Há quase dois anos, ouvi do meu marido uma frase que vai ecoar para sempre nos meus ouvidos. Disse ele: A tua vida é tão previsível que já estou farto de ti. Se para o Jorge a rotina era aborrecida, para mim era a imagem da felicidade. Acordava cedo, tomava o pequeno-almoço, alongava os ossos com uns exercícios e vestia-me para o trabalho. Primeiro tratava de deixar o Jorge pronto para sair, porque ele era sempre o primeiro a zarpar, e só depois cuidava de mim. Preparamos todas as refeições em casa; punha o segundo pequeno-almoço em caixinhas para mim e para ele. Ao fim da tarde, passava sempre no Pingo Doce antes de ir para casa, e lá se ia dar ao fogão, arrumar a casa e lavar a roupa. Antes de dormir um filme e cama.
Estava convicta de que tinha tudo sob controlo. Vida perfeita: marido tratado e alimentado, casa arrumadinha e confortável. O que é que eu podia querer mais? Todos os sábados, uma faxina geral à casa, bolos acabados de sair do forno e comidas de conforto a bombar. À noite, ou recebíamos amigos, ou íamos passear. Domingo era sagrado para os pais. Metade do dia em casa de uns, metade em casa dos outros; ajudávamos nas tarefas, punha-se a conversa em dia, aproveitava-se o tempo com a família.
À noite, relaxávamos em casa. Nem uma discussão, nem um berro. Harmonia pura cá em casa. Mas. Um belo dia, Jorge saiu-se com a de que estava farto de mim. Durante horas, explicou-me que não se sentia feliz, e que, ao contrário dos seus amigos que andam sempre na farra até cair para o lado, nós éramos uns aborrecidos. Nem discutir discutíamos! Nesse dia, o homem saiu porta fora.
Eu estava satisfeita com a nossa vida e nem me passava pela cabeça mudar fosse o que fosse. Mas, por amor ao meu Jorge, estava disposta a tentar até mudar o visual! Comecei por esvaziar o armário. Fui às compras e rebentei com as minhas poupanças para a casa de sonho, só em roupa cheia de pinta. Cortei o cabelo bem curto e pintei de loiro platinado. Uma nova mulher! Depois arranjei emprego diferente. Recusei o trabalho de escritório rotineiro e meti-me a organizar festas. Com isto, descobri um mundo de diversão que nem sabia que existia.
Uma semana depois, o Jorge voltou para casa e ficou de boca aberta com o que viu. Prometi-lhe que íamos viver tudo de maneira diferente. E assim foi. Passámos a rarear em casa; andávamos sempre de um lado para o outro, cheios de programas com malta animada. Todas as noites, clubes, restaurantes, bares, festas em casas de amigos, tudo e mais alguma coisa. Se desse na cabeça, acampávamos, andávamos de bicicleta pelo Douro, ou até nos atirávamos de kayak para a ria de Aveiro. Se nos desse na gana, passávamos o fim de semana no Porto ou em Lisboa.
Depois de alguns meses desta vida electrizante, o Jorge começou a queixar-se que queria descansar, só ficar sossegado em casa. Afinal, sentia saudades das minhas comidas caseiras e dos bolos no forno. Agora, nem ao fogão tinha tempo de pôr os pés. Tinha-me transformado tanto que ele já nem dava pela minha falta.
Uma semana mais tarde, informou-me que não aguentava mais esta vida tão ativa. Queria de volta os serões em casa, o sossego, a comidinha da mamã, as idas aos pais ao fim-de-semana e a comida acabada de fazer, nada de aquecida do Uber Eats.
Pois, agora já não era bem isso que eu queria. Levei meses a tentar adaptar-me à vida de dona de casa, e agora nem pensar em voltar atrás. Esta nova vida assentava-me que nem uma luva. Gostava da antiga, sim, mas agora não dava para abdicar disto. E pronto, quando o Jorge tentou devolver tudo ao antigamente, deu faísca.
Foi um filme digno de novela da TVI: voaram pratos, apareceram os vizinhos curiosos, e até a polícia teve palco. O Jorge fez as malas e foi bater à porta da mãe. Aposto que ele pensa que, quando voltar, vai encontrar tudo como antes. Mas já não há volta a dar. Não somos personagens dA Praça da Alegria e ninguém muda como quem muda de camisa. Quando o Jorge voltar a casa, vai encontrar os papéis do divórcio na mesa e um bilhete a dizer que já me cansei dele e que não consigo mais viver nesta montanha-russa.






