O Melhor Presente é Ser a Minha Própria Companhia

ELA MESMA, O SEU PRESENTE

Leonor Figueira uma morena simpática de olhos claros, com seus cinquenta e poucos anos, corpo elegante apesar de inclinar-se discretamente para as curvas, estava à janela da suite presidencial de um hotel cinco estrelas em Sintra, a saborear um cálice de licor de noz enquanto pensava:

«Pois é, cá estou eu… uma divorciada de meia-idade, sozinha, num hotel para casais apaixonados. Ainda bem que estou num suite decente, porque se fosse num motel ao pé do IC19 seria uma vergonha completa».

Leonor estava convicta de que o romance tinha acabado há pelo menos vinte anos, mais coisa menos coisa, naquela altura em que os filhos batiam as portas e atravessavam a adolescência. Os homens ainda apareciam de vez em quando, mas tudo acabava sempre numa desilusão quase depressiva, e ela decidira que relações amorosas já não eram para si.

Até que apareceu Ele um galanteador virtual. Escrevia-lhe mensagens tão ternas que as bochechas lhe ficavam rubras e as costas se aprumavam involuntariamente. Eram mensagens dignas de se emoldurarem e pendurarem no frigorífico para reler e, ao mesmo tempo, afastar-se desse mesmo frigorífico. Às vezes, Leonor pensava que o admirador frequentava uma tertúlia literária ou então tinha tempo de sobra.

Voltou a ser Leonorinha. Comprou um vestido que fez inveja às colegas do escritório, um soutien ao preço de uma passagem aérea Lisboa-Ponta Delgada e até se inscreveu num ginásio. Fazia agachamentos com tanta entrega, como se a sobrevivência da civilização dependesse disso.

«Se eu morrer amanhã de tanto agachar, por amor de Deus, enterrem-me neste vestido. Para o meu ex se roer de inveja», gracejava ela, meio sombria, às amigas.

O encontro aconteceu. Correu bem. Os detalhes ficam no segredo dos deuses. Basta dizer que, depois, Leonor achou graça ao seu reflexo no espelho: ali estava, rejuvenescida e feliz.

Mas o segundo encontro nunca se concretizou. Tinham combinado um fim de semana romântico em Óbidos. Leonor planeou, preparou-se, andou ansiosa, e ele à última hora sofreu uma crise de tensão alta. Resultado: ela sozinha, no hotel, numa vila que não era a sua. A idade já não aguentava tais stresses, e a vida parecia piscar-lhe o olho: Menina, não te estiques.

Sentou-se à janela com o cálice do licor e tentou racionalizar:

«Ora, não faz mal. Como vou contar isto aos netos? Avó, como foi a tua segunda juventude? Na fila do parque do aeroporto, à espera de um senhor com comprimidos para a tensão. Que romantismo!»

Na manhã seguinte, foi ao spa do hotel e decidiu: «Pronto, querida, acabou-se. Agora, só festas para mim mesma. Vou aproveitar isto tudo ao máximo.» No spa, disseram-lhe que a sua pele estava luminosa. Olhou-se ao espelho e pensou: o brilho está lá, sim, mas mais graças ao óleo de massagem do que à juventude.

O passeio por Óbidos foi delicioso. O guia, alto e grisalho, voz aveludada. Uma senhora de fato de treino tagarelava ao lado, mas Leonor só tinha ouvidos para ele. Enquanto o guia falava das disputas medievais, Leonor pensava: durante séculos, eles lutaram pelas cidades, e nós pela atenção deles. No fundo, continua tudo igual.

Tem mesmo que provar a ginjinha com pastel de Óbidos sugeriu o guia, levando o grupo à pastelaria mais afamada e fitando-a com doçura.

O pastel era divino. Leonor quase se apaixonou outra vez mas pelo recheio de amêndoa e creme. «Pelo menos dos doces posso sempre esperar lealdade ao contrário dos homens», sorriu com malícia.

Depois veio o shopping: um colar de filigrana dourada e um vestido verde-mar, tão decotado que ela própria lhe piscou o olho no provador. Era tão ousado que nem sabia se teria coragem de usá-lo. Mas isso não a deteve.

No avião de regresso a Lisboa, Leonor olhou pela janela e suspirou: Óbidos ficava para trás, assim como as expectativas românticas.

Ora bem… talvez se reencontrem, ou talvez não. A vida, felizmente, continua.

Pela frente, esperava-lhe um novo guarda-roupa, umas boas férias e, quem sabe, mais um pastel de Óbidos. Com homem ou sem homem.

«E se for sem, que venha com uma bola de gelado de baunilha», pensou, sorrindo e entregando-se, enfim, a um sono tranquilo.

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Cena jeho nového života