Ao avistar o cão deitado ao lado do banco, correu até ele; seu olhar também pousou na coleira que Natália deixara descuidada.

Ao avistar o cão caído junto ao banco da praça, correu imediatamente para ele. Também chegou ao seu alcance a coleira que Inês tinha largado descuidadamente. Marte, o cachorro, fitava o dono com olhos inchados de dor…

Há quase dois anos, os irmãos quase não se falavam. Tiago ainda não compreendia como um pequeno desentendimento se transformara num conflito tão feroz.

Tiago e Inês Costa nasceram com um ano de diferença. Desde a infância foram inseparáveis, defendendose mutuamente. Seja qual fosse a travessura, a responsabilidade era dividida por igual; nunca se escondiam atrás do outro.

A aldeia onde cresceram, Vila Nova de Cerveira, prosperava a cada primavera. O povo era guiado por António Ribeiro, nascido ali, um engenheiro agrónomo de renome.

Depois de concluir a licenciatura em Engenharia Agrícola, António regressou ao seu vilarejo e lançouse em projetos comunitários. O seu empenho foi rapidamente reconhecido e, dez anos depois, tornouse presidente da autarquia de Vila Nova de Cerveira.

Nas suas vidas pessoais, tudo também corria bem. Inês, depois de terminar o curso técnico de enfermagem, começou a trabalhar na posta de saúde da aldeia como assistente. António não pôde ignorar aquela beleza; Inês retribuiu o interesse. Casaramse, e a aldeia inteira celebrou o casamento. Tiago ficou feliz pela felicidade da irmã, embora o seu próprio matrimónio com Natália fosse tudo menos sereno.

Enquanto Inês se mostrava impassível, Natália murmurava contra ela, chamandoa inútil ou pretensiosa. Mas, depois do casamento, o ressentimento transformouse em inveja. Natália passou a exigir cada vez mais do marido uma casa maior, um carro mais caro, um cão de raça…

Com frequência, Tiago lançava ao marido um olhar carregado de frustração: Os outros têm tudo, e nós nada! O homem se esforçava ao máximo, mas as exigências de Natália não podiam ser satisfeitas nem com dinheiro, nem com força.

Natália também era infeliz: o Senhor não lhe concedeu a alegria da maternidade. Enquanto isso, Inês prosperava: casouse, teve um filho e depois uma filha, construiu uma casa espaçosa e o marido alcançou um cargo de respeito…

Os encontros familiares terminavam cada vez mais em discussões acaloradas. Sempre que Tiago visitava a casa de Inês, Natália imediatamente começava a repreender o cunhado.

A última crise ocorreu no aniversário de Tiago. Inês trouxe-lhe como presente um filhote de Labrador, vindo da capital há muito desejava um cão assim. António, generoso, ofereceulhe ainda uma nova motocicleta.

Tudo corria bem, até que Natália, embriagada, explodiu em fúria e despejou todo o veneno acumulado sobre Inês:

E então, Lurdes? O cão era só um alvo? Se já não temos filhos, por que não compramos um cachorro?!

Lurdes tentou acalmar a situação:

Natália, respira. Depois vais envergonharte

Mas as palavras foram inúteis. Uma grande discussão se inflamou, dividindo os convidados em dois grupos. António, sussurrando à esposa, sugeriu que se retirassem; eles saíram da festa logo depois.

Dois anos se passaram. Naquela noite, Tiago começou a evitar a irmã; o contato limitouse a breves encontros esporádicos. Entre ele e Natália a tensão só aumentava.

Ao cair da noite, Tiago passeava cada vez mais vezes à margem do rio com Marte. Os dois pareciam felizes: Tiago lançava um bastão, Marte corria atrás, depois deitavase aos seus pés e ouvia atentamente as histórias silenciosas do dono.

Inês soube disso pelos vizinhos, mas nada fez Tiago permanecia inflexível.

Depois da discussão infeliz, Natália passou a odiar não só Inês, mas também o próprio Marte. Quando Tiago não estava em casa, expulsava o cão, jogavao no chão e, por vezes, até o agredia.

As vizinhas curiosas alimentavam o fogo:

Ouviste, Natália, o teu marido outra vez à beira do rio com o cão

Ontem cruzouse com a Lurdes, o marido e as crianças riam e brincavam!

A inveja consumiu Natália por completo. Um dia, Tiago perguntoulhe:

Natália, o que fazes ao Marte?

Que preciso do teu cão?! rugiu, retirandose da sala.

Marte começou a fugir cada vez mais da presença de Natália, tremendo ao vêla.

Tudo acabou quando, numa manhã, Tiago, furioso, desabafou ao sair:

Já não aguento esta constante inveja!

Sozinho, tomado pela ira, Natália arrastou Marte para o quintal, amarrouo a um banco e deulhe um chicote. O pobre animal gemia de dor. Quando a raiva passou, Natália soltou o chicote, arrumou as suas coisas e saiu de casa para nunca mais voltar.

À noite, Tiago chegou ao lar e não encontrou o cão na porta. O interior estava em desordem. No banco, encontrou Marte, com a respiração presa. Rapidamente libertouo, prendeuo nos braços e correu para a clínica.

Inês, a ponto de partir, viu o irmão, ainda segurando o cão sangrando:

Lurdes, ajuda implorou Tiago, a voz rouca.

Levaram Marte ao consultório. Inês examinouo minuciosamente:

Quem fez isto ao animal?

Natália Tiago abaixou o olhar.

Inês assentiu em silêncio. Costurou as feridas, lavou os olhos, deulhe água.

Mais tarde, no corredor, Tiago sussurrou, arrependido:

Perdoame, Lurdes

Já chega sorriu cansada, a irmã. E a Natália?

Não, Lurdes. Não mais.

Inês ligou para António:

António, vem aqui, por favor.

Ao ouvir a voz fatigada da esposa, António saiu imediatamente.

Meiohora depois, estava no corredor. Quando viu os dois irmãos abraçados, Marte ao fundo choramingava suavemente, sem fazer perguntas, apenas sorrindo:

Venham, meus heróis.

Levaram Tiago de volta para casa e lhe deram instruções sobre os cuidados com o cão.

Quando Inês contou aos pais o que havia acontecido, eles suspiraram:

Deviam ter se separado há muito tempo.

Ela então se dirigiu ao filho para ajudar a pôr ordem na casa.

No ginásio, Tiago sentavase, acariciando Marte. A mãe chegou, também os afagou:

Estão vivos?

Vivos respondeu Tiago.

Um perfume delicado escapava da cozinha: carne assada e legumes frescos. Marte abanou o rabo, abanou o focinho. Tiago sorriu e levantouse.

A vida continuava, agora com o som do coração a bater mais forte e o aroma da esperança a encher o ar.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

four × 5 =

Ao avistar o cão deitado ao lado do banco, correu até ele; seu olhar também pousou na coleira que Natália deixara descuidada.
💸 Posmievala sa jeho chudobe, až kým nezistila, kto v skutočnosti je!