Está a ouvir? A sua esposa teve gémeos! Mas… eu tenho 52 anos… e nem sequer tenho esposa! Olhe, não sei… Venha cá ver, diz que são seus
Ouvi estas palavras pelo telefone, há tantos anos, e pensei que se tinham enganado no número. Cinquenta e dois anos filhos, agora? Mas a curiosidade falou mais alto. Peguei no carro e fui.
Ao entrar na maternidade, quase não acreditei no que via. No quarto estava deitada a minha ex-mulher, Madalena. E ao lado dela, de cada lado, dormiam dois pequenos anjos, tão serenos.
Madalena, mas que meninos são estes? São meus?
Teus respondeu-me ela, tranquila.
Fiquei calado, a tentar encaixar aquilo.
Tens 49 anos… E já nos separámos há tanto tempo…
Sim, há sete meses. Mas na altura ainda não sabia que estava grávida.
Como é possível?
Pensei que era menopausa. Quem diria que aquele nosso último adeus tão apaixonado ia dar nisto… Mas não te estou a pedir nada. Sentia apenas que tinhas o direito de saber.
Logo dois de repente… Anos sem conseguirmos e agora isto.
Nem eu queria acreditar. Só comecei a desconfiar no quinto mês. Achei que eram só uns movimentos estranhos, julguei que enlouquecia…
Na realidade, não me espantou muito. A Madalena sempre fora uma senhora forte, nunca nenhum amigo percebeu grandes diferenças nela.
Quando a conheci, já era assim, e devo dizer que sempre apreciei. Nunca fui homem de mulheres magras. Vivemos muito bem juntos, sonhámos com filhos. A Madalena tentou tratamentos, sofreu, mas sem resultado.
Depois, fizemos por viver para nós. Trabalhámos muito, mas aproveitámos bem a vida. Praia no Algarve, serras da Estrela, todas as capitais europeias. Mas nos últimos anos, algo se quebrou. Talvez nos tenhamos resignado à ausência de filhos. E quando a idade avança, vem aquele medo de ficar sozinho, de não ter quem olhe por nós um dia, nem leve flores ao cemitério.
Vieram as discussões. A Madalena engordou ainda mais. Até que um dia disse-me:
Só nos fazemos mal um ao outro. Devíamos separar-nos. Quem sabe, talvez ainda sejas pai noutro lugar.
Sinceramente, não queria. Mas ela decidiu. Doeu, mas aceitei.
Só mais tarde me confessou que hesitou em contar o segredo da gravidez. Tinha medo, não sabia se conseguiria levar a gravidez até ao fim, se os bebés nasceriam saudáveis. E eis este milagre.
Nesse mesmo dia, passei numa ourivesaria, comprei um anel e um grande ramo de flores. Voltei ao hospital e pedi-a em casamento de novo.
Já passaram dois anos desde então. Estamos juntos. Os meninos crescem fortes e saudáveis, e nós, ainda que pais de idade, de coração sentimos a juventude de quem recebeu a vida de volta.
E você, teria coragem de ser pai ou mãe nessa idade? Ou acha que a felicidade tem prazo de validade?






