O Marco teve uma ideia traquina de pregar uma partida à sua amiga, mas mal sabia ele que esse dia iria mudar inesperadamente o destino de ambos.

Quando éramos mais novos, o nosso grupo de amigos parecia vagar entre paixões estranhas e intrigas que se desfaziam pelo ar como fumo de sardinha assada. No meio de nós havia um casal peculiar: Simão e Mafalda. Simão era famoso pelas piadas improváveis, enquanto Mafalda irradiava aquela energia efervescente, como quem dança um vira sem música. Entre discussões e desacatos por ninharias, o nosso convívio era salpicado de pequenas tempestades.

Recordo aquela noite absurda em que nos reunimos para uma festa estranha no meu velho apartamento em Alfama. Simão, fiel à sua paciência quase lisboeta, esperava por Mafalda numa paragem de autocarro onde as luzes piscavam sem ordem. Como era habitual, Mafalda atrasava-se, o tempo derretia-se ao ritmo dos ponteiros, e Simão fitava a multidão que se desfazia e recompunha à volta da paragem.

Foi aí que, no emaranhado de gente, Simão avistou uma rapariga de cabelo encaracolado, tão parecido com o de Mafalda, e resolveu pregar-lhe uma partida bizarra. Aproximou-se em silêncio, envolveu-lhe a cintura com um gesto brincalhão, rindo baixinho como quem desafia as sombras. Mas não era Mafalda. A rapariga virou-se, gritou com voz de sino rachado, e Simão sentiu que o chão se abria numa fenda surreal.

O caos tomou conta do instante Mafalda chegou mesmo naquele segundo e, num turbilhão de vozes, telemóveis e olhos arregalados, acabou por chamar a polícia, como se aquela confusão fizesse parte do fado. O acaso levou Simão e a estranha, chamada Angelina, até à esquadra. Ali, durante quarenta e cinco minutos de incertezas e chávenas de bica mal tirada, partilharam histórias desfiadas como meias rotas e, sem darem por isso, encontraram uma melodia comum.

Quatro luas depois, entre papéis carimbados e garrafas de vinho verde servidas em copos de vidro grosso, Simão e Angelina haviam trocado alianças numa pequena igreja da aldeia, ao som de bandolins invisíveis. Agora têm dois filhos, ambos já mais altos que o próprio pai quem diria que de um erro nasceria uma família inteira.

Mafalda, durante algum tempo, tentou reconquistar Simão, lançou olhares de azedume e palavras salgadas a Angelina, como quem atira petiscos a pombos na Ribeira. Mas por fim, cansou-se da luta e foi traçar o seu próprio destino; também ela acabou por encontrar paz numa esquina qualquer de Lisboa.

Às vezes, Simão deita-se e ri-se sozinho a lembrar-se desta trama acredita que, afinal, foi o destino travesso a conduzi-lo por este labirinto onírico. A vida desfaz-se em encruzilhadas e, em sonhos ou vigílias, os acidentes conduzem-nos ao lugar certo.

Façamos um brinde à sina com um cálice de ginjinha ao céu noturno aos tropeços estranhos e maravilhosos que moldam as nossas vidas e aos fados que nos escrevem, mesmo quando parecemos estar a dormir de olhos abertos.

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