Manuel chegou à aldeia para visitar a sua tia. Dirigiu-se à casa já tão familiar, empurrou o portão que rangia mais do que o habitual, e foi logo recebido pela tia Graça no quintal.
Então, homem, nem uma chamadinha? Foste capaz de aparecer assim, sem avisar? exclamou a tia Graça, apertando o sobrinho num abraço apertado daqueles que só uma tia portuguesa sabe dar.
Queria fazer uma surpresa, ora! respondeu Manuel, a sorrir com aquele ar traquina de sempre.
A tia Graça não perdeu tempo: pôs logo a mesa e o almoço apareceu num instante, como se tivesse já o bacalhau a lascar na travessa à espera de convidados inesperados. Depois de comerem uns bons feijões e broa, a tia baixou a voz e entrou por uma conversa mais séria.
Olha, vê o que eu encontrei lá na arca, na dispensa lançou de repente, entregando-lhe um molho de papel amarelado.
Manuel desenrolou uma folha e, à medida que ia lendo, a expressão foi mudando.
Vá, não fiques preocupado por causa disso apressou-se a acalmar a tia Graça. Já passaram anos! E olha que a tua vida até foi tudo ao contrário do que aí está. Criaste dois filhos, ou vieram pelo vento?
Nessa noite, Manuel acabou por ficar a dormir na casa da tia. E para ser sincero, não pregou olho. Aquela folha, com uns carimbos gastos e letras difíceis de ler, era o diagnóstico feito, em tempos longínquos, quando ele tinha apenas sete anos. Dizia que, depois de uma doença daquelas para não se repetir, em princípio não poderia ter filhos.
A mãe de Manuel já tinha partido cedo, ainda ele era rapazote. O pai não perdeu tempo e trouxe outra mulher para casa. Daí para a frente, Manuel tinha a desculpa perfeita para ir passar as noites em casa da tia Graça, que vivia na casa ao lado. No fundo, a tia Graça acabou por ser sua segunda mãe.
Depois de cumprir o serviço militar (ia à tropa, claro), Manuel não quis voltar para a terra. Nem trabalho havia e com o pai a convivência era tudo menos fácil. Ficou na cidade, começou como motorista, e foi vivendo num quarto de pensão, onde o vizinho ressonava mais alto que o camião com que trabalhava. Ganhando experiência, tornou-se camionista de longo curso, daqueles que conhecem a A1 melhor que a palma da mão, e depressa comprou o seu cantinho.
Mais tarde, a vida pôs-lhe a Maria à frente. Ela avisou cedo: vinha aí criança antes de irem ao registo e ao padre. Viveram felizes, e três anos depois da filha nascer, nasceu o rapaz.
Aos quarenta e tal, com algum dinheiro amealhado nem que fosse uma cadernetinha na Caixa , Manuel desistiu dos camiões e abriu uma pequena firma de transportes. Devagar, foi crescendo, e lá começou a entrar um dinheirinho decente todos os meses.
Mal saiu da casa da tia, Manuel foi direito a Lisboa, de nervos à flor da pele. Fez exames médicos numa clínica mais chique da capital, e as dúvidas confirmaram-se: aquele papel de décadas atrás estava correto. Voltou para casa sem saber se chorava se fazia as malas.
Olha o Manuel! Chegaste! Queres jantar? recebeu-o a Maria, prontinha como sempre, já a pensar no arroz de polvo.
Não, não quero. Respondeu curto e grosso, largando-lhe o relatório médico em cima da mesa.
O que é isto? perguntou Maria, arregalando os olhos.
É um papel que diz que filhos meus não podem existir!
Maria sentou-se, mais pálida do que se tivesse visto um fantasma numa procissão.
Isto deve ser um engano, Manuel
Chega de histórias interrompeu ele. Se me continuas a enganar, não me vês mais cá em casa.
Está bem. Eu conto tudo e lá foi Maria, em tom de confissão digna de novela portuguesa de domingo à noite.
Contou como, nos tempos de estudante, tinha tido um namoro com um colega, que no fim a trocou pela amiga do lado. Depois conheceu Manuel e, já grávida, viu ali salvação com o casamento, porque coragem para encarar os pais era coisa que não tinha.
Pronto, a primeira filha percebo. Mas o rapaz? perguntou o Manuel, de braços cruzados.
Maria, a chorar rios e mais rios de lágrimas, contou dos tempos em que ele andava pela Europa fora. Uma noite cruzou-se novamente com o antigo namorado, e pronto… Não resistiu (culpa, arrependimento, o pacote completo). Nunca mais o voltou a ver e só depois percebeu quem era o verdadeiro amor da vida dela.
Manuel ficou ali sentado em silêncio, a olhar o fundo da mesa da cozinha como se dela pudesse subir o espírito do Santo António a aconselhá-lo.
Manuel, por favor, não vás embora. Eu sem ti não sou nada
Mas ele levantou-se, agarrou nas chaves e saiu, com Maria atrás dele, a soluçar:
Manuel, volta
Durante dias, Manuel enterrou-se no trabalho. Nos fins de semana, ia logo de manhã para a aldeia, para junto da tia Graça, porque era à noite que mais lhe pesava tudo.
É o fim do mundo resmungava, esticado na cama, a contar os toques do relógio de cuco. Para que é que foi tudo isto? E agora, como é que se vive?
Mas depois, entre um café e um pastel de nata, Manuel pensou:
Ora, se eu na altura soubesse que não podia ter filhos, nunca tinha tido esta família. Nem conhecia estas alegrias. Fui feliz a ver os primeiros passos dos meus filhos, a ouvir-lhes os disparates, as birras tudo faz parte! Se não fosse a ignorância, tinha perdido tudo isto.
No domingo, apareceram os filhos pela porta da tia.
Pai, não sei o que se passa entre ti e a mãe, mas tu já não queres saber de nós também? atirou logo a filha.
Ó menina, claro que vos amo. O problema é só com a vossa mãe.
Pai, volta para casa. A mãe não para de chorar, nem de dia nem de noite disse o rapaz, preocupado.
Pai, pára de estar amuado. E tenho uma novidade para ti: vais ser avô! revelou a filha, com um sorriso que valia mais que todos os Euromilhões.
Manuel não resistiu. Agarrando a filha com força, lá largou um sorriso sincero:
Isso é que é notícia boa!
E nós sem ti não voltamos para a cidade cortou logo o filho. Já chega de teimosias. Depois de tantos anos juntos, agora é que vão andar cada um para seu lado?
Manuel ergueu-se, riu-se, encolheu os ombros e disse:
Está bem, convenceram-me! Vamos para casa, antes que a mãe faça sopa de pedra à nossa espera!







