Desconfiava da fidelidade da minha esposa porque ela deu à luz a um rapaz. É o nosso terceiro filho.

O meu nome é Duarte. Sempre me achei um sortudo na vida, porque consegui realizar dois grandes sonhos: ser pai e marido. Casei-me com a Matilde, aquela miúda por quem me apaixonei ainda no secundário. Ela ficou à minha espera durante o serviço militar, firme como uma rocha, e quando regressei, não perdemos tempo e casámo-nos logo.

Primeiro nasceu o nosso filho mais velho, Tiago. Depois, passados três anos, veio o segundo, Vasco. Mas, verdade seja dita, o que eu queria mesmo era uma menina. Lembro-me de, ainda antes da Matilde engravidar pela primeira vez, andar a dizer a toda a gente que sonhava com uma filha. Ficavam todos a olhar para mim como se tivesse acabado de afirmar que cozinho melhores pastéis de nata do que a minha mãe. Afinal, todos os homens querem um filho rapaz, dizem eles. Mas eu, teimoso, tinha outra ideia. A Matilde lá me deu um rapaz. E, passados três anos, mais um.

A nossa vida corria sobre rodas, os miúdos cresciam cheios de genica, e um belo dia, a Matilde chega-se a mim, com aquele ar enigmático que ela faz quando se aproxima tempestade: está grávida outra vez. Fiquei em choque não estava nos planos um terceiro herdeiro. Mas confesso que a notícia me fez sorrir; mais uma vez, a vida a encher-nos a casa.

Olha, à terceira é de vez! Vai ser uma menina, vais ver! disse-me ela, a rir-se, já em modo profeta.

A minha mãe e a sogra garantiam, olhando para a barriga, que só podia ser rapariga. Até a ecografia parecia não ter dúvidas. Toda a família andava em pulgas à espera da menina. Os irmãos já tinham uma lista de nomes nada de Inês, que está demasiado na moda, diziam eles.

Quando chegou o dia, peguei na Matilde e levei-a à maternidade de Santa Maria. Passei a noite em branco, a roer as unhas e a imaginar bonecas e lacinhos cor-de-rosa. Telefonei logo de manhã, e uma enfermeira simpática, com sotaque do Alentejo, diz-me: Nasceu o seu filho! Três quilos e duzentos, cinquenta e quatro centímetros!

Não queria acreditar. Devia haver engano! Era suposto ser uma menina! Mas não, não era engano nenhum: tinha nascido outro rapaz. Ninguém estava à espera, nem eu. Fiquei tão baralhado que até duvidei da máquina da ecografia…

Quando falei com a Matilde:

Então, andaste a passear com o vizinho do lado?

Estás parvo, ou quê? O que é que foste buscar agora?

Mas era para ser uma menina!

Ai, Duarte, tu não bates bem e desligou-me o telefone na cara.

Poucos dias depois, fui buscar a Matilde e o nosso pequeno à maternidade. Em casa, ela destapou o bebé, e eu olhei para aquele ser minúsculo, tão indefeso, com tanto para crescer e aprender. O coração derreteu-se-me logo ali. Apaixonei-me outra vez, desta vez pelo nosso terceiro filho. Chamámo-lo Francisco.

Passaram-se quatro anos e meio. O Francisco já andava num patinete que eu lhe ensinei a dominar. O rapaz não era nada parecido comigo, nem um bocadinho. Só mesmo os olhos, parecidos com os da mãe. Já o Tiago e o Vasco, saíram ao pai: queixos largos e cabeças duras.

Um dia, estava na entrada do prédio e ouvi as avós à conversa, como dois senadores numa assembleia:

Olha lá, já reparaste que o Francisco é igualzinho ao Mário, do 3º andar?

Aquilo caiu-me que nem um pastel de bacalhau azedo. Fui logo perguntar à Matilde, meio a brincar, meio a sério:

Diz lá, o pai do Francisco não será o Mário, pois não?

Lá estás tu outra vez! Mas que raio de ideia é essa? Achas-me capaz de uma traição? Isso é disparate puro!

Eu só queria ter a certeza! Afinal o Mário uma vez deu-te boleia, lembras-te?

Claro que deu! Já estava grávida, sentia-me enjoada e tinha dois sacos de compras pesadíssimos. Ele só me deu boleia a casa. Isto agora é crime, ou quê?

A discussão prolongou-se palavras mais, palavras menos e eu insisti num teste de ADN. A Matilde recusou. Duas semanas depois, já de cabeça fria e pronta para atirar o arroz doce ao ar, disse-me que aceitava, mas que depois disso me dava com os pés. Achei que estava só danada comigo, mas vá, tínhamos chegado a acordo: íamos fazer o teste.

Nesse dia, ao ir despejar o lixo, cruzei-me com o Mário. O homem já ia nos trinta e cinco e, coitado, solteiro e sossegado. Olhei bem para ele, à procura de semelhanças, mas não consegui descobrir nada. Senti-me tonto.

Cheguei a casa cheio de pensamentos, sentei-me na cozinha, e o Francisco veio ter comigo. Subiu-me para o colo, abraçou-me com força e contou-me qualquer coisa sobre o futebol da escola. Senti uma paz enorme. Para quê aquilo tudo? Não preciso de testes nenhuns: aquele miúdo é meu filho, nota-se de olhos fechados. Peguei nele ao colo e fui direito ao quarto.

Não fazemos teste nenhum! disse eu, convicto.

Agora que eu já estava preparada para te provar que nunca te trai, queres saltar fora? Vais ver se não faço! a Matilde, sempre orgulhosa.

Tive de passar a semana a pedir-lhe desculpa, a dar-lhe mimos e prometi nunca mais pensar nessas tolices. Ela lá me perdoou.

Os anos passaram num instante. O Tiago casou-se, e a nora logo engravidou. Tive finalmente a neta de que sempre sonhei, prontinha para ser estragada pelo avô. Acho que ninguém vai conseguir amar aquela pequena mais do que eu. Ou melhor, só se for como amo os meus três rapazes.

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Desconfiava da fidelidade da minha esposa porque ela deu à luz a um rapaz. É o nosso terceiro filho.
Приемам майка си у дома, а жена ми ми постави ултиматум