Há uns dois anos, como num sonho estranho, comecei a fazer a mala. Era a minha e a da criança. Coloquei uma cadeirinha no carro, cuidadosamente, como quem prepara um altar. Levei um aquecedor pequenino, como um talismã contra a noite fria. Conduzi até ao tribunal, olhando Lisboa através do vidro ao entardecer, para buscar a tão esperada autorização de tutela.
Horas depois, guiava por ruas dobradas de neblina em direção ao quarto do meu filho. Era o nosso reencontro, suspenso naquele dia difuso. Durante uma semana inteira percorri uns sessenta quilómetros para cada lado, ida e volta, para o visitar. Sete dias alongados e líquidos, como só existem em sonhos.
Era tão pequenino naquela altura. Costumava deitar o Tomás de barriga para baixo, e sonhava que ele nascia de mim. Como se já fosse meu há muito tempo. Talvez ele também sentisse assim. Naqueles momentos, tudo era sossego e silêncio na casa.
Quem cá adota crianças chama àquele dia o Dia da Cegonha. Era quando uma família recebia finalmente um novo habitante, aguardado nas conversas e nas fotografias vazias. Todos ficavam leves de alegria. Os pais recebiam de repente um propósito novo, e o filho, pais de verdade. A esperança de uma vida serena.
Demorei meses até sentir a minha filha como sendo verdadeiramente minha, a aceitá-la até ao fundo do coração. Mas com o Tomás foi diferente: aconteceu depressa, como um trovão manso numa noite de verão. Logo tornou-se parte de mim e da casa, como se sempre lá tivesse estado. Ainda hoje me custa perceber como é que a mãe dele teve coragem de partir assim, de deixar o menino atrás dela. Nem olhou para trás. Talvez se tivesse olhado, uma única vez, tudo fosse diferente. Era impossível não gostar dele. Talvez estivesse mesmo destinado a vir para mim. Era nosso destino.
Sempre lhe chamei menino-maravilha. Tem um encanto especial, o meu Tomás. Que cresça feliz, é tudo o que peço à madrugada. Tenho o orgulho maior de ser tua mãe.







