Volta e Cuida de Mim

– Beatriz, abre já a porta! Sabemos que estás aí! A Susana viu a luz na janela!

Beatriz terminava de amarrar um ramo de lisianthus à estaca de madeira, as mãos já riscadas de verde, o avental manchado de terra. Levantou os olhos e olhou para a porta de vidro do ateliê. Atrás dela, duas silhuetas aguardavam. Reconheceu logo uma: ombros largos, cabelo curto pintado de ruivo quase violeta. Leonor Pacheco. Sogra. Ex-sogra.

Beatriz não teve pressa. Colocou a lisianthus num balde de água, tirou as luvas e pendurou-as no prego ao lado da mesa de trabalho. Só então foi abrir.

– Boa noite, murmurou, empurrando o ferrolho.

Leonor foi a primeira a entrar, sem esperar convite. Atrás dela esgueirou-se Susana, irmã do António, olhos vermelhos e cachecol mal enrolado pendendo como um lenço esquecido.

– Que noite é esta, Beatriz, estás a brincar? Leonor percorreu a oficina com o olhar, à procura de algo que pudesse criticar. Achou: E tu, entretida com as tuas flores, enquanto o António agoniza!

– Quem está a morrer? perguntou Beatriz, neutra.

– O António! gritou Susana, cobrindo de imediato a boca com a mão. Teve um acidente, está no hospital. Coluna.

Beatriz manteve-se em silêncio. Por dentro, qualquer coisa contraiu-se, mas não do mesmo modo como há um ano, quando ouvir o nome António fazia tudo doer. Agora era diferente. Um nó discreto, o recuo instintivo de quem já se queimou e guarda sempre distância do fogo.

– Sentem-se indicou Beatriz com um gesto seco para os bancos junto à mesa.

– Não vimos para nos sentar cortou Leonor, mas mesmo assim deixou-se cair sobre o banco, com esforço. Beatriz lembrava-se Leonor tinha más pernas, varizes, tensão alta.

Susana ficou em pé, enrolando o cachecol nos dedos.

– Contem-me tudo direito pediu Beatriz.

Contaram, interrompendo-se uma à outra, cada qual acrescentando ou contradizendo detalhes. Três dias antes, António seguia pela autoestrada. Chovia. O carro derrapou e bateu forte no rail. Destroçado, disseram, só ele escapou. Fratura na coluna, cirurgia feita, mas perspetivas incertas, os médicos não garantiam nada. Podia voltar a andar ou não. Precisava de cuidados, de alguém próximo.

– E a Joana? perguntou Beatriz.

Disse-o com uma calma que a surpreendeu. Joana, vinte e nove anos, comercial, por quem António abandonara Beatriz após dezoito anos de casamento.

Leonor apertou os lábios.

– Foi-se embora.

– Para onde?

– Para casa da mãe, em Fafe. Susana tapou a boca, mas desta vez de raiva, não de dor. Soube que ele talvez ficasse sem andar, fez as malas a correr. Dois volumes em menos de três horas. Nem atende as chamadas.

Silêncio. No ateliê só o gotejar persistente de uma torneira mal fechada, o cheiro de terra molhada misturado ao adocicado dos lírios.

– O que é que querem de mim? perguntou Beatriz finalmente.

Leonor endireitou-se no banco.

– Beatriz, tu e ele viveram juntos dezoito anos. Não são só palavras, tu conheces o António como ninguém. Sabes cuidar dele, ele ouve-te. Agora precisa de alguém

– Leonor, cortou Beatriz, falamos do homem que me deixou por outra. Que há um ano não arranjou lugar para mim nesta vida que demos juntos dezoito anos a construir.

– Não digas disparates, interveio Susana. Isso ficou para trás. Agora está em causa a vida dele!

– A vida?

– O médico disse: sem cuidados contínuos, pode complicar! Escaras, infeções, pneumonia! Beatriz, a operação foi à coluna, percebes? Não é uma constipação!

Beatriz foi até à torneira, fechou-a devagar. Olhou para as mãos. Cinquenta e três anos feitos. Mãos que faziam arranjos de flores que os clientes emolduravam, que sabiam fazer bolos, dar injeções ao filho com febre alta, enfaixar o dedo cortado do António, arranjar tomadas, carregar sacos do mercado. Faziam tudo. E em tantos anos, Beatriz nunca parara para pensar se queria mesmo fazer tudo aquilo ou se só fazia porque sempre se fez assim.

Secou as mãos no pano e voltou-se.

– Vou pensar.

– Não há tempo para pensar! Leonor ergueu-se, voz firme, quase ameaçadora. Enquanto pensas, ele está sozinho naquele hospital! Sem esposa, sem ninguém! A Susana trabalha o dia inteiro, eu mal caminho! Não podes ficar aqui entre flores, a fingir que não te diz respeito!

– Mas diz-me respeito? perguntou Beatriz baixinho.

Silêncio.

Lá fora, pela porta de vidro, a noite já caía sobre o Porto. Outubro. Escurecia cedo. Da janela, Beatriz via o candeeiro amarelo da rua, o passeio molhado, o banco vazio à entrada onde, no verão, os clientes esperavam os ramos.

Isto é a vida real, pensava. Uma cena qualquer dum filme? Não, é vida. Duas pessoas exigem que te tornes de novo o que já não és.

– Está bem cedeu Beatriz. Amanhã de manhã passo pelo hospital. Vejo como ele está. Mas não prometo nada.

Leonor expirou de alívio. Susana abraçou Beatriz, que ficou de braços caídos, e só esperou com paciência que ela se afastasse.

Quando saíram, Beatriz sentou-se muito tempo no banco vago da sogra. Olhou as flores as lisianthus no balde, cor de rosa, botões como cartas enroladas. Crisântemos nas caixas junto à parede. Ramos de fisális como lanternas cor de laranja. Construiu aquele lugar sozinha, alugara o ateliê três meses depois de António sair. Pintara as paredes em tons de cinza, ela própria, e as portas dos armários foi o senhor Manuel do segundo andar que pendurou a troco de uma boa garrafa de vinho do Douro. Nascera aqui o nome Talho das Flores no início pareceu-lhe ridículo, depois pegou. Encontrou fornecedores, criou uma página na internet, aprendeu a fotografar flores até fazer parar quem passasse.

Um ano. Um ano a aprender a viver para si. Afinal, viver para si não é egoísmo nem capricho: é simplesmente normal.

E agora, lá está.

Desligou a luz grande e deixou só o pequeno candeeiro, como sempre fazia. Saiu a caminho de casa.

O hospital era dos antigos, corredores em azulejo branco, cheiro a lixívia e sopa insossa misturado a qualquer coisa que só nos hospitais se sente. Beatriz achou o serviço certo, perguntou à auxiliar. A mulher olhou-a de lado:

– É familiar?

– Ex-mulher.

Um erguer de sobrancelha, nada mais. Explicou-lhe o caminho.

António estava num quarto de quatro camas, as outras vazias. Coberto até à cintura, mãos expostas, emagrecido, olhos fundos, cara sombria. No armário, um copo com chá frio e o telemóvel virado para baixo.

Viu Beatriz e o seu rosto mudou. Não alegria serenidade, como quem já esperava.

– Beatriz, murmurou.

– Olá, pousou um saco na mesa: maçãs e água mineral. Não por querer agradar, mas porque ir de mãos vazias a um hospital não era costume.

Não se sentou na cama, mas na cadeira perto da janela.

– Dói? perguntou.

– Suportável. Dão comprimidos. Pausa. Vieste.

– Vim.

– A minha mãe disse que tinham ido até ti.

– Sim.

Olhou o tecto. Voltou-se de novo para ela.

– Pensei que não vinhas.

– Eu própria pensei não vir.

Silêncio. Cá fora, lascas de chuva arrastavam Novembro sobre Outubro, apressando os dias.

– A Joana foi-se embora, disse António.

– Eu sei.

– É isto, então. Um sorriso torto. Como nos filmes. Só que aqui é tarde demais.

Beatriz não respondeu. Não ia ter pena, também não veio para julgar. Só o viu aquele homem com quem partilhara dezoito anos, um filho, verões seguidos na mesma praia em Armação de Pêra, discussões e reconciliações. A vida como ela é e não existe outra.

– Beatriz, e a voz mudou, tornou-se mais baixa, íntima, como antes, quando queria convencê-la de algo. E ela manteve-se de sobreaviso, instintivamente. Estive a pensar muito aqui deitado. Quando estamos assim, tudo fica claro. Fui tolo. O que valia na minha vida eras tu. A casa, a família, tudo isso. A Joana tu percebes. Não peço desculpa, sei que é tarde. Mas és a pessoa mais próxima que eu tenho. A mais minha.

Beatriz escutava, como quem vê as palavras a alinhar-se, todas para convencê-la, não por ela, nem por amor, mas porque precisava de alguém que lhe mudasse o penso, falasse com os médicos, trouxesse comida de casa, cuidasse. Porque Beatriz sabia fazer isso tudo.

Relações depois do divórcio, pensava ela. Às vezes são assim. Nem belas nem terríveis. Só úteis. Encontram-nos quando faz falta. Não por amor, mas por conveniência.

– António, disse, fico feliz de estares vivo. E da operação ter corrido bem. Mas não vou voltar. Nem para cuidar, nem para mais nada. Estamos divorciados.

– Sei que estamos

– Deixa terminar.

Cale-se. Nem esperava, costumava interrompê-la sem pensar. Agora surpreendia-se.

– Vou tratar de encontrar uma enfermeira, alguém bom, profissional. Pago o primeiro mês, porque tu agora não tens cabeça para estas coisas. Mas não faço mais nada. Tirou da mala uma pasta, demorou a encontrá-la porque se escondia atrás do porta-moedas e do bloco de notas. Aqui estão os papéis. Faltava terminarmos o acordo de partilhas, e tu protelaste sempre. Nem eu forcei, não me apetecia reviver tudo. Mas peço agora que assines.

António olhou a pasta.

– Estás mesmo a falar a sério.

– Completamente.

– Estou em pós-operatório e trouxeste-me papéis.

– Sim. Amanhã já podes dizer que não estavas bom. Ou o advogado dizer que a assinatura foi forçada. Agora estás lúcido, consciente. O médico pode atestar.

Olhou-a longo tempo. Ela não desviou o olhar.

– Mudaste, declarou.

– Mudei.

– Antes não conseguias.

– Talvez.

Pegou nos papéis. Folheou-os. Beatriz deu-lhe uma caneta.

Nesse momento entrou o médico. Baixo, quarenta e cinco anos, bata cinzenta, pasta de relatórios debaixo do braço. Cara serena, cansada, de quem já perdeu o hábito de fingir entusiasmo onde não há.

– Boa tarde, cumprimentou, olhando rapidamente para Beatriz, com gentileza discreta. Sou António Marques, o médico responsável.

– Beatriz, apresentou-se.

– É

– Ex-mulher pela segunda vez nesse dia repetia aquilo. Começava a sentir o eco da expressão.

O médico acenou, como se nada fosse extraordinário, e virou-se para António.

– Sr. António, como passou a noite?

– Bem. Dormi.

– Ótimo. Anotou no bloco. Hoje vamos levantar um pouco a cabeceira, ver como tolera. Há progresso, é cedo para garantir, mas está a evoluir.

– Doutor, pediu Beatriz, pode falar comigo um minuto?

Foram ao corredor. Beatriz fechou a porta atrás de si.

– Quero contratar uma enfermeira. Profissional. O que recomenda? Qual deve ser o perfil, experiência, e que equipamentos ou ajudas devo comprar?

O Dr. António Marques olhou-a atentamente.

– A senhora não vai cuidar pessoalmente?

– Não.

– Compreendo. Pausa curta. Digo-lhe sinceramente: é o melhor. Não leve a mal, mas familiares que tratam por obrigação ou mágoa muitas vezes causam mais tensão ainda. O doente precisa de serenidade, cuidadores experientes sabem lidar com tudo isso. Raramente os familiares conseguem.

– Diz isto a todos?

– Só a quem pergunta.

Quase sorriu. Quase.

– Então, por favor, aponte o que é preciso Beatriz tirou o telemóvel.

O médico ditou pontos, ela anotou. Sugeriu agências que trabalhavam com o hospital, pediu à rececionista os contactos. Beatriz agradeceu.

– Acrescento só uma coisa, disse ele no fim. Ele tem boas hipóteses de recuperar. É novo, operação sem complicações. Talvez em seis meses ande. Mas não é garantido, e será lento.

– Compreendo.

– O fundamental é que ele também compreenda.

Beatriz voltou ao quarto. António tinha a pasta pousada sobre o peito. Caneta ao lado.

– Vais assinar?

Olhou o tecto.

– E se disser que quero pensar?

– António.

– Sim, assino. Vais sempre conseguir o que queres. Agora és assim.

– Sempre fui assim respondeu Beatriz. Só antes escondia.

Assinou as três páginas. Beatriz guardou-as.

– Até ao fim da semana trato da enfermeira avisou. Explico tudo à Susana. Transferirei o dinheiro para a agência. Depois vocês decidem.

– Beatriz, chamou ele, enquanto ela fechava a mala.

– Sim?

– Obrigado por teres vindo.

Olhou-o demoradamente. Sem pena, sem rancor. Só o encarar, como se olha para um capítulo antigo da vida que já não é o presente.

– As melhoras, António.

E saiu.

No corredor deteve-se junto à janela. Lá fora, o pátio interior do hospital, árvores nuas, banco encharcado de chuva. Um velhote de robe sentado, a olhar longe, embora não houvesse muito para ver. Simplesmente respirava o ar da rua.

Beatriz também inspirou fundo.

Sentiu aliviar-se algo. Não tudo, mas o essencial. Como pousar uma mala pesada no chão, sem atirá-la. Endireitou as costas.

Como se deixa o passado, teria escrito num diário que nunca manteve. Não sei. Mas não acontece de repente, nem é uma só decisão. São passos pequenos. Um deles acabara de dar.

A enfermeira surgiu em dois dias, vinda de uma agência. Dona Alice, cinquenta e oito anos, vasta experiência em geriatria e reabilitação, calma, profissional, com urna pasta de recomendações. Beatriz marcou encontro com ela num café perto do hospital, explicou-lhe a situação. Alice ouviu, fez perguntas sensatas: carácter do doente, propensão para desânimo, sensibilidade à dor. Parentes à volta?

– Os familiares mais atrapalham do que ajudam por vezes comentou Alice. Não é culpa deles. Mas é assim.

– Concordo anuiu Beatriz.

Acertaram os detalhes, Beatriz fez a transferência. Ligou a Susana, explicou tudo. Susana começou por protestar, dizendo que o António queria era ter família por perto, mas Beatriz interrompeu-a com suavidade e firmeza, o que para si foi uma descoberta. Antes ou não interrompia, ou interrompia a reclamar. Agora, só decidiu parar suavemente.

– Susana, podes visitá-lo todos os dias se quiseres. A Dona Alice não te exclui. Mas eu não vou. Agora tenho a minha vida e ela não tem que se adaptar às crises dos outros.

Susana hesitou, por fim respondeu:

– Pronto.

Só pronto. Nada de acusações, sem lágrimas. Talvez também estivesse cansada. Talvez, lá no fundo, compreendesse que Beatriz tinha razão.

Leonor ligou passada uma semana. A voz outra: baixa, envelhecida.

– Beatriz, a Alice é muito boa. O António começa a habituar-se. Obrigada por tudo.

– De nada, D. Leonor.

– Não desapareças de todo. Telefona de vez em quando.

Beatriz nem sim nem não. Apenas despediu-se e guardou o telemóvel no bolso do avental. Estava, como quase sempre, no ateliê. Se alguém lhe perguntasse agora como se larga o passado, responderia: vive-se. Não heroicamente, não de fachada. Vive-se. Acorda-se, trabalha-se, faz-se o que se gosta. Os parentes tóxicos e ex-maridos não desaparecem das nossas vidas. Só deixam de ser o centro dela.

Naquele ano o inverno chegou cedo ao Porto. Em novembro caiu granizo e Beatriz deu por si a apreciar a estação pela primeira vez. Antes nunca pensara se gostava do inverno. O António sempre reclamava do frio, do reumatismo e do chá quente servido à hora certa. Agora, podia olhar da janela e pensar só: bonito. Era tudo.

Em dezembro aumentaram as encomendas. Arranjos corporativos, presentes, centros de Natal. Beatriz contratou uma ajudante Mafalda, vinte e três anos, estudante, sorridente, rápida, um pouco distraída mas curiosa. Trabalharam bem juntas. Beatriz ensinava a ver a flor como pigmento de artista, não só produto. Mafalda ouvia e, por vezes, surpreendia-a com sugestões originais.

– Como te ocorrem estas ideias? perguntou-lhe um dia.

– Olho para quem pede e penso: que flor seria parecida com esta pessoa? Ou com quem a vai receber.

Beatriz sorriu.

– É um bom método.

– Aprendi consigo. Sempre diz que o ramo tem de ser vivo.

Beatriz não se lembrava, mas talvez tivesse dito. Porque realmente acreditava nisso.

Janeiro, fevereiro. A vida seguia o seu compasso. Beatriz matriculou-se num novo curso de arte floral, apesar de Mafalda protestar que ela já nada tinha a aprender. Beatriz explicou que aprender não era sobre o que faltava saber, mas por curiosidade. Um argumento novo, para ela. Antes só fazia as coisas porque era preciso ou alguém pedia.

Viver para si soa egoísta se se disser em voz alta. Na realidade, é fazer um curso, passar a noite a ler sem ouvir críticas, fazer uma escapadela a Aveiro só para ver arquitetura, porque sempre adorou prédios antigos.

Em fevereiro, Susana ligou: o António melhorava devagar. Já andava de canadianas. Alice trabalhava com ele sem melodramas e sem palavras a mais. Beatriz, ao ouvir isso, sentiu alegria não culpada nem amarga mas sincera. O homem recuperava, só isso.

Março trouxe o degelo e as primeiras encomendas de ramos primaveris. Tulipas, jacintos, anémonas. Beatriz adorava a mudança, quando as composições frias do inverno davam lugar ao escandaloso das cores de março.

Foi em março que ele apareceu.

Beatriz enrolava um ramo comprado narcisos e malmequeres, amarelo e branco, simples e honesto. A porta abriu-se, um homem entrou. Ela não ergueu logo os olhos, pois estava ocupada.

– Boa tarde disse ela.

– Boa tarde respondeu ele.

A voz. Reconheceu primeiro a voz que o rosto. Tranquila, algo cansada, sem pressa.

António Marques estava à entrada, a olhar o ateliê como quem já o imaginara. Sem bata agora, de sobretudo escuro, cachecol fino. Sem pastas médicas.

– É o senhor disse Beatriz.

– Sou confirmou.

Pequena pausa. Mafalda saíra ao armazém por papel de embrulho estavam sós.

– O António Figueiredo teve alta há dez dias disse o médico. Está em reabilitação com a senhora Alice. O prognóstico é bom.

– Eu sei. A Susana avisou.

– Bem. Hesitação breve, mas ela percebeu. Passei aqui de propósito, na verdade. O nome ficou-me. Talho das Flores. Procurei na internet o endereço.

Beatriz pousou a fita.

– Queria comprar flores?

– Sim. Mas não só.

Silêncio. Cheirava a jacintos e terra fresca.

– Que flores procura? perguntou Beatriz.

Ele dirigiu-se à zona das anémonas. Roxas, encarnadas escuras, brancas de centro negro.

– Estas. Três talvez. Ou cinco, o que aconselha?

– Número ímpar, explicou Beatriz. Para quem são?

– Ainda não sei. Olhou-a. Talvez me ajude a decidir.

Beatriz escolheu três, depois juntou dois, quase negros.

– Cinco. Ficam bem juntos.

Começou a embalar. As mãos faziam os gestos de olhos fechados papel kraft, fita húmida, laço.

– Beatriz, pronunciou o médico.

– Sim?

– Posso ser direto? É o meu feitio.

– Seja, murmurou sem o olhar.

– Gostava de a convidar. Sem ser no hospital, sem outro pretexto. Café, teatro, passeio, conforme preferir. Pode parecer estranho, mas achei que somos adultos, podemos ser diretos.

Beatriz ergueu os olhos.

Via-lhe a serenidade, o respeito. Assim se fala algo importante, deixando espaço para o outro escolher.

– Pensou nisto há muito?

– Três meses. No corredor, quando anotou o que era preciso para a enfermeira.

Beatriz recordou o hospital, os ramos despidos.

– Ainda era formalmente casada, nessa altura.

– Eu sei. Por isso esperei.

Por detrás da porta de vidro, março estava em marcha. A neve evaporava, restando só nas margens. Pardais debatiam-se junto ao banco. O candeeiro já sem função, a iluminar claro.

– Eu não sei disse Beatriz.

– O que não sabe?

– Como isto se faz. Vivi dezoito anos casada, depois um ano sozinha, a reaprender. Não sei ao certo.

– Honestamente, também não sei disse ele. Divorciei-me há seis anos, tenho uma filha, dezassete, vive com a mãe. Fui trabalhando para não pensar. Agora, pensei: talvez se possa não só pensar.

Do armazém, Mafalda voltou com papel, viu o cliente, sorriu.

– Sra. Beatriz, ajudo?

– Não, Mafalda, faço eu.

Mafalda recuou, discretamente. Beatriz passou o ramo pronto ao Dr. António.

– Quanto é?

– Espere.

Ele esperou.

Beatriz olhou os anémonas nas mãos dele escuros, seda aveludada. Sempre adorou anémonas, pareciam papoilas discretas.

Uma história sobre flores, pensou. Organizou a vida em torno delas, foi ali que cicatrizou. E agora, alguém entra sem arrombar, sem exigir, sem pressão. Só entra. Fala francamente. Segura anémonas e aguarda.

– Está bem concedeu Beatriz.

Ele ergueu uma sobrancelha.

– Em que sentido?

– Teatro. Não vou há muito.

O sorriso dele, agora genuíno, não de circunstância.

– Fico encantado.

– Não hoje. Tenho três encomendas ainda por fechar.

– Sábado, então? Ou sexta, se der melhor.

– Sábado.

Disse o preço das flores. Ele pagou, guardou o troco e não tinha pressa de sair.

– Beatriz, posso perguntar-lhe algo?

– Claro.

– Só por curiosidade: trabalha com flores há muito?

– O ateliê tem pouco mais de um ano hesitou. Mas mexo em flores desde sempre. Era hobby, agora é pão de cada dia.

– Sabe bem transformar paixão em trabalho.

– Sabia? Sabe.

Ele acenou, ajeitou o ramo e foi à porta. Parou.

– Até sábado, Beatriz.

– Até sábado, António.

Um esgar de simpatia:

– António.

– Até sábado, António.

Assim que saiu, Beatriz ficou à caixa a vê-lo afastar-se, passando entre pardais e bancos, anémonas nas mãos. Não virou para trás.

Logo chegou Mafalda.

– Quem era? quis saber, a tentar soar casual.

– Cliente.

– Cliente que esteve aqui a conversar quinze minutos?

– Mafalda.

– Sim?

– Vai embrulhar as crisântemos para a D. Mariana? Ela chega às quatro.

Mafalda foi, contente por apanhar conversa. Beatriz voltou ao trabalho. As mãos faziam o hábito. O papel crepitava, as gotas caíam para o balde. Cheirava a jacintos.

Sábado. Daqui a quatro dias. Quatro dias comuns, de encomendas e entregas, perguntas de Mafalda, chamadas dos fornecedores de peónias. Quatro dias iguais a outros deste ano silencioso e seu.

Beatriz não pensou no sábado em particular. Trabalhou. Às vezes, nos instantes a sós, via-lhe a voz calma, as anémonas, até sábado, António.

Adultos podem falar francamente, disse ele.

Talvez possam.

Não sabia o que viria sábado. Se gostariam de estar juntos, se seria fácil conversar fora da doença ou do passado. Não sabia se quereria vê-lo outra vez depois. Mas sabia: escolheria ela. Não a sogra, não António, não obrigação, não medo de ficar sozinha. Ela.

Sentia-se diferente. Não eufórica nem atordoada, como nos romances. Só firme. Como chão seco sob os pés ao sair do gelo.

Sexta-feira ao fim do dia, a oficina fechada, Mafalda já em casa. Beatriz pôs num copo anémonas escuras, sedosas. No parapeito junto à caixa, onde sempre punha algo só para si.

Olhou para elas.

Ficam bem juntas.

Era verdade.

Desligou a luz, foi para casa. Amanhã era sábado.

O sábado chegou às oito. O céu cinzento, cheiro a café acabado de fazer. Beatriz comprara a máquina há meio ano, coisa que António teria condenado, supérflua. Supérfluo, uma palavra-mato dos casamentos. Esconde outras: porque sim, eu quero, gosto, vou fazer.

Bebeu café à janela a ver a rua. Telhados molhados, um pombo à beira do telhado. Um carro a contornar a poça.

O telemóvel em cima da mesa, uma mensagem de há uma hora. Não daquela, nem de ontem, mas de há uma hora como quem acordou, ponderou e decidiu:

Bom dia. O teatro é às sete. Queres jantar antes? Ou não, como preferires. António.

Beatriz relê. Nota o bom dia sem a. Sorri.

Responde:

Bom. Jantar sim. Seis horas?

Envia. Pousa o telemóvel.

Acaba o café.

Lá fora, março segue. Gotas a pingar dos telhados, o vento, um pardal a expulsar o pombo. A cidade acorda, indiferente a subidas de sábado, a decisões pequenas ou grandes dos outros. A cidade continua.

O telemóvel apita. Uma só palavra:

Combinado.

Beatriz levanta-se, arruma a chávena. Veste o avental, ainda faltam oito horas, o ateliê não abre sozinho. Pega nas chaves.

À porta olha de novo para o apartamento: modesto, iluminado, anémonas no copo ao parapeito, trouxe alguns ramos para casa. A sua casa. A sua máquina de café. Os seus ramos. O seu sábado.

Sai.

A porta fecha-se suavemente atrás dela. Como se fecha aquilo que ficou mesmo fechado.

António esperava já junto ao café, às seis e vinte. De pé, um pouco afastado, o telefone na mão, guardou assim que a viu. Sobretudo escuro, o mesmo cachecol. Sem flores agora.

– Boa noite, saudou ele.

– Boa noite, respondeu Beatriz.

Trocaram um olhar. Dois segundos contados. Dois adultos, numa rua de março, molhada, que ali estavam porque quiseram. Não porque deviam. Não porque não pudessem. Só porque sim.

– Então, atalhou António , vamos entrar?

– Vamos, sorriu Beatriz.

E entraram.

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