Fernando guardava dentro de si o arrependimento por ter se apressado no divórcio. Homens sábios transformam amantes em celebração, mas ele fez dela esposa.
O bom humor de Fernando Sousa desapareceu assim que, após estacionar o carro, entrou no prédio. Em casa, foi recebido pelo costumeiro: chinelos calçou-os ao entrar , um aroma saboroso de jantar, limpeza impecável, flores frescas no vaso.
Nada disso o comoveu: a esposa está em casa, o que outra coisa faria uma senhora de idade o dia inteiro? Assar bolos, tricotar meias. Exagerou sobre as meias, era verdade, mas a essência era clara.
Filipa apareceu para o marido de sorriso habitual:
Está cansado? Fiz uns bolos de couve, de maçã, como tu gostas
Ela calou-se debaixo do olhar pesado de Fernando. Estava de fato em casa, cabelo preso com lenço sempre cozinhava assim.
Mania de profissional, viveu como cozinheira. Os olhos levemente maquiados, brilho nos lábios. Mais um hábito que, agora, Fernando achou vulgar. Que ideia de pintar a velhice!
Não devia ter sido tão grosseiro, mas disparou:
Maquilhagem na tua idade é disparate! Não te fica bem.
Os lábios de Filipa tremeram, não respondeu, mas também não foi pôr a mesa. Era melhor assim. Os bolos repousavam sob pano, o chá estava pronto ele mesmo se serviria.
Depois do banho e do jantar, a gentileza para com ela começou a voltar, junto das lembranças do dia. Fernando, no seu robe felpudo, acomodou-se na poltrona, fingiu ler. Recordou o que dissera aquela nova colega:
O senhor é um homem bem atraente, e interessante.
Fernando tinha 56 anos e chefiava o departamento jurídico de uma grande empresa. Comandava um recém-licenciado e três mulheres de mais de quarenta. Outra colega tinha ido para licença de maternidade. Para o lugar dela entrou Leonor.
Quando Leonor foi admitida, Fernando estava em viagem. Só hoje a conheceu.
Chamou-a ao gabinete para se apresentarem. Com ela chegou o aroma de perfume delicado e a sensação de juventude. O rosto suavemente iluminado por cachos dourados, olhos azuis confiantes. Lábios carnudos, sinal na face. Teria mesmo 30 anos? Nem parecia.
Separada, mãe de um filho de oito anos. Sem saber porquê, pensou: Ótimo!
Na conversa, brincou dizendo que agora ela teria um chefe velho. Leonor esvoaçou os cílios longos e respondeu com uma frase que ainda rondava a mente dele.
A esposa, recuperada da mágoa, trouxe-lhe o chá de camomila do costume à poltrona. Ele franziu a testa: Sempre fora de hora.
No entanto, bebeu com prazer. Perguntou-se o que estaria a fazer a jovem Leonor. O coração levou uma picada de um sentimento esquecido ciúmes.
****
Após o trabalho, Leonor passou no supermercado. Queijo, pão, ela quis kefir para o jantar. Chegou a casa sem sorriso. Automaticamente, abraçou o filho, Tomás, que correu para ela.
O pai mexia na varanda, onde tinha a oficina, a mãe preparava o jantar. Leonor, após arrumar as compras, alegou dor de cabeça, pediu para não ser incomodada. Na verdade, sentia-se vazia.
Desde que se separou do pai de Tomás, há alguns anos, Leonor tentava, em vão, tornar-se figura principal na vida de alguém.
Os que valiam a pena estavam casados e desejavam apenas relações leves.
O último parecia apaixonado trabalhavam juntos. Dois anos intensos. Chegou a alugar-lhe apartamento (por conveniência própria), mas, quando surgiu qualquer dificuldade, decretou não só a separação mas também exigiu que ela se demitisse.
Até arranjou-lhe novo emprego. Agora, Leonor voltava a viver com os pais e o filho. Mãe apoiava-a de maneira feminina, o pai achava que Tomás precisava da mãe próxima, não apenas dos avós.
Filipa, esposa de Fernando, percebia há tempos que o marido sofria a crise da idade. Tinha tudo, mas faltava algo essencial. Evitava pensar no que poderia ser o essencial para ele. Tentava suavizar o ambiente. Cozinhava o que ele gostava, cuidava do visual, não insistia em conversas profundas, por mais que sentisse falta.
Procurava envolver-se com o neto, a casa de campo. Mas Fernando aborrecia-se, ficava de cara fechada.
Talvez, porque ambos desejassem mudanças, o romance de Fernando com Leonor floresceu depressa. Duas semanas após Leonor entrar na empresa, Fernando convidou-a para almoçar e deu-lhe boleia a casa.
Tocou-lhe na mão, ela olhou para ele com a face corada.
Não quero despedidas. Vamos para minha casa de campo? murmurou Fernando. Leonor acenou, e o carro partiu rapidamente.
Às sextas, ele saía do trabalho mais cedo, mas só às nove da noite a preocupada Filipa recebeu um SMS: Amanhã falamos.
Fernando não suspeitava de quão certeira era a essência daquele futuro diálogo, inútil de facto. Filipa sabia que seria impossível manter a paixão após 32 anos de casamento.
Mas o marido era tão seu, que perder-lhe era como perder uma parte de si. Mesmo rabugento, irritado, ou com loucuras de homem, continuava ali no seu lugar favorito, a jantar, a respirar ao lado dela.
Filipa procurou palavras para travar a destruição da vida (na verdade, só dela) e não dormiu até de manhã.
Talvez desesperada, tirou o álbum de casamento jovens, com tudo pela frente. Quão bonita era! Muitos sonharam chamar-lhe esposa. O marido devia recordar. Imaginou que ele, ao ver (ainda que obrigada), fragmentos de felicidade, perceberia que nem tudo é descartável.
Mas ele regressou só no domingo e ela entendeu: tudo acabou. Diante dela estava um outro Fernando, quase em êxtase. Nenhum embaraço ou vergonha.
Ao contrário da esposa, temerosa da mudança, ele desejava-a e aceitou-a de braços abertos. Até planeou. Falava sem margem para contradizer.
A partir dali, Filipa poderia se considerar livre. Ele próprio daria entrada no divórcio no dia seguinte. O filho, com a família, deveria mudar-se para casa dela. Tudo conforme a lei. Afinal, o apartamento de dois quartos onde vivia o filho era legalmente dele herdado.
A mudança para o T3, com a mãe, não pioraria as condições da jovem família; além disso, Filipa teria mais quem cuidar. O carro, evidentemente, ficaria com ele. Quanto à casa de campo reservava o direito de ali descansar.
Filipa reconhecia parecer miserável e pouco atraente, mas não conteve as lágrimas. Dificultavam a fala, saía incoerente. Pediu-lhe para recuar, recorrer à memória, pensar na saúde, nem que fosse só dela Esta última provocou-lhe fúria. Aproximou-se dela, quase gritou:
Não me arrastes para tua velhice!
… Não seria razoável dizer que Leonor amava Fernando e, por isso, aceitou casar com ele na primeira noite, na casa de campo.
O estatuto de casada atraía-a, acalentava-lhe o orgulho de ter sido escolha preferida.
Estava farta de viver num apartamento governado pelo pai de opiniões rígidas. Queria estabilidade. E Fernando providenciava tudo isso nada mal, admitia Leonor.
Apesar dos sessenta à porta, ele não parecia avô. Elegante, jovial. Chefe de departamento. Inteligente nos negócios e agradável ao conversar. E na intimidade, entusiasta, nada egoísta. Davam-lhe segurança não haveria aluguel, penúria ou furtos. Só vantagens? Bom, restavam dúvidas sobre a idade.
Ao fim de um ano, o desencanto começou a crescer. Sentia-se ainda uma rapariga, desejava experiências, novidades. Queria concertos, ir ao parque aquático, gostava de apanhar sol, conversar com amigas.
Com juventude e ânimo, conciliava tudo com a vida doméstica. Mesmo o filho, agora com ela, não travava o ritmo.
Já Fernando cedia. Experiente jurista, resolvia mil questões diárias, mas em casa era alguém exausto, buscando silêncio, respeito pelos hábitos. Aceitava visitas, teatro, até praia, mas tudo moderadamente.
Não recusava amor, mas queria dormir logo cedo.
Ainda era preciso atentar ao estômago sensível: nada de fritos, enchidos ou comidas prontas. A ex-mulher o habituou mal, claro.
Às vezes, Fernando até sentia falta dos pratos a vapor que Filipa preparava. Leonor cozinhava a pensar no filho, sem entender como um bife de porco poderia fazer doer o lado.
Nunca decorou lista de comprimidos indispensáveis, achava que um homem adulto tratava disso sozinho. Aos poucos, parte da vida de Leonor passou a acontecer sem ele.
Começou a sair com o filho, companhias de amigas. Curiosamente, a idade do marido estimulava Leonor a viver depressa.
Deixaram de trabalhar juntos a direção considerou antiético, e Leonor mudou-se para um cartório. Sentiu-se até aliviada de não ter Fernando sempre por perto, lembrando-lhe o pai.
Respeito era esse o sentimento de Leonor por Fernando. Mas será suficiente para uma felicidade a dois?
Aproximava-se o sexagésimo aniversário de Fernando: Leonor ansiava por uma grande festa. Mas o marido reservou mesa num restaurante antigo, habitual para ele. Parecia nostálgico, normal para sua idade. Leonor não se importou.
Os colegas deram as boas-vindas ao aniversariante. Não era conveniente convidar os casais de amigos do tempo de Filipa. Família longe, e o casamento com uma jovem não lhe trouxera compreensão.
O filho desaparecera. Renegou-o. Mas terá um pai direito de decidir o seu destino? Ao casar-se, Fernando pensou que decidir significaria algo diferente.
O primeiro ano com Leonor foi como lua de mel. Gostava de sair com ela, incentivava as despesas (nunca excessivas), amigas, o entusiasmo pelo ginásio.
Aguentava bem concertos e filmes malucos. Nesse clima, fez dela e do filho proprietários do apartamento. Mais tarde, cedeu-lhe parte da casa de campo, que partilhava com Filipa.
Leonor, pelas costas dele, pediu a Filipa a outra metade. Ameaçou vendê-la a oportunistas.
Comprou-a com o dinheiro de Fernando, e registou a casa em nome dela. Justificou que ali havia rio, bosque ótimo para o filho. Agora, os pais dela e o neto viviam a época de verão na casa. E foi melhor: Fernando nem gostava do filho ruidoso de Leonor. Casou por amor, não para criar filhos alheios.
A família antiga ficou magoada. Com o dinheiro recebido, venderam o T3, separaram-se. O filho achou um T2, enquanto Filipa mudou-se para um estúdio. Fernando nunca quis saber como estavam.
E chegou o dia dos 60. Muitos desejavam-lhe saúde, felicidade, amor. Mas ele não sentia entusiasmo. Por anos, o descontentamento predominava.
Amava, sem dúvida, a esposa jovem. Mas não a acompanhava. Não conseguia dominá-la, fazê-la ser sua. Ela sorria, vivia à maneira dela. Nada de excessos percebia, e isso irritava-o.
Ah, se pudesse transferir a alma de Filipa para Leonor! Que se aproximasse com chá de camomila, cobrindo-lhe com manta se adormecesse. Fernando andaria com prazer com ela pelo parque. Conversaria na cozinha, mas Leonor não tinha paciência para longas conversas. Já parecia aborrecida na cama. Ele ficava nervoso, e isso dificultava.
Fernando guardava, no coração, pesar por se ter precipitado no divórcio. Homens sensatos fazem da amante uma celebração e ele fez dela esposa!
Com o ritmo de Leonor, ainda ficaria dez anos vibrante. Mesmo ao chegar aos quarenta, seria notoriamente mais jovem. Era um abismo que se acentuaria. Se tivesse sorte, acabaria a vida num instante. E se não?
Esses pensamentos pouco festivos martelavam na cabeça, acelerando o coração. Procurou Leonor estava entre os dançarinos. Linda, olhos brilhantes. Era felicidade, claro, acordar e vê-la ao lado.
Aproveitando um momento, saiu do restaurante. Queria ar, dispersar a tristeza. Mas colegas aproximaram-se. Sem saber como lidar com o mal-estar interno, mergulhou num táxi estacionado à porta. Pediu para ir depressa. Depois pensaria para onde.
Queria estar onde fosse valorizado. Onde, ao entrar, o esperassem. Onde aprecissem o tempo com ele, pudesse relaxar sem medo de parecer fraco ou, Deus nos livre, velho.
Ligou ao filho e, quase implorando, pediu o novo endereço da ex-mulher. Ouviu palavras duras, mas insistiu, repetindo que era questão de vida ou mor…
Disse que era, afinal, o seu aniversário. O filho abrandou e disse que a mãe talvez não estivesse sozinha. Nada de homem apenas amigo.
A mãe disse que estudaram juntos. O nome é engraçado… Acho que é Padeirinho.
Padinha, corrigiu Fernando, sentindo ciúmes. Sim, ele fora apaixonado por Filipa. Ela era atrativa, ousada.
Ia casar com esse Padinha, mas Fernando conquistou-a. Isso foi há muito, mas parecia ontem, mais real que a vida com Leonor.
O filho perguntou:
Para que precisas disso, pai?
Fernando estremeceu com o tratamento esquecido e percebeu que tinha saudades de todos eles. Respondeu honestamente:
Não sei, filho.
O filho ditou o endereço. O motorista parou como pedido. Fernando saiu: queria falar com Filipa sem testemunhas. Já quase nove da noite, mas ela era como coruja noturna, que para ele era um rouxinol.
Marcou o intercomunicador.
Mas não foi a ex-mulher quem respondeu, e sim uma voz masculina, rouca. Disse que Filipa estava ocupada.
Mas porquê? Ela está bem? indagou Fernando, preocupado. A voz pediu identificação.
Sou o marido dela, ora! gritou Fernando. E tu, deves ser o Padinha!
O senhor corrigiu friamente, dizendo que Fernando era o ex, e não tinha direito de importunar Filipa. Não achou necessário explicar que a amiga tomava banho.
O quê, amor antigo não enferruja? perguntou Fernando, com sarcasmo ciumento, pronto a discutir com Padinha. Mas ele respondeu simplesmente:
Não, amor antigo torna-se prata.
A porta ficou fechada
*Na vida, não há ensaio para a felicidade. Só descobrimos que o tempo dado às pessoas certas foi sempre o maior presente. Se não cultivarmos gratidão e respeito por quem caminha a nosso lado, acabamos por perceber que a festa é efémera, mas aquilo que é genuínocuidado, partilha e aceitaçãoé o que brilha por toda uma vida.*Fernando ficou parado diante do portão fechado, ouvindo ao longe o som abafado de risos vindos do apartamento. O mundo parecia dividido: dentro, uma vida que já não lhe pertencia; fora, o presente árido, o peso de suas escolhas. Respirou fundo, desejando poder voltar ao tempo em que bastava uma palavra ou um toque para desfazer magoas.
Agora, os ecos do passado misturavam-se ao silêncio da noite. O céu, tingido de azul escuro, era atravessado por uma brisa fresca que lhe trouxe o perfume longínquo de camomila. Sorriu amargamente ao recordar os cuidados de Filipa o chá, os bolos, a atenção dedicada. Percebeu que, em busca de paixão e novidade, desdenhara a ternura cotidiana, como se fosse invisível.
Por um instante, Fernando teve vontade de bater novamente à porta, insistir no reencontro, pedir perdão pelo que fora e pelo que deixara de ser. Mas o som gentil da conversa, a vida recomeçada lá dentro, convenceram-no a respeitar o limiar. Entendeu, enfim, que o amor, quando se transforma em outro tipo de afeto, não desaparece apenas muda de casa.
De regresso ao táxi, olhou pela última vez para a janela iluminada. Ali, entre amigos antigos e novos, Filipa e seu mundo floresciam, enquanto ele, já sem lugar, compreendia o valor da aceitação. Pediu ao motorista que o levasse a um jardim aberto, ao acaso, desejando caminhar sozinho entre árvores.
No silêncio que se seguiu, revirou as memórias não como algo a ser recuperado, mas como ouro da maturidade: a simplicidade de um chá ao entardecer, a partilha das fraquezas, o conforto de saber que alguém aguarda o seu regresso, não por obrigação, mas por escolha. Era esse o brilho que agora buscava.
Ao sair do carro, isolado da agitação das festas e promessas quebradas, Fernando sentiu-se, enfim, livre das exigências da juventude e também das amarras do arrependimento. Caminhou pelo parque, ouvindo o rumor dos pássaros e o vaivém do vento. E, ali, entre sombras e folhas caídas, compreendeu o segredo que antes desprezara: o amor verdadeiro é feito do tempo partilhado, do cuidado silencioso, e do respeito pelas histórias que cada um carrega consigo.
Sorriu, agradecendo ao passado e ao presente. Porque, mesmo que as portas se fechem e novos amores surjam, a vida sempre oferece outra oportunidade aquela de ser, enfim, genuíno consigo mesmo.







