Vou amar-te sempre.
Matilde chegou a casa caminhando como quem nada pesa, mas sentindo o chão a flutuar sob os pés. No elevador do prédio, amparava-se nas paredes fartas de azulejos gastos. As chaves desapareceram entre recibos velhos e pequenas memórias na mala. Zangava-se consigo, por ter perdido o controlo no consultório da doutora. Mas como não perder?
A Dra. Cardoso, com os olhos brilhantes e o jeito resignado, pousou as imagens da ressonância magnética:
Matilde Duarte, a situação é preocupante. Tem uma aneurisma. A parede do vaso sanguíneo está fina, como se fosse de renda. Sabe quando um balão de feira está prestes a rebentar? Qualquer esforço, qualquer zanga… É urgente operar. Esperar pela comparticipação do Estado é jogar na roleta. Ninguém pode garantir tempo.
E… se for em privado?, sussurrou Matilde, as mãos suadas a apertarem a alça da mala.
O número que ouviu caiu-lhe em cima do peito. Não tinha, nunca teria tanto dinheiro. Os euros não chegariam, nem vendendo todos os livros raros da biblioteca onde ganhava salário mínimo. Nem um rim seu teria esse valor.
Espere pelo telefonema da ARS, sugeriu a médica com doçura triste. E tente não se preocupar. Descanso absoluto.
Descanso?! Queria gritar, partir tudo. Apenas concordou com a cabeça, saiu. As pernas eram de borracha.
Entre os rodapés do apartamento, herança do tio Afonso, tentava respirar fundo. Ali, encontrou sempre silêncio. Tio Afonso, irmão do seu pai, um eremita que viveu para as bugigangas, deixara-lhe aquele T3 cheio de tralha que para colecionistas seria ouro, para ela, fardo.
Devo desfazer-me disto tudo, vender móveis, o velho aparador, o aparador de prata… Ver se me desenrasco para pagar à clínica.
A simples ideia de esperar, quieta, que um balão rebentasse na cabeça, deixava-a sem ar. Precisava de ação, qualquer que fosse.
Começou pelo toucador da sala. Madeira escura, carvalho, gavetas cheias de papelada carcomida. Sacos do lixo, papéis velhos, contas dos anos oitenta tudo para o lixo. Manuais de ferros de engomar que apodrecem há décadas lixo. Varreu os dias, as ideias e a dor de cabeça foi aquietando.
Na gaveta do fundo, por baixo de jornais amarelecidos do “Diário de Notícias”, sentiu algo duro. Retirou uma velha pasta de cartolina, fitas atadas e as pontas gastas de tanto manuseio.
A curiosidade venceu o cansaço. Matilde desatou as fitas. Dentro, um molhe de cartas escritas em folhas soltas, letra contínua de homem, que ela reconheceu do tio Afonso.
Pegou na primeira folha.
Querida Leonor,
Já passam três meses desde que te foste. Não me acostumo. Fui ao Instituto hoje, e tudo me soava a vazio. Fui tolo, demasiado orgulhoso. Não devia deixar-te partir depois daquela discussão. Não sei onde estás. A tua vizinha apenas disse que partiste. Escrevo-te para o nada, mas não consigo deixar de escrever. É o que me mantém vivo.
Teu Afonso.
Matilde ficou imóvel. Imaginara sempre o tio um lunático, solitário sem mágoa. Nunca lhe passara pela cabeça que ali houvesse ternura e dor. Pegou noutra, e noutra. Sempre 1972. Em todas, repete-se a história: encontro, paixão, discussão sobre frivolidades (ele não quis conhecer os pais dela, acobardou-se ao compromisso), Leonor parte com a família sem deixar morada. Ele escreve cartas sem destinatário, jura amor eterno.
Leonor, nunca deixarei de te procurar. Se não te encontrar, amarei só a ti. Para sempre.”
E, pelos vistos, cumpriu. Velho solteirão, morte serena e só.
As lágrimas correram-lhe pelas faces enquanto lia. Uma vontade febril, quase desvairada, instalou-se: E se? E se Leonor ainda viva? Encontrá-la. Dizer-lhe que sempre foi amada e lembrada. Aquilo dava-lhe propósito e eclipsava o terror pela própria cabeça a rebentar. Uma missão endireitar uma velha injustiça no tempo.
Tentou ligar pontas. Não tinha morada. Sem apelido. Tornou a ler. A pista: Lembras-te? Passeávamos no jardim do Palácio de Cristal. Rias-te sempre dos leões de pedra junto ao teu prédio na Rua Sá da Bandeira.
Rua Sá da Bandeira. Palácio de Cristal. Matilde pesquisou no telemóvel antigo e lento. Encontrou fotos de prédios antigos com estuque em forma de leão. Pouco, mas algum caminho.
Teve esperança de encontrar mais entre a entulhada mobília. Na mesa de cabeceira do quarto, um álbum fotográfico. Tio Afonso jovem, cabelo castanho claro, olhar direto. E, nela, a rapariga dos olhos luminosos e duas espessas tranças escuras. No verso de uma das fotos, escrito a caneta: Turma ME-2, Instituto, 1971. Leonor G., Afonso, Sérgio.
Leonor G. Apenas a inicial do apelido.
O resto foi um caso policial digital. Vasculhou fóruns, listas de antigos alunos, arquivos de redes sociais. Leonor, G, nascida por volta de 1950-52, Porto. Referências a nomes de solteira.
E um golpe de sorte! Num fórum de ex-alunos do técnico, alguém partilhava: A minha mãe, Leonor Gonçalves Ramos (nasc: Gonçalves), terminou à noite em 1973…
Gonçalves. Leonor Gonçalves. Instituto. Combinava tudo. E, casada, Ramos.
Procurou Leonor Gonçalves Ramos. Achou um recorte de jornal local para o Dia da Mulher, foto a preto e branco. Felicitações a antigas trabalhadoras. Mulher de cabelos prateados, olhar doce e perspicaz. Matilde usou a lupa do álbum era a jovem Leonor, os olhos iguais, luminosos.
No artigo dizia que Leonor vivia em Vila Dourada e era ativa na associação local de pensionistas.
Matilde sentiu o coração disparar. Um endereço! Ligou para a Junta de Freguesia, fingindo-se assistente social, e facilmente obteve rua e número de porta.
Nem sentiu fazer a mala. Levou a pasta das cartas, uma garrafa de água e apanhou o autocarro rumo ao interior. A paisagem arrastou-se entre serrados e oliveiras. Mil hipóteses rodopiaram-lhe na mente se a mulher não a quisesse receber? Se a confundisse com uma burlona?
Vila Dourada cheirava a flores de laranjeira e calma. A casa era um rés-do-chão limpo, com roseiras encostadas a um muro verde. Matilde inspirou fundo, as pernas trémulas, e tocou à campainha.
A porta abriu-se para Leonor Gonçalves Ramos. Era-lhe maior pelo tempo, mais frágil.
Sim? a voz era cautelosa.
Boa tarde, D. Leonor? saiu-lhe a gaguejar.
Sim. Quem é a menina?
Eu sou Matilde Duarte… Sobrinha do Afonso Duarte.
A reacção foi imediata, dedos brancos a apertarem o trinco. O rosto, uma careta breve de dor.
Do Afonso…? De que Afonso?
Afonso Duarte. Ele… morreu. Faz um mês.
Leonor recuou devagar, fazendo um gesto para entrar. O cheiro da casa era doce. Sentou-se à sombra das cortinas, a mão a tremer.
Morreu… olhava para longe. Perguntava-me, às vezes. Procurava notícias. Lembro-me de ver necrológios… o meu Afonso.
Afonso meu. Ouvindo isso, Matilde sangrou por dentro.
Ele nunca a esqueceu. Matilde, baixinho.
A mulher fitou-a cheia de um lume misturado de dúvida e raiva.
Como o sabe?
Encontrei isto e mostrou-lhe a pasta das cartas. Ele escreveu-lhe. Todos estes anos. Sempre. Estavam na mesa dele.
Leonor recebeu o volume como quem segura uma relíquia. Desatou as fitas. Leu o primeiro papel sem desviar os olhos. Uma, duas, três lágrimas caíram. Não as limpou.
Tonto… menino tonto murmurou. Para quê? Porque se castigou assim?
Amava-a… Nunca casou.
Eu soube. Levantou os olhos. Descobri há uns quinze anos. Uma colega contou-me que vivia só. Não tive coragem de lá ir. Que vergonha. Tive medo.
Vergonha?
Fugi. Julguei que não me queria, nem à família. E… calou-se, apertando o papel. E eu estava grávida, Matilde.
A rapariga permaneceu petrificada, a respiração suspensa.
Perdão?
Sim. Já passava dos dois meses. E, depois daquela discussão, temi que ele fugisse do susto. Antecipei-me, fui eu que fugi. Com os meus pais. Tive um filho.
Caía um silêncio cerrado. Matilde sentia-se sem pele.
O tio… tinha um filho?
Leonor acenou, focada na paisagem além da janela.
O Alexandre é pessoa de bem. Casei com o Nicolau. Um homem bom, que me aceitou e cuidou do menino com amor. Deu-lhe o apelido, foi pai. Mas o Afonso… a voz tornou a tremer O Afonso ficou aqui bateu ao peito. A vida toda. Nunca o esqueci. O Alexandre sempre soube quem era o seu verdadeiro pai.
Matilde engolia a informação como se fosse sonho. Tinha um irmão. Um primo inteiro do seu sangue.
O Alexandre… Ele?
Leonor sorriu, envilecida de orgulho.
Cirurgião vascular. Tem até clínica própria no Porto. Clínica Lusíadas, já deves ter ouvido? Especialista em aneurismas…
De repente, Leonor fixou-a com intensidade maternal.
Olha para ti… estás branca que nem a cal! Sentes-te mal? Estás doente?
Aquele filha querida trouxe-lhe uma urgência de desabafar. As palavras vieram em torrente: as tonturas, o diagnóstico, a soma horrenda em euros, o desespero e a espera medonha por comparticipação.
Leonor escutou, a cara ganhando determinação. Quando Matilde terminou, caminhou resoluta até ao telefone fixo e discou.
Alexandre, querido? Vem já, preciso de ti. Não, comigo está tudo, sim… Mas deu-se um milagre. Vem, filho. Precisas conhecer a tua irmã.
Uma hora e meia depois, apareceu um homem esbelto, roupa sóbria, cerca de quarenta e cinco anos. Os olhos eram cinzentos afiados, iguais aos do jovem Afonso, o cabelo claro já a pratear.
Mãe, que se passa? voz calma, olhos inquietos. Reparou em Matilde.
Alexandre, esta é a Matilde. Matilde Leonor regulou. É filha do irmão do teu pai. Tua prima.
Alexandre ficou parado, estudando Matilde, a pasta das cartas, a mãe.
O pai… Era o Afonso Duarte? perguntou lentamente.
Era, murmurou Matilde. Tenho fotos dele.
Mostrou-lhe páginas fotografadas do álbum. Alexandre examinou-as em silêncio, o maxilar tenso.
Nunca casou?
Não respondeu Matilde em sussurro.
Ele fitou-a. O olhar era pesado.
A mãe disse que estás doente.
Matilde acenou. Leonor resumiu-lhe o diagnóstico.
Tens os exames? perguntou já clínico.
Matilde entregou-lhe a pasta dos relatórios. Ele leu cada página à luz do candeeiro. Finalmente, arrumou os papéis.
A operação não pode esperar. A sério.
Sei… Mas não tenho como…
Alexandre olhou-a com uma ternura rara.
Matilde, escuta-me. Tenho tudo: clínica, meios. Agora és família. Para família, nunca há pagar. Percebido?
Ela só acenava, lágrimas a caírem-lhe sozinhas pelo rosto. Não era azar; era salvação. Vinda de longe, do passado, de um amor de quase meio século.
Leonor abraçou-a forte.
Pronto, querida. Agora vai correr tudo bem. Olhou para o filho. Sacha, ela fica connosco a convalescer? Eu tomo conta.
Claro, mãe sorriu Alexandre, e nesse sorriso Matilde ofuscou-se de gratidão. Agora pertencia ali.
Vendo-os irmão rígido, a velha senhora finalmente em paz Matilde sentiu que o medo se dissipava, deixando apenas uma vaga, brilhante esperança: não estava mais sozinha. E à sua frente, a vida abria-se como um novo sonho.






