Os pais do meu marido não se conformam – querem que ele volte para a ex-mulher. – Não percebem, afinal têm um filho juntos! – desabafa a minha sogra.

Estou casada com um homem cujos pais nunca aceitaram, de facto, que o filho já se tinha divorciado há muito tempo. Já lá vão mais de quatro anos. Tentam sempre, de todas as formas, reaproximá-lo da antiga família. Eu e ele casámo-nos há três anos. Vivemos juntos num quotidiano feliz. Mas a minha sogra acha que o filho dela agiu impulsivamente, sem ponderar, e que deve recuperar a antiga vida familiar, custe o que custar. Afinal, dizem eles, o nosso neto está lá.

Quando conheci o Ricardo, já era divorciado. Segundo o que contava, o divórcio foi pacífico, de mútuo acordo. Ela já se tinha casado novamente, muito feliz. Talvez o motivo do fim deles tivesse sido um romance paralelo.

Talvez tenha sido um erro termos casado. A minha mãe forçou isso. Ela ficou grávida e eu nem sequer estava apaixonado. Só namorávamos, nada de grandioso. Se não tivesse engravidado, confesso, nem teria pensado em casamento foi assim que Ricardo me falou, numa noite estranha, em voz sonâmbula.

Não temi a ex-mulher dele. Decidi, de início, observá-lo melhor. Vi que ele não sentia falta dessa família nem da ex-mulher. Também ela era alheada, casada de novo, comunicavam só por causa do filho.

Só a minha sogra não suportava esta realidade. O sogro também parecia viver preso ao passado, agarrado aos retratos das arribas de Nazaré daquela outra família. Tentaram sempre, como quem tem um segredo, juntar as vidas velhas. E, claro, não viam com bons olhos o nosso amor.

Ainda são tão novos, a vida toda pela frente… porque é que te foste atirar assim para o meio das lutas de outros? perguntou-me ela, uma vez, no silêncio amplo dum velho corredor laminado de azulejos.

Respondi-lhe que, se o Ricardo fosse casado, não me teria atravessado. Mas ele estava sozinho, e era assim mesmo. A minha sogra ia continuar, mas nesse instante Ricardo entrou como num sonho, e ela calou-se de repente. Então percebi: nunca haveria harmonia entre mim e ela. Mas isso não me pesou.

Casámo-nos e começámos uma vida juntos, em Lisboa, sem quase contactos com ela. Só nos víamos em jantares festivos, por obrigação. Passava esses serões a ouvir murmúrios sobre a antiga nora, suspiros e loas. O Ricardo tentava silenciá-la mas, como que em repetição, tudo recomeçava logo no dia seguinte.

Não tivemos pressa de ter filhos. Nunca me imaginei mãe. O Ricardo já tinha o seu rapaz, para alegria da sogra. Quando se divorciou, ela aceitou… mas logo passou a convidar a ex-nora para o Natal, suspirando pelos bons velhos tempos. E lá estava a ex-nora, vinda só por educação, imperturbável, quase como se flutuasse naquele sonho estranho.

A sogra bem tentava: queria fazer ciúmes ao Ricardo, perguntar-me insistentemente se eu sabia por onde andava ele. Quando não sabia, sugeria que estivesse com a ex-mulher. Mandava-o ir ter com ela, inventava mil razões. Tudo isto pairava no ar, mudando de forma como um nevoeiro inexplicável.

Eu nunca tive ciúmes, mas aquilo moía-me. Vistos de fora, Ricardo e a ex-nora não tinham nada a unir além do filho, e nem sequer existia tensão. Apenas alguma educação e distância civilizada: ele enviava-lhe euros todos os meses, falava com o filho, por vezes trazia-o a passar fins-de-semana connosco. Ela nunca pedia dinheiro, nunca dificultava a convivência, parecia fantasmagórica correta, invisível. Cada um seguia o seu caminho, respeitando o outro. Tudo normal.

Só a minha sogra não conseguia entrar nesse ritmo. Trama e suspira, tornando a casa num palco de novela. Quando sossegará? Quando a invadirá a sabedoria, como o cheiro do pão quente de madrugada nas feiras de Setúbal? O Ricardo acredita que, quando eu lhe der um neto, tudo se resolverá como por encanto.

Não partilho da mesma esperança… e o sonho continua, à espera desse despertar.

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Os pais do meu marido não se conformam – querem que ele volte para a ex-mulher. – Não percebem, afinal têm um filho juntos! – desabafa a minha sogra.
– “Не си позволявай да се обличаш така в моя дом!” – прошепна свекърва пред гостите