As coisas não acontecem por acaso. São as pessoas que criam as circunstâncias. Foi por tua mão que deixaste uma vida na rua, e agora queres mudar quando te convém.
Ontem, ao sair do trabalho, regressei a casa por uma dessas ruas típicas de Lisboa, no início do inverno, quando tudo parece envolto numa cinzenta monotonia. Passei logo ao lado de uma pastelaria e ali, debaixo de um toldo, estava um cão. Um rafeiro, pelagem dourada, desgrenhada, olhar perdido como criança sem rumo.
O que é que queres aqui? resmunguei, mas parei.
O cão ergueu o focinho e olhou, sem pedir nada. Apenas olhou.
“Parece que espera pelos donos”, pensei eu, e segui o caminho.
No dia seguinte, igual. E no outro também. Parecia que aquele animal tinha criado raiz ali. Comecei a reparar que uns passavam, outros deixavam um pedaço de pão ou um resto de croquete.
Porque é que ficas sempre aqui? perguntei-lhe um dia, agachado ao lado. Onde estão os teus donos?
Foi então que o cão se chegou devagar e encostou o focinho à minha perna.
Fiquei imóvel. Quando é que tinha sido a última vez que fiz uma festa a alguém? Após o divórcio já lá vão três anos. O apartamento parece um túmulo. Só resta o trabalho, a televisão, o frigorífico.
És uma Ladina, murmurei, sem saber bem de onde me veio este nome.
No dia seguinte, trouxe-lhe salsichas.
A semana passou e coloquei um anúncio online: “Cão encontrado. Procuram-se donos.” Ninguém respondeu.
Um mês depois, regressando a casa do turno sou engenheiro e há dias em que fico noite dentro no terreno vi um grupo à porta da pastelaria.
O que aconteceu? perguntei à Senhora Vera, vizinha do prédio do lado.
O cãozinho foi atropelado. O mesmo que esteve aqui o mês inteiro.
O coração caiu-me aos pés.
Onde está ele agora?
Levaram-no para a clínica veterinária, na Avenida da República. Mas aquilo pede dinheiro a valer E a quem é que interessa um cão abandonado?
Não respondi. Dei meia-volta e corri.
Na clínica, o veterinário balançou a cabeça:
Fraturas, hemorragia interna. O tratamento sai caro. E nem sei se sobrevive.
Trate, disse eu. Seja quanto for, pago.
Quando saiu do hospital, levei-a para casa.
E pela primeira vez em três anos, o apartamento voltou a ter vida.
Mudou tudo. De raiz.
Comecei a acordar não por causa do despertador, mas porque a Ladina encostava o nariz à minha mão, suave, a dizer: “Já é hora, patrão”. E levantava-me, sorrindo.
Antes, os dias começavam com café e jornal. Agora, com caminhadas no Parque Eduardo VII.
Vá lá, miúda, vamos apanhar ar, dizia-lhe, e ela abanava o rabo satisfeita.
Tratei dela na veterinária, fiz o passaporte, as vacinas. Oficialmente era minha. Fotografei tudo não fosse preciso um dia.
Os colegas estranhavam:
Francisco, até pareces mais novo. Que energia!
E de facto, pela primeira vez em anos, sentia-me útil.
A Ladina provou ser brilhante. Bastava meio gesto e entendia tudo. Se chegava tarde do trabalho, estava à porta, olhos preocupados: “Esperei por ti”.
Ao fim do dia, passeávamos no Jardim da Estrela. Falava-lhe de trabalho, de vida. Ridículo? Talvez. Mas ela escutava, atenta, às vezes choramingava como que respondendo.
Sabes, Ladina, achava que sozinho era mais fácil. Ninguém atrapalha, ninguém aborrece. Mas afinal, acariciei-lhe a cabeça, tive foi medo de voltar a amar.
Os vizinhos já nos conheciam. Dona Vera, do rés-do-chão, arranjava sempre um osso.
Bicho bonito, dizia ela. Nota-se que é bem tratada.
O mês passou. Outro veio.
Já pensava abrir-lhe uma página nas redes sociais. Fotógrafa nata o pelo reluzia ao sol, quase de ouro.
Mas um dia veio a surpresa.
Passeava no parque. Ladina farejava ervas, eu sentado no banco e com o telemóvel na mão.
Feba! Feba!
Levantei a cabeça. Aproximava-se uma mulher, pelos trinta e cinco anos, loira, pintura forte, fato desportivo vistoso.
Ladina ficou alerta, orelhas baixas.
Desculpe, disse eu, está enganada. O cão é meu.
A mulher pôs as mãos na cintura.
Como, seu? É a minha Feba! Perdi-a há meio ano!
O quê?
Sim! Fugiu-me do prédio, procurei-a em todo o lado! E você roubou-a!
Senti o chão fugir.
Espere Como perdeu? Eu recolhi-a junto à pastelaria. Estava lá, abandonada, por um mês!
E porque estava lá? avançou ela. Porque se perdeu! Adoro-a! Comprámos-la de raça!
Raça? Olhei para Ladina. É só uma rafeira.
É mestiça! Custou caro!
Levantei-me. Ladina encolheu-se junto à perna.
Certo. Se é mesmo sua, mostre-me documentos.
Que documentos?
Passaporte veterinário. Vacinação. O que for.
A mulher hesitou:
Estão em casa. Mas isso não importa! Eu reconheço-a! Feba, vem cá!
Ladina ficou imóvel.
Feba! Vem aqui, já!
Ela enfiou-se mais junto a mim.
Viu? disse baixinho. Não lhe reconhece.
Está só magoada por eu ter perdido! a mulher gritou. Mas é minha! Exijo devolução!
Eu tenho documentos, respondi pacífico. Recibo da clínica, passaporte, talões de comida e brinquedos.
Não quero saber dos seus papéis! É furto!
As pessoas pararam a olhar.
Quer mesmo resolver legalmente? Chamo a polícia.
Chame! bufou ela. Tenho testemunhas!
Quais?
Os vizinhos viram-na fugir!
Disquei, o coração aos saltos. E se tinha razão? E se a Ladina fugiu mesmo de casa dela?
Mas por que ficou aquele mês à porta da pastelaria? Porque não voltou para casa?
E, acima de tudo, porque treme agora, aqui junto a mim?
Alô? Polícia? Preciso de ajuda
A mulher sorriu amarga:
Vai ver. A justiça ganha sempre. Devolva-me o cão!
Ladina encostou-se ainda mais.
E foi aí que decidi: ia lutar por ela até ao fim.
Porque em poucos meses, Ladina deixou de ser só cão.
Tornou-se família.
O agente chegou meia hora depois. Sargento Pereira homem tranquilo e de trato duro. Já o conhecia das reuniões no condomínio.
Contem lá pediu, abrindo o bloco.
A mulher falou primeiro, nervosa:
É minha! Feba! Pagámos dez mil euros! Ela fugiu há meio ano, procurei-a, e este homem roubou-a!
Não roubou, recolheu-a, expliquei. Estava junto à pastelaria, um mês abandonada.
Porque estava? Porque perdeu-se!
O agente olhou para Ladina, encostada a mim.
Algum documento?
Tenho, tirei a pasta. Por sorte, tinha trazido do veterinário.
Aqui está: relatório médico, depois do atropelamento. Passaporte animal, vacinas.
O agente analisou tudo.
E da senhora?
Está tudo em casa! Mas não interessa! É a minha Feba!
Pode explicar melhor como a perdeu? perguntou Pereira.
Passeava, soltou-se da trela e fugiu. Procurei, pus cartazes.
Onde passeava?
No parque ao lado.
Morada?
Avenida da República.
Estremeci:
Espere. Isso é dois quilómetros da pastelaria onde a encontrei. Se perdeu no parque, como foi aparecer ali?
Perdeu-se! É normal!
Cães costumam achar o caminho de volta.
A mulher corou:
Sabe lá o que diz!
Sei, respondi. Sei que um animal amado não fica um mês abandonado. Procura os donos.
Posso perguntar? interrompeu o agente. Disse que pôs anúncios. Nunca procurou a polícia?
Polícia? Nem pensei
Em meio ano? Um cão de dez mil euros perdido e não faz queixa?
Achei que nada ia servir.
Pereira franziu o cenho:
Senhora, documentos, por favor.
Que documentos?
Bilhete de Identidade. E qual o número da porta?
O vinte e três.
O agente conferiu:
Está certo. Agora diga quando perdeu ao certo?
Em janeiro. Vinte ou vinte e um.
Peguei no telemóvel:
Eu recolhi-a no dia vinte e três de janeiro, e já lá estava há quase um mês.
Logo, perdeu-se bem antes disso.
Se calhar enganei-me no dia! desandou ela.
E repente desistiu:
Pronto, pronto, fica consigo! Olhe que sempre gostei dela!
Silêncio.
Como? perguntei baixinho.
O meu marido quis mudar de casa, não aceitavam cães no arrendamento. Não conseguimos vendê-la afinal não era de raça. Por isso deixei-a junto à pastelaria. Achei que alguém a ia buscar.
Senti o mundo revirar-se cá dentro.
Abandonou-a?
Deixei, mas não foi por mal Pensei que alguém ia cuidar.
E então porque quer levá-la agora?
Ela soluçou:
Divorciei-me. Ele foi-se. Fiquei só. Senti falta da Feba Gostava realmente dela!
Fitei-a e duvidei.
Gostava? repeti devagar. Quem ama não abandona.
O agente fechou o bloco.
Está claro. Documentalmente o cão pertence ao senhor olhou para o BI, Francisco Neves. Tratou dela, registou, sustenta. Legalmente, não há discussão.
Ela chorou:
Mas já mudei de ideias! Quero levá-la!
É tarde, disse o agente. Abandonou, perdeu para sempre.
Sentei-me ao lado da Ladina, abracei-a:
Está tudo bem agora, menina.
Posso ao menos fazer-lhe uma festa? pediu a mulher. Só por uma vez?
Olhei para Ladina. Encostou ainda mais e baixou as orelhas.
Vê? Tem medo.
Não foi por mal. As circunstâncias
Sabe, levantei-me, as circunstâncias não acontecem do nada. São as pessoas que as criam. Você criou uma situação onde abandonou um ser vivo na rua. E agora quer mudar, só porque lhe apetece.
Ela chorou:
Eu percebo. Mas custa tanto estar só
E a ela? Como foi estar ali à espera um mês?
Silêncio.
Feba, chamou ainda uma vez.
O cão nem se mexeu.
A mulher virou costas e partiu sem olhar para trás.
Pereira deu-me uma palmada no ombro:
Fez bem. Nota-se que ela lhe pertence.
Obrigado pela compreensão.
Não tem de quê. Também tenho cães, sei bem.
Quando o agente partiu, fiquei só com a Ladina.
Pronto, disse-lhe, acariciando. Nunca mais ninguém nos separa. Prometo.
Ela olhou-me nos olhos. Vi ali não só gratidão mas uma confiança sem fim.
Amor.
Vamos para casa?
Ladina saltou alegre e pôs-se ao meu lado.
No caminho, pensei: afinal, ela tem razão num ponto. As circunstâncias mudam, o trabalho, a casa, o dinheiro.
O que nunca se perde é responsabilidade, amor e compaixão.
Em casa, Ladina deitou-se no tapete preferido. Eu preparei um chá e sentei-me junto dela.
Sabes, Ladina, disse em voz baixa, talvez tenha sido melhor assim. Agora já sabemos: precisamos um do outro.
Ela suspirou feliz.







