprimiu o anúncio e mostrou-o ao Merlin.

Olha só, ficaste tão bonito! Amanhã penduro-o no autocarro, pode ser que o teu dono apareça! Ai…

De repente, percebeu: amanhã era o seu turno! Onde havia de deixar o gato?

Levá-lo consigo? Impossível distraía-se e, num motorista distraído, é o passageiro que paga.

Deixá-lo sozinho? Seria impensável já bastava o susto de se ter perdido!

Foi aí que se lembrou do Rui, o vizinho do lado no patamar. Ele trabalhava em casa, bastava-lhe um computador e ligação internet, do resto não precisava. Às vezes cruzavam-se nas escadas, sobretudo em alturas que o Rui ficava sem nada no frigorífico. Era alto, desajeitado, de óculos.

Entreolhavam-se e cada um seguia o seu caminho. Mas o Rui era de confiança para encher de mimos um gato!

Com nova dose de coragem, Mariana tocou-lhe à porta. Apareceu o Rui, despenteado, chinelos e calças largas. Olhou para Mariana com surpresa.

Explicou-lhe o pedido com a maior das persuasões. Não foi preciso insistir ele limitou-se a acenar, aceitava sem reclamar e ficou com a chave suplente.

Por um instante, Mariana sentiu um aperto, pois o vizinho quase nem reparou nela. Soltou um suspiro e voltou para sua casa.

Miau-miau! Merlin, onde estás?

O gato estava junto à porta da varanda, mostrando, com toda a pose, que queria sair.

Mariana hesitou. Concluiu que um gato tão esperto não saltaria do oitavo andar. Abriu a porta, saíram ambos.

Merlin saltou graciosamente para o parapeito. Mariana assustou-se e correu a segurá-lo.

O gato olhava-a de lado, com desdém irónico, depois ergueu a cabeça para o céu estrelado. Mariana, acariciando o pelo do animal, também olhou… E viu as estrelas.

O céu cintilava de mil olhos brilhantes. Uma estrela cadente cruzou o horizonte como uma lágrima.

O gato roçou a cabeça na mão dela, como a dizer: “Então, pede um desejo!” E Mariana pediu

Adormeceu logo que se deitou, sem sequer abrir um livro ou pôr nenhum filme. Talvez porque, ao seu lado, o Merlin ronronava uma música de embalar

Na manhã seguinte, depois de instruir Rui, ainda ensonado, sobre os cuidados ao animal, partiu para o trabalho.

Todo o dia pela cidade, o anúncio do desaparecido no autocarro. Ninguém mostrou interesse pelo destino do bichano.

Mariana teve vergonha de si, mas por dentro sentia-se feliz. Voava, quase, para casa, onde a esperavam

Cheirava a café acabado de fazer. Ela só bebia instantâneo, notou logo a diferença.

Fiz um bocadinho de arrumação, espero que não leves a mal, mas trouxe o meu café. O teu sabe a nada. Queres? disse-lhe Rui.

Quero! aceitou Mariana, sorridente. E o Merlin?

O gato apareceu no corredor, com ar orgulhoso. Aproximou-se e esfregou-se nas pernas de Mariana, mostrando o quanto lhe agradecia.

O teu Merlin está impecável declarou Rui, abaixando-se para lhe fazer festinhas Sabes que há muito tempo não descansava assim tão bem? Tentei trabalhar, mas deixei o computador e reparei que me apetecia era inventar histórias…

Lembrei-me que já escrevi contos. E os dedos começaram a escrever sozinhos encolheu os ombros Escrevi uma história sobre um gato.

Mostras-me? perguntou Mariana, interessada.

Críticas tuas? Não tem jeito! respondeu o Rui, a pensar que refilava, mas via-se que queria mostrar.

Claro que quero! Adoro contos! Gosto de fantasia, mas é quase igual! assegurou ela.

Acabaram os dois a beber café bom e a ler o conto, enquanto Merlin os observava com ar paciente, como quem vê dois gatinhos curiosos a brincar.

O conto agradou a Mariana. Quando Rui se despediu, restou-lhe uma leve tristeza. Mas tinha o gato ao seu lado.

E eis que a campainha tocou. Merlin escondeu-se mas acercou-se da porta, empinado. Mariana perguntou:

Quem é?

Venho pelo anúncio ouviu, e ficou imóvel.

Pensou em não abrir, mas isso seria desonesto. Abriu. À porta, um homem idoso, alto, num sobretudo preto, que sorria:

Não se assuste, menina. Vim mesmo pelo gato. E para não restarem dúvidas: ele chama-se Merlin. Veja, já veio a correr.

O gato saltou-lhe ao colo, sem hesitações.

Entre, faça favor disse Mariana, quase sem voz.

Sentiu vontade de chorar. Como se pode afeiçoar a um gato em tão pouco tempo! O idoso entrou, cheirou o ar e sorriu. Pareceu-lhe que trocaram olhares cúmplices, ele e o gato.

Dê-me café, se faz favor pediu ele, amável.

Mariana preparou café, felizmente Rui deixara uma lata bem cheia. O velho e o gato contemplaram-se todo o tempo num silêncio cheio de significados.

Diga-me interrompeu ele encontrou mais alguma coisa?

Mariana ficou corada. Foi buscar o bilhete de lotaria, estendeu-lho; mas o velho afastou-lhe a mão.

É para si disse-lhe, com um sorriso.

Mas o bilhete é seu! contrapôs Mariana.

Mas foi a menina que encontrou. E Merlin não se opõe sorriu, olhando para o gato.

E se for premiado? hesitou ela.

Vai rejeitar a oportunidade de ser um pouco mais feliz? perguntou o velho.

Mariana baixou o olhar. Foi exatamente esse o desejo que fizera à estrela!

Dê uma chance à felicidade, minha querida aconselhou ele, simpático E não se apoquente! Havemos de nos reencontrar. Quando regressar…

Regressar de onde? quis perguntar Mariana, mas o velho já se despedia, fechando delicadamente a porta.

A chave rodou sozinha na fechadura. Mariana percebeu que se ia deixar dormir, quase sem dar por isso… Sonhou com o conto do Rui.

Sobre um poderoso feiticeiro que só pensara em si próprio; as suas magias nunca traziam felicidade aos outros, e, como castigo, fora transformado em gato. E teria de andar pelo mundo assim, até quebrar o feitiço…

No dia seguinte foi para o trabalho, mas pareceu-lhe que o sol brilhava mais, que os passageiros sorriam mais, e o autocarro rolava leve na estrada.

Sim, conferiu o bilhete da lotaria e já nem ficou surpreendida ao ganhar uma viagem ao Algarve. Mais do que o prémio, espantou-a o patrão deixá-la ir logo:

Vai lá descansar, Mariana. Já devias. Os homens ficam à vontade, não te preocupes!

Depois veio o mar, estrelas, e a sensação de ter renascido.

Regressou revigorada, trouxe conchas e um bocadinho do mar, que agora murmurava dentro dela.

Ao abrir a porta de casa, cruzou-se com Rui no patamar. Alto, trapalhão, despenteado.

Ontem vieram cá ter contigo disse Rui. Pedira para te dizer… deteve-se, a olhá-la bem, depois concluiu: Estás diferente. E muito bonita.

Obrigada sorriu Mariana. E o que tinham para me dizer?

Rui deu uma palmada na testa e voltou dentro. Apareceu com uma cria de persa cinzenta, felpuda, no colo. O arzinho dela era familiar, meio altivo.

Quer dizer são todos assim os persas.

É filho do teu gato Bem, do gato que encontraste. Chamam-lhe Artur.

Segundo o senhor, só tu (enfim nós) podíamos ficar com ele neste ponto, Rui corou. Na verdade, ele disse bom, sabes, de outra maneira

Como? perguntou Mariana, sentindo o coração bater com força.

Disse que podiam confiar a educação dele só a nós, juntos confessou Rui.

Miau! confirmou o pequeno Artur, estirando-se para a nova dona.

Mariana estendeu a mão e encontrou também a de Rui. E naquele mundo houve, de repente, um pouco mais de aconchego, calor e pura felicidadeOs dois sorriram, mãos entrelaçadas, e pela primeira vez Mariana não pensou no silêncio vazio do fim dos dias, mas no calor partilhado dos pequenos gestos. Artur ronronou, saltando para o colo de ambos, e Mariana sentiu uma alegria funda a encher-lhe o peito.

O corredor encheu-se de luz, como se fosse manhã dentro de casa. Mariana olhou para Rui e percebeu que, afinal, também se pode ser feliz sem grandes feitiçosbasta confiar no acaso, aceitar companhia, abrir a porta ao inesperado.

E, dali em diante, nunca mais a casa esteve vazia nem o coração de Mariana.

Com um miado curto e satisfeito, Artur selou o pacto: onde há afeto, há sempre espaço para mais um milagre.

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„Anjel s tajomstvom“