– Avó, posso ficar a viver contigo por um tempo? disse Mafalda, com a voz embargada pelo choro. Já não aguento mais viver com ele.
– Claro que podes, filha. Fica cá o tempo que precisares respondeu Dona Eulália com aquela doçura que só as avós sabem ter, abraçando a neta. Ele voltou a magoar-te?
– Voltou, sim suspirou Mafalda. Só que a mãe não me deixa sair de casa, porque não quer arranjar problemas com os pais do Rui. Mas já não tenho forças para aguentar isto…
Dona Eulália nunca foi muito com a cara da nora, a mãe da Mafalda. Sempre a achou fria e calculista, mais preocupada com as aparências e os próprios interesses do que com sentimentos, principalmente os dos outros. Foi ela que empurrou a Mafalda para o casamento com o Rui, só porque o pai dele tem um cargo de chefia na Câmara Municipal de Lisboa.
– O Rui bate-te? perguntou Eulália.
– Bate respondeu Mafalda, a chorar.
– E a tua mãe e o teu pai sabem? quis saber a avó.
– Sabem, sim respondeu Mafalda, com lágrimas nos olhos.
– Sabem e não te deixam sair de casa? espantou-se Eulália.
– É verdade Dizem que se eu me separar dele, fico mal falada na sociedade e que a culpa é minha, que devia era ser mais maleável. Mas como é que se pode ser mais maleável com uma pessoa que é má e agressiva? Não dá mais, avó.
– Então não vivas, filha. Fica cá, tu não precisas de os aturar acariciou-lhe o cabelo a avó. Fica aqui comigo e os teus pais eu trato deles.
– Como assim, a Mafalda saiu de casa?! explodiu Irene, a mãe de Mafalda, quando Eulália lhe ligou. Ela que volte já para o marido!
– Não grites, ouviste? cortou-lhe a avó, fria. A Mafalda não volta para lado nenhum.
– Sabes lá tu o dinheiro que gastámos no casamento? insistia a nora, indignada. Aquela família é das mais respeitadas de Lisboa, a Mafalda só nos está a arruinar a reputação!
– A tua presença é que nos faz má figura e mesmo assim ainda te aturamos respondeu-lhe Eulália, já farta. Olha, não vale a pena dizer-te mais nada.
Eulália desligou, enquanto Irene, cega de raiva, atirou o telemóvel à parede e insultou a sogra de tudo o que lhe veio à cabeça.
Logo a seguir, Eulália ligou ao filho:
– Tu sabias que aquele patife do Rui bate na Mafalda?! perguntou, a voz já dura.
– Epá, já ouvi qualquer coisa, mas não sei, se calhar a Mafalda está a exagerar
– Tu só podes estar doido! aumentou o tom. Tua filha é posta ao estalo pelo marido e tu ficas a fazer de conta que nada se passa?!
– Mas o que é que queres que eu faça? Ele é o marido dela
– Queria era que lhe fosses dar uma sova, pá! Um tipo que se atreve a bater na nossa rapariga, tem que saber que ela não está sozinha!
– Ó mãe, deixa-os lá, eles que se desenrasquem respondeu o filho, já irritado.
– Está tudo explicado. Vocês venderam a filha para terem uma vida descansada.
Dois dias depois, apareceu lá em casa a comitiva: o marido da Mafalda, os pais dela, todos juntos.
– Ela tem que voltar para o marido imediatamente! disparou Irene, assim que entrou porta adentro.
– Mafalda não há de fazer nada que não queira! respondeu Dona Eulália, sem se levantar do sofá. Não sei que pais são vocês, que tratam a vossa filha como se fosse uma estranha.
– A culpa é da sua má influência! bufou Irene. Não vou arriscar perder o respeito do Dr. Gregório só por causa dos caprichos dela!
– Antes de mais, o seu Gregório devia era ensinar o filho a não bater em mulheres apontou Eulália, enquanto olhava para Rui, que nem abriu a boca.
– Ele só lhe deu uma palmada, nem foi nada de especial. Toda a gente discute no casamento, são coisas normais apressou-se Irene.
– Ó Luís, tu também achas isto normal? perguntou Eulália ao próprio filho.
– Ó mãe, deixa-os, ela é que faz tudo um bicho de sete cabeças
Foi então que Dona Eulália não aguentou mais: deu uma chapada no filho, outra na nora e uma terceira em Rui, deixando os três parvos a olhar para ela.
– É assim que se faz: tudo com amor… Isto é só brincadeira, sentiram-se ofendidos? Ah, são sensíveis de mais? Olhem, vão para casa e mudem esse feitio.
Levou-os até à porta e, enquanto os empurrava, ainda dizia:
– Vão embora e levem esse parvalhão convosco. Quanto ao pai dele, digam-lhe para educar melhor o filho. Irene, se gostas tanto do doutor Gregório, casa-te tu com o Rui.
– Nunca mais me apanhas nesta casa! gritava Irene, já pelas escadas.
– Olha, ainda bem! respondeu Eulália. Como nora vales pouco e como mãe vales menos ainda.
Depois fechou a porta, esfregou as mãos e chamou a neta, que estava fechada no quarto de medo:
– Mafalda, minha rica, aprende a defenderes-te. Vais precisar muitas vezes. Viver para agradar os outros é meio caminho para a desgraça. E ninguém te vem agradecer por isso.
Depois, em casa dos pais da Mafalda, a discussão era outra.
– Vais ter que convencer a tua mãe maluca a não se meter na nossa vida! gritava Irene ao marido, aos berros. E o que é que as pessoas vão pensar? O casamento da Mafalda era o nosso passaporte para a alta sociedade! Se ela se separa, acabou-se tudo!
– E o que é que te falta, Irene? suspirou Luís, já de rastos.
– Falta-me estatuto! Falta-me dinheiro! Eu quero respeito, quero que as pessoas tenham inveja de mim! berrava ela.
Luís só queria sair dali. Ouvia os berros como se estivesse dentro de um túnel. Sempre foi homem de evitar confrontos: preferia dizer sim a levantar problemas.
No dia seguinte, Luís apareceu em casa da mãe:
– Nem penses pedir-me para trazer a Mafalda de volta, mãe!
– Nem me passa pela cabeça! respondeu Eulália, ríspida.
– Então posso eu ficar aqui uns dias? perguntou, derrotado.
– Ela já te rebentou a cabeça de vez, foi? desconfiou Eulália.
– Não aguento mais birras e discussões, mãe. Ela está completamente fora de si.
– E tu deixas, filho. Devias aprender a dizer não e a defender-te. Estás sempre a calar-te, virou-te burro de carga.
Luís anuiu. Mafalda chegou perto, sentou-se ao lado do pai e encostou-lhe a cabeça ao ombro. Sabia que a mãe sempre comandou o pai com gritos e chantagem emocional.
– Ainda bem que a Mafalda saiu a tempo daquele casamento rematou a avó, olhando ternamente para a neta. Cada um tem de ser responsável pelo que faz e tomar as suas decisões. E só dessas escolhas depende a vossa felicidade. Está bem, meus pintainhos?
Os dois assentiram. A avó abanou a cabeça:
– Aprende-se todos os dias
Nesse mesmo dia, o Luís foi buscar as suas roupas a casa e avisou Irene que a deixava. Ela reagiu como sempre: gritos, partir loiça, pontapés nas portas, atirou-lhe tudo o que apanhou à mão.
Rui ligava a Mafalda todos os dias a implorar que voltasse, depois passou a exigir, depois ameaçou. Mas ela resistia e sentia finalmente que podia sonhar com outra vida.
Uma semana depois, lá bateu à porta o Dr. Gregório, a fazer um teatro:
– Então isto agora é moda? Uma foge do marido, outro foge da mulher? Estão todos doidos?! Vão mas é para casa, suas cabeças de vento. E você, Dona Eulália, não incentive estas maluqueiras!
Antes que Mafalda ou Luís dissessem algo, Eulália, de braços nas ancas, respondeu-lhe sem cerimónias:
– E o senhor quem é que pensa que é para me vir dar lições de vida? Vá mas é ensinar o seu filho a portar-se como deve ser!
– Já falei com ele, não volta a fazer disparates respondeu Gregório, já um pouco mais calmo.
– Se tivesse educado antes, ele nem tinha feito nada!
– Para quê esta guerra toda? O rapaz gosta da Mafalda, vai mudar. Não vale a pena arruinar a reputação da família, que eu também posso espalhar que foi a sua filha a responsável pela separação
– Ó Gregório, não me venha ameaçar, olha que também sei umas histórias tuas da escola. Tipo aquela em que te mijavas nas calças nas aulas? Imagina as manchetes
Gregório ficou branco:
– A senhora não era capaz
Acontece que Dona Eulália tinha sido professora dele e toda a gente acreditaria nela. Mesmo que não fosse verdade.
– Olha, logo se vê tudo depende de ti.
Gregório engoliu em seco, mas percebeu o recado:
– Pronto, percebi a mensagem.
– Bonito! E agora quero uma estadia num bom spa para mim e para a Mafalda, precisamos de curar as feridas da alma. E vais dizer a toda a gente que ela foi cuidar da avó.
Gregório ficou a pensar no assunto, mas percebeu que com Eulália não valia a pena discutir. Sabia dar com o pau e com o pão.
– Está bem, depois mando-vos as reservas para as Termas de Monchique prometeu. E desculpe lá. E desculpe também pelo meu filho, é o que temos.
– É o que é. Mas agora vá à sua vida e ponha a mão na consciência. O que interessa é fazer o que está certo!
Gregório assentiu e saiu. Cumpriu com o prometido. No fundo, sempre respeitou Dona Eulália. Tinha pena era que o filho não tivesse sido homem para manter a felicidade.
O divórcio da Mafalda com o Rui só saiu passado um ano, e entretanto já ambos estavam com outras pessoas. O processo foi sereno, sem dramas. Mafalda voltou a casar, teve dois filhos e levou a avó a viver consigo, tal como Eulália tinha feito em tempos.
O Luís nunca se divorciou, mas continuou a viver em casa da mãe.
Laços de Família à Portuguesa – Quando a Avó de Dasha Decide Proteger a Neta das Tradições, do Statu…







