Desde o dia em que tiraram aquilo que o Toshka mais amava, ele nunca mais entrou na casota. Agora dormia sobre a terra fria, quase não comia e já não respondia ao seu único amigo que lhe restava, o Sérgio…

Desde o dia em que tiraram aquilo que a Matilde mais amava, ela nunca mais entrou na casota. Agora dormia na terra nua, sem comer quase nada. Até ignorava o seu único amigo que lhe restava, o Joaquim

Chegou mais um novembro. A cada dia, o frio aumentava, o céu ficava pesado, coberto de nuvens, e as pessoas embrulhavam-se em grossos casacos de lã e cachecóis. No ar já se notava aquele cheiro cortante do inverno, e Matilde percebia melhor que ninguém faltava pouco para cair a primeira neve.

Quando será que vão encher a minha casota com feno quentinho? Tenho pelo suficiente para aguentar, mas à noite o frio já congela mesmo os ossos pensava a cadela, estendida no chão húmido.

Via, meio entediada, os trabalhadores a carregarem caixas e empilhá-las em enormes camiões de cheiro desagradável. Ninguém prestava atenção à fiel guardiã das redondezas.

Ó Matilde, isto não é para estares aí deitada! resmungou o segurança, que saiu da portaria para fumar um cigarro. Estás aqui é para guardar o armazém, não para estares feita senhora no sofá. Sinceramente!

Cuspiu para o chão, azedo, e foi-se embora. Chamava-se Vítor. Nunca gostara da Matilde, nem quando ela era cachorrinha. Era birra, pura e simples.

Passado um bocado, parou à porta do armazém um carro verde-tropa já antigo. A cadela levantou-se de rompante.

Olá, leal companheira, cumprimentou o homem de boné e rosto por fazer. Hoje vim trazer-te um abrigo acolhedor.

Era Joaquim o segurança de que ela mais gostava. Tinha sempre uma palavra doce para ela e um petisco escondido. Mesmo de folga vinha vê-la: desta vez trouxe palha seca para forrar a casota.

O Joaquim encheu a casota com o feno fresco e quentinho, depois tirou da mala uma tigela com arroz de pato ainda a fumegar. Esperou que Matilde comesse tudo, levou a tigela para lavar e só então se despediu.

Ficou sozinha. Ao menos a noite estava quase aí nos sonhos podia escapar-se ao peso do abandono, algo tão constante na sua vida.

Quando caiu mesmo a noite, Matilde acercou-se da casota. Ia entrar, mas parou de repente.

No fundo do feno, brilhavam dois olhos verdes, como pedras preciosas. Ouviu-se um rosnar esquisito.

Matilde fitou a intrusa sem se aborrecer. Uma gata preta, magra como uma garça, olhava-a com olhos assustadores. No olhar dizia tudo:

“Não te atrevas. Comigo ninguém brinca!”

A cadela, estranhamente, sentiu-se contente.

A casota é pequena, mas se nos encolhermos cabemos as duas, pensou.

Avançou um passo, mas levou logo com uma patada afiada como navalha.

“Xiiiiiiiiiiiiiiiii!” rosnou a gata pelos seus botões.

Pronto, pronto. Durmo cá fora. Matilde ficou enroscada à porta da própria casota.

No dia seguinte, acordou cedo, ansiosa pelo pequeno-almoço. Espreitou a casota: a gata dormia profundamente.

É tão bonita

Vítor, mal-humorado, deixou-lhe uns restos frios à frente.

Pelas regras, a Matilde devia receber comida decente. Mas o Vítor nunca se dava ao trabalho. Atirava o que calhava. Acabava sempre com o estômago a doer, mas não havia ninguém a quem se queixar.

Farejou a comida e, de repente, apanhou outro cheiro.

A gata! Estava mesmo ali, tranquila, a roer pedaços de chouriço, como se tudo fosse seu.

Matilde ficou feliz ela precisava, estava tão magra.

Quando olhou para ela, a gata ficou logo em sentido, pronta para fugir, mas Matilde só ficou a mastigar o pão, meio envergonhada.

“Será que ela também quer pão?”, pensou, pondo o pedaço de lado.

Passaram o dia a observar-se. A gata, desconfiada, sempre de olho. Matilde, curiosa, só queria ser amiga.

Nessa noite, o Vítor voltou a mandar-lhe restos. A gata apressou-se a devorar o jantar.

O que é isto?! exclamou Vítor, dando um pulo atrás. Sai daqui, bruxa! Fora, fora!

A gata fugiu rapidamente para trás da Matilde. A cadela hesitou, mas logo defendeu a sua nova amiga, mostrando os dentes e eriçando o pelo.

Vítor resmungou e foi-se embora. O segurança que entrou a seguir nem ligou aos animais.

A gata olhou para Matilde com um ar sério, quase agradecido. E Matilde pensou:

Vítor chamou-a bruxa será nome? É… vai ser.

E assim ficou: a gata passou a chamar-se Feiticeira.

Vieram os primeiros dias de gelo. A Feiticeira voltava sempre ao abrigo de palha. Matilde não queria incomodá-la, mas foi espreitar. A gata, ao ver aqueles olhos tristes e humildes, encolheu-se de lado deixando a Matilde deitar-se junto a ela.

Dormiram agarradas a noite inteira. Nunca tinham dormido tão descansadas.

Daquele dia em diante, Matilde e Feiticeira eram inseparáveis. Comiam, dormiam e comunicavam no seu próprio idioma animal.

A primeira vez que o Joaquim viu a gata ao lado da Matilde, nem quis acreditar: tão pequena e frágil, sem medo sequer.

Mas logo percebeu era amor de verdade. E o amor não tem tamanho.

Passou a cuidar da Feiticeira também: levou-a ao veterinário, escovou-lhe o pelo, alimentou-a melhor. Em pouco tempo, a gata parecia outra.

Só Vítor continuava a implicar. Convencido de que a gata preta trazia azar, decidiu correr com ela dali.

Um dia ainda tentou envenená-la, mas Matilde, desconfiada, percebeu e impediu estava sempre atenta.

Numa noite gelada, as duas estavam aninhadas na casota. Matilde lambia uma das muitas feridas da Feiticeira ela metia-se sempre em sarilhos.

De repente, sentiram um cheiro suspeito

Matilde saiu disparada e latiu alto. Havia fogo! O armazém estava a arder!

Vítor saiu aos gritos, andava às voltas como um perdido, à procura do telemóvel.

A Feiticeira soltou um miado agudo. Ele virou-se a gata estava sentada junto ao telemóvel dele, caído no chão.

Estúpida, bruxa! resmungou o homem, empurrando-a rudemente, pegou no telefone e chamou os bombeiros.

Matilde protegeu a amiga e, juntas, abrigaram-se nos arbustos até tudo acabar.

Quando o incêndio extinguiu, Vítor lançou um olhar de puro ódio à gata.

No dia seguinte, Matilde ouviu uma conversa à porta:

Só há problemas desde que ela apareceu. Já viram aqueles olhos? Só pode ser mesmo uma bruxa! dizia Vítor.

Queres o quê? perguntou alguém, sem muita vontade.

Levo-a para o monte e deixo-a lá.

O coração de Matilde deu um aperto. Abraçou-se à Feiticeira que dormia.

Estás doido?! Ela morria logo ali! atalhou Joaquim.

Eu quero lá saber! Já bastou o incêndio!

Olha que é verdade, gatos pretos dão azar murmurou outro.

Ninguém vai levar ninguém para lado nenhum. Que infantilidade, cortou Joaquim e entrou para dentro.

Quando amanheceu, Matilde acordou, espreguiçou-se e foi logo cheirar Feiticeira.

Mas não estava lá.

Vasculhou a palha nada. Saiu disparada, farejou por todo o lado, soltou um ganido baixo.

Um vulto preto passou junto ao portão. Correu, mas era só um saco plástico levado pelo vento.

A porta da portaria abriu-se.

Ora, aqui estás. À procura da amiga, é? riu-se Vítor, com um sorriso venenoso. Já não te serve. Agora anda por aí. Se calhar, já nem sobreviveu sequer.

Matilde olhou-o, procurando qualquer outro sentido nas palavras.

Vais ver, daqui a pouco já ninguém se lembra dela.

Ficou sem saber o que fazer. Nem sequer teve forças para uivar.

Começou a nevar. Flocos grossos iam pousando no dorso imóvel da Matilde.

Desde que lhe tiraram a coisa mais preciosa, nunca mais entrou na casota. Dormia ali mesmo, sem comer, sem sequer reagir ao Joaquim, o último amigo fiel.

Matilde, acredita em mim, ela agora está num sítio muito bom. Está quentinha, tranquila Acreditas, não acreditas? dizia-lhe Joaquim, sentando-se ao lado e passando-lhe a mão com carinho.

Eu também queria ir para esse sítio. Quero ir para junto da minha Feiticeira. Deixas-me ir ao pé dela por favor?”

Na véspera, Matilde ouviu ao longe estranhos a falarem dela, como quem fala de um móvel velho. Diziam que ela já estava velha, que o melhor era pô-la na rua, dar lugar a um cão novo para o armazém

No que deu a conversa, já não se lembra, nem faz diferença. Só importava uma coisa.

A neve ia caindo, fria, cobrindo-lhe o focinho, as patas. Por fim, Matilde ficou tapada de branco, cerrou os olhos.

E se desta vez nunca mais os abrir? Não quero não quero mesmo foi o último pensamento que lhe surgiu, já a adormecer de frio e tristeza.

O mundo ficou cada vez mais quieto. Matilde já não sentia o corpo, nem cheiros, nem vento.

Subitamente, na escuridão, ouviu uma voz familiar:

Anda, acorda! Vá, está na hora. Vens comigo!

O resto ficou meio nublado: o carro quentinho do Joaquim, o assento macio, o caminho cheio de curvas e os cheiros desconhecidos que entravam pela janela.

O desânimo consumia-a. Adormeceu profundamente ao som baixo da rádio do carro.

Horas depois, chegaram. Joaquim ajudou-a a sair e apoiou-a enquanto subiam até casa.

Agora vais viver comigo, minha amiga.

Matilde não tinha forças, mas tentou mostrar alegria para não magoar o seu protetor. Joaquim percebeu tudo, só sorriu com ternura.

Anda lá, vais ver que agora tudo melhora piscou-lhe o olho, abrindo a porta.

Assim que entraram, Matilde parou em estado de choque. O cheiro conhecia-o melhor do que ninguém. Era Feiticeira!

Num instante, a gata preta saltou do parapeito e correu até ela. Antes mesmo de ela chegar, Matilde já sabia: era a sua Feiticeira!

Eu disse que estava num sítio bom, não disse? riu Joaquim. Achavas que eu ia deixar aqueles idiotas largarem a tua amiga no monte?

Mas cão e gata nem ligavam ao humano tinham muito para pôr em dia no seu idioma só deles.

Depois de conversarem à sua maneira até já não terem mais nada para dizer, aninharam-se juntas. Matilde pensou: o que será que quer dizer Feiticeira?

Ia perguntar, mas esqueceu-se. Feiticeira é a minha amiga. E isso basta.Mal se aninharam, Matilde sentiu no coração um calor há muito esquecidonão era só o conforto do lar, era a promessa renovada de pertença. Feiticeira ronronava tão alto que parecia puxar a tristeza para fora de ambos.

Lá fora, a neve caía espessa, mas ali dentro o frio não entrava. Joaquim acendeu o fogão de lenha, sentou-se no sofá e puxou uma manta. De vez em quando, olhava para os dois animais enroscados e sorria, com a certeza silenciosa de quem fez a coisa certa.

Naquela noite, Matilde sonhou com campos verdes, perseguições alegres, trilhas cheias de cheiros novos e o sol dourado adormecendo ao lado de Feiticeira, que já não tinha medo, nem precisava esconder-se. Sonhou com tardes longas de sestas partilhadas na varanda, refeições fartas, arranhadelas de brincadeira, e com os pés seguros de Joaquim sempre alilonge do abandono, perto de casa.

Quando acordou, sentiu Feiticeira a lamber-lhe a orelha. Matilde olhou-a e já não viu solidão nenhuma: só futuro. E nesse momento percebeua verdadeira sorte não é não ter problemas, mas encontrar quem fica ao nosso lado quando eles caem, como a neve, sem aviso.

Cão e gata entenderam, cada uma à sua maneira, que nem inverno, nem homem amargo, nem sequestros podiam roubar o essencial: a amizade e a casa que fizeram juntas. E assim, terminava uma velha história de perdas, começava outradesta vez, de encontros.

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Desde o dia em que tiraram aquilo que o Toshka mais amava, ele nunca mais entrou na casota. Agora dormia sobre a terra fria, quase não comia e já não respondia ao seu único amigo que lhe restava, o Sérgio…
Moje deti so mnou takmer vôbec neudržiavali kontakt, kým nepotrebovali pomocA keď som im ponúkol pomoc, uvedomil som si, že ich núdza bola len zámienkou na obnovenie kontaktu, ktorý som už dávno prestal očakávať.