Bateram à porta e disseram-lhe:

Olha, deixa-me contar-te uma história que me tocou mesmo cá dentro.

Era uma manhã calma, e a Dona Mariana, uma senhora já com mais de setenta anos, estava a varrer o seu pequeno quintal em Vila Nova de Milfontes. Aquela casinha guardava nela toda a vida da Dona Mariana ali tinha criado os filhos, ali tinha perdido o marido, ali tinha chorado e rido durante uma vida inteira.

De repente, a porta de ferro rangeu e abriram-se as folhas sem qualquer cerimónia. Entraram dois senhores engravatados, com pastas debaixo do braço, sem sequer baterem à porta. Olharam-na rapidamente por cima dos óculos.

É a Dona Mariana Alves?
Sou eu, sim senhor… respondeu ela, apertando melhor o lenço colorido na cabeça.

Viemos comunicar que neste terreno vai passar uma nova estrada municipal. A sua casa está mesmo no traçado.

A Mariana ficou ali parada uns segundos, a piscar os olhos:
Então tenho de sair… para onde vou eu agora à minha idade?
Vai ser indemnizada, minha senhora. Vai receber uma quantia em euros.
Mas para onde vou, filho… isto é a minha casa

Um deles revirou os olhos e disse já com impaciência:
Minha senhora, por favor, casa é só uma palavra. Isto agora é apenas um terreno. Sentimentos aqui não entram.

Estas palavras magoaram-na mais do que a própria notícia.
Mas eu não posso nem perguntar nada?
Só tem direito de assinar onde mandam, respondeu rispidamente o outro, quase a ralhar.

Dona Mariana sentou-se no banco de pedra junto à parede branca, com o peito apertado. Olhou para tudo à sua volta os azulejos da cozinha, o velho relógio de parede, os retratos antigos. Mesmo depois deles saírem, a casa pareceu-lhe mais pequena, mais frágil.

Ó meu Deus e agora, o que faço eu da minha vida? murmurava enquanto passava a mão pelos móveis gastos.

A notícia correu num instante pelo bairro inteiro. E, sabes como é cá, o povo não deixou por menos. Aos poucos, começaram a vir vizinhos: primeiro um casal, depois mais um grupo, depois parecia toda a aldeia à porta da Dona Mariana.

Mas vão pôr a Dona Mariana na rua?
Uma senhora que nunca fez mal a ninguém?
Que mudem o traçado da estrada!

Quando os funcionários voltaram para pressionar, já não a encontraram sozinha. O portão estava cheio de vizinhos, jovens e velhos, até miúdos. Gritava-se:
Daqui ninguém sai! Não passam por cima da vida de uma pessoa!

Um dos homens das pastas exaltou-se:
A lei é a lei!
E ouviu-se logo:
Lei sem humanidade não é justiça!

A Dona Mariana estava lá, miudinha, mas com as costas direitas.
Eu não quero dinheiro.. disse com voz fraquinha.
Só quero ficar aqui, morrer onde vivi.

Veio um silêncio grande. Dias passaram: petições, notícias no jornal da terra, pressão de toda a gente.

Um dia, apareceu uma senhora da autarquia desta vez simpática, nada arrogante, voz doce.
O projeto vai mudar. A estrada vai passar noutro sítio. Aqui não se constrói nada.

A Mariana ficou sem reação:
Quer dizer fico?
Fica.

Houve logo palmas, alguns começaram a chorar, outros davam abraços. Ela encostou-se ao portão e sussurrou:
Obrigada, meu Deus… não me deixaste sozinha.

Nessa noite, a vila inteira foi mais do que apenas um lugar. Sentiu-se como uma família. Porque, às vezes, uma estrada grande pára à porta de uma casa pequena… quando ninguém se esquece do que é o verdadeiro LAR.

E tu, ias ou não à porta da Dona Mariana? Diz-me nos comentários

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Partilha esta história há coisas que nunca podem ser esquecidas.

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Bateram à porta e disseram-lhe:
Avó por uma Hora