A Chegada Inesperada da Sogra: Uma Visita Que Virou a Vida do Casal Lisboeta de Pernas para o Ar

Olha só o que aconteceu cá em casa, parecia tirado de uma novela da SIC. Então, a Inês tinha acabado de levar o marido, o João, à estação porque ele trabalha do outro lado de Lisboa, deu-lhe um beijinho à pressa na bochecha e fechou a porta atrás dele. Decidiu aproveitar para fazer uma pausa merecida o dia tinha sido puxado, entre reuniões em teletrabalho, arrumações e aquela lida em que parece que a casa nunca fica no ponto. Moram num T2 arrendado em Lisboa, ali perto de Campo de Ourique, e apesar de ainda não ser a casa deles, já andam a tornar tudo acolhedor, com cheirinho a lar, até com umas plantinhas na varanda a verem o Tejo.

Tinham regressado há pouco da lua-de-mel nos Açores, ainda andavam meio trocados de horários e não tinham criado bem rotina naquela casa. Mas lá se arranjavam, ainda por cima os senhorios estavam contentes com eles, finalmente tinham encontrado inquilinos jovens e responsáveis.

Nesse dia, a Inês estava no modo teletrabalho. Aquela distribuição de dias: uns no escritório da empresa, outros enterrada em papéis, e muitos agarrada ao portátil. Ia ela já embrenhada nos e-mails e listas de tarefas, quando de repente toca a campainha. Estremeceu, não estava à espera de ninguém. Abre a porta e quem é que estava à porta? A mãe do João, a Dona Erminda.

Bom dia disse a Inês, já assim um bocadinho tensa.

Vim pelo meu filho. Então o que é que estás à espera, deixa-me entrar! reclamou logo a sogra, a entrar porta adentro sem cerimónias.

O João não está foi trabalhar explicou a Inês, a tentar pôr ordem na coisa.

Isso não interessa nada. Eu espero por ele atirou logo a Dona Erminda, já com os olhos postos na cozinha.

Desculpe, mas agora estou a trabalhar e tenho videochamadas já a seguir. Se calhar, era melhor vir mais logo, quando o João já cá estiver respondeu a Inês, a tentar ser o mais educada possível e bloqueando-lhe o caminho.

A Dona Erminda fez má cara, mas lá virou costas e foi-se embora. Quando o João chegou a casa à noite, vinha admirado:

A mãe esteve cá e queixou-se logo que nem um chá lhe ofereceste!

Ó João, tu sabes perfeitamente como ela gosta de aparecer sem avisar, como se isto fosse também a casa dela. Eu a trabalhar, cheia de reuniões e ela a achar que isto é um hotel. E lembras-te do que aconteceu no apartamento antigo? atirou a Inês, já mais farta que outra coisa.

O João encolheu os ombros:

A mãe é assim, não vale a pena Convidei-a para almoçar connosco sábado, vá, respiramos fundo e tentamos novamente.

Olha que sexta é dia de limpezas e domingo temos aquele jantar de anos dos nossos amigos. Isto está tudo cronometrado lembrou-lhe a Inês.

No sábado, lá veio a Dona Erminda para o almoço. Sentou-se, comeu calada, mas entre garfadas lá ia deixando umas bicadas:

Epa, esta casa é caríssima! Nos arredores arranjavam bem mais barato. Ou então, ó João, não cabiam lá em casa dos teus pais? Podiam guardar uns trocos

A Inês respondeu sem perder a calma:

Pergunta ao João se ele queria ir morar com os meus pais, vê lá o que ele diz.

Nem pensar! Eu preciso do meu espaço respondeu o João, logo de caras.

Mas olha que esta casa nem é vossa! atirou a sogra, já a querer picar.

Por um ano é como se fosse. Pagamos e estamos bem aqui, mãe cortou logo o João.

A Dona Erminda ainda tentou a cartada final:

Venham para minha casa, aquilo é grande, tenho três quartos. É só vocês quererem!

Não, mãe, cada um na sua. Visitamo-nos, mas viver juntos não dá. Temos ritmos de vida muito diferentes respondeu logo o João, sem hesitar.

Na semana seguinte, a Inês estava mais uma vez em casa, o João já tinha saído para o trabalho, e ela aproveitou para se deitar no sofá a fazer uma sesta. Mas de repente, sente aquele cheirinho a café acabado de fazer. Estranhou: o João não podia ter sido, ele já tinha ido trabalhar. Quem seria então? Pegou no roupão, foi espreitar à cozinha e congelou. Lá estava a Dona Erminda, de volta da máquina de café, com um pratinho de bolo à frente.

Como é que entrou aqui? perguntou a Inês, já sem meias medidas.

Tenho as chaves! O João deu-mas. Esta casa é dele, logo é minha também atirou a sogra, com aquele ar de quem não aceita um não.

Onde arranjou as chaves? perguntou a Inês, já quase a bufar.

No sábado, estavam penduradas. E olha que agora ficam comigo! respondeu com ar triunfante.

Isso vai o João e eu falar. Mas agora, peço que saia, por favor. Tenho de trabalhar.

Não saio sem dizer o que penso. Nunca gostei do teu nome, parece coisa de novela. Nem vens de família com dinheiro, o João antes dava-me metade do ordenado, agora é quase nada. Gasta tudo em restaurantes contigo, em rendas Estás-lhe agarrada que nem lapa! E filhos, nada! E de cozinha, nem falo, que até na cantina é melhor despejou ela, sem rodeios.

Pronto, acabou? Então passe para cá as chaves pediu a Inês, calma.

Não dou nada! disse a Dona Erminda, a agarrar a mala, mas a Inês foi mais rápida e despejou tudo em cima da mesa lá estavam as chaves.

Agora pode sair, se faz favor.

Vais acabar mal! O João vai pôr-te na rua quando souber como falaste à mãe dele! gritou ainda a Dona Erminda, bateu com a porta e desapareceu.

À noite, a Inês contou tudo ao João. Ele ouviu, abraçou-a e só disse:

Eu trato disso. E olha, tinhas razão.

A Inês não chorou. Já sabia muito bem: ou se impõe respeito a tempo, ou passam-te a vida toda por cima. Mesmo quando se trata de família.

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