Mãe, por favor, aceite: não queremos ter filhos.

Leonor teve um parto complicado, daqueles em que o tempo parece derreter nas paredes do hospital, e os médicos disseram-lhe, quase em sussurros embalados a saudade, que não poderia ter mais filhos. Quando o marido, Tomás, ouviu aquilo, tornou-se frio como o vento do Atlântico em dia de tempestade. Passaram assim seis meses, em que as palavras entre eles iam-se evaporando como nevoeiro em Belém ao fim da tarde. Tomás não só já não olhava para Leonor, como também tinha outra mulher. E essa mulher, chamada Gabriela, esperava gémeos num pequeno apartamento em Alfama. Sem olhar para trás, Tomás deixou Leonor sozinha com a filha pequenina, Matilde, como quem esquece um chapéu velho numa esplanada.

Leonor, agora mãe e pai, levou a rotina à risca mas o tempo derretia e recomponha-se de formas estranhas. Matilde, menina de olhos vivos como sardinhas saltando no mar, entrava em cursos de música um dia, noutro era balé, noutro ainda teatro. Gostava particularmente de juntar as suas bonecas, colocando-as numa roda mágica, ensinando-lhes canções populares, como se fossem amigas presas num sonho sem relógio. Leonor não se cansava de admirar aquela filha, feita de alegria e de mistério, com um cabelo embaralhado de brisas.

Na escola primária perto do Rossio, Matilde era como um pequeno capitão a comandar um navio de colegas, inventando novas lengalengas durante os intervalos. Mais tarde, já adolescente, começou a namorar um rapaz chamado Gonçalo, de modos esquisitos só levava Matilde a festas tradicionais, onde se dançava rancho folclórico, e a reuniões de jovens onde todos sonhavam alto mas riam baixo. Ela tocava bateria, ele guitarra o som ecoava nos bairros velhos, e o grupo que montaram chamava-se Os Sonhadores do Tejo. Os concertos multiplicaram-se entre fábricas abandonadas e tabernas esquecidas, a vida deles parecia simples e suspensa como se nunca tivessem contas de euros para pagar ou vizinhos para agradar.

Conforme o tempo ia desfiando, Leonor, já marcada por uma solidão antiga, só pensava no dia em que teria netos. Matilde, agora com 29 anos, continuava mergulhada naquele universo musical, onde os dias se encolhiam e depois estendiam feitos lençóis lavados ao sol. Numa manhã de domingo, entre tostadas e café forte, Leonor desabafou:

Filha, já está na hora de pensares em ter um bebé

Ó mãe, queres que eu seja como a tia Filomena? Teve quatro crianças, não vê horizonte para lá dos miúdos. É isso que chamas vida? Fica presa em casa, só cozinha, limpa e brinca.

Não tens que ser como a Filomena, filha. Basta teres um, já era tão bom.

Mãe, aceita eu e o Gonçalo não queremos filhos. Se um dia mudar alguma coisa, olharemos para o lar de crianças e talvez acolhamos alguém.

Mas ter um do teu sangue é diferente pensa nisso, Matilde, pelo menos.

Mãe, prometes que não falas mais nisso?

Um dia, ao entardecer, com a luz de Lisboa a entrar pela janela em ondas lentas, Matilde decidiu contar à mãe toda a verdade, como se naquele estranho sonho soubesse que o tempo ora enrola, ora endireita, e tudo acaba por mudar.

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