Por vezes, o preço de uma cura não se mede em dinheiro. Esta história aconteceu numa aldeia remota no alto das serras portuguesas, onde só se chega por estreitos carreirinhos, sem sinal de estrada asfaltada. Lá vive um rapaz de quem se contam histórias quase míticas. Dizem que tem o dom de pôr qualquer um de pé mas o preço que exige assusta até os mais ricos deste mundo.
1º Momento: Proposta que “não se pode” recusar
À porta de uma casa pobre feita de pedra, estacionava uma cadeira de rodas reluzente, moderna, que destoava de toda aquela pobreza. Sentada nela estava uma mulher de ar importante, vestida com roupa de tal qualidade que valia mais que todo aquele casebre. Nas mãos trazia um envelope grosso cheio de notas de quinhentos euros. Com raiva e desespero, esticou-o para o rapaz sentado nos degraus.
**Toma! Aqui tens cinquenta mil euros,** sibilou ela. **Só quero que me faças voltar a andar.**
2º Momento: Outra moeda
O rapaz nem olhou para o dinheiro. Os olhos dele estavam postos para além da visitante lá onde, no quintal, a sua mãe idosa curvada pelo cansaço se esforçava por levar um molho enorme de lenha. Calmamente, afastou a mão com o envelope.
**O meu dom não se compra com papel,** respondeu. **A minha moeda é o suor.**
3º Momento: O orgulho e a impotência
A mulher engasgou-se de indignação. Olhou para as pernas imóveis e para a sua valiosa cadeira de rodas.
**Estás a brincar? Não consigo fazer nada!** exclamou. **Estou parada há três anos!**
4º Momento: Uma condição dura
O rapaz inclinou-se para perto dela, tão perto que ela sentiu-lhe o olhar a atravessá-la via-lhe toda a ganância, o egoísmo de uma vida feita a usar os outros.
**Então rasteja, até aprenderes,** murmurou ele.
5º Momento: O início do caminho
Um estalar seco dos seus dedos foi tudo. Nesse instante, a mulher soltou um grito. Os olhos arregalaram-se de terror quando a perna dormente, de repente, ganhou vida e com força projectou-se contra a roda da cadeira. A cadeira virou-se, entornando a milionária na terra fria e lamacenta.
Final
A mulher jazía no chão, sufocada pelo vexame. Esperou que o rapaz a socorresse, mas ele só apontou para um cepo caído das mãos da sua mãe.
**Queres andar? Ajuda a minha mãe a levar a lenha para dentro,** disse, sem piedade.
**Não consigo! Não é possível!** chorou ela.
Mas sempre que tentava desistir, as pernas contraíam-se dolorosamente, obrigando-a a mover-se. Sem alternativa, agarrou a terra húmida com as mãos delicadas e rastejou. Hora após hora, suando e chorando, arrastava aquela maldita torada. O vestido caro tornou-se em farrapos as mãos, em sangue.
Quando o último tronco repousou junto ao fogão, já o sol se punha. O rapaz aproximou-se dela, deitada no chão frio, exausta e sem um fio de altivez apenas o esgotamento, misturado com uma estranha sensação de missão cumprida.
**Levanta-te,** disse-lhe baixinho.
**Não consigo…** murmurou ela, de lágrimas na voz.
**Já fizeste o mais difícil. Esqueceste quem eras e lembraste o valor do trabalho.**
O rapaz estendeu-lhe a mão. Ela agarrou-se e para seu espanto sentiu um apoio novo. Primeiro trémula, depois cada vez mais firme, levantou-se. Pela primeira vez em três anos, pôde suster-se nas próprias pernas.
Olhou para o envelope caído na terra. Agora, aquelas notas de quinhentos euros pareciam-lhe lixo.
**As tuas pernas só obedecem a quem conhece o preço da terra,** disse o rapaz, enquanto entrava em casa. **Vai. E não penses nunca mais que a vida se compra.**
A mulher fez os primeiros passos naquela vereda da serra. Caminhou lenta, sentindo cada pedra debaixo dos pés. Pela primeira vez, percebi ao escrever no meu diário que só é verdadeiramente rico quem valoriza o chão que pisa, e não o peso da carteira.







