Obrigada por me tirar até o direito de errar? Na minha própria casa
Na minha casa, corrigiu D. Albertina com aquela voz sossegada, mas que corta mais que faca afiada de peixeiro. Isto é minha casa, Mariana. E na minha cozinha, não entra coisa que não se possa comer.
Caiu um silêncio ali na cozinha, daqueles de deixar ouvidos a zumbir.
Mari, tu própria há de reconhecer que aquilo era impossível pôr à mesa.
Os teus pais são pessoas de categoria, não podia permitir que mastigassem aquela sola de sapato, D. Albertina servia chá nas suas chávenas de porcelana tão delicadas que até a rainha de Inglaterra invejava.
Mariana, de pé ao lado da mesa, sentia o coração apertado, as mãos frias, quase a tremer. E o que restava da sua famosa sola peito de pato suculento com molho de frutos silvestres, em que penou quatro horas de volta do fogão jazia agora tristemente esquecida nas pratinhas dos pais.
Não era uma sola gaguejou Mariana, obrigando-se a encarar a sogra. Marinei aquilo com a receita da minha mãe. Fui de propósito comprar pato do produtor. Onde é que ele está, D. Albertina?
A sogra, de avental imaculado e olhar de eu é que sei, pousou o bule devagar e limpou as mãos no pano branco, com uma calma de meter inveja ao Dalai Lama.
Nenhum pingo de arrependimento no rosto dela, apenas aquele olhar de quem faz festinhas ao cãozinho destrambelhado.
Está no lixo, menina. O teu molho como dizer isto sem magoar cheirava tanto a vinagre que até fazia lacrimejar. Olha, fiz um confit normal. Com tomilho e muito amor, cozinhado devagar. Viste o teu pai a pedir repetição? É isto que é bom.
Aquilo que tu ali meteste dava para um snack numa tasca da autoestrada, e já é favor…
Não tinha o direito, murmurou Mariana. Aquilo era o meu jantar, o meu presente para os meus pais, no aniversário deles. Nem sequer perguntou!
E para quê perguntar? a sobrancelha da sogra subiu como quem avalia peixe no mercado de Matosinhos. Tinha o ar implacável de chef de restaurante estrelado. Quando uma casa está a arder não se pede licença para pegar no balde.
Salvei a reputação da família. O Afonso também ia ficar desiludido se os convidados se sentissem mal dispostos. Vá, vai buscar o bolo. Também dei um jeitinho o creme estava líquido demais, tive de engrossar e pôr raspa de limão.
Mariana olhou para as próprias mãos, que tremiam como varas verdes. O dia inteiro de volta da cozinha, enquanto D. Albertina fazia de conta que descansava no quarto mas sempre de ouvido à escuta.
Ela tinha pesado cada grama, peneirado o molho, embelezado os pratos. Queria mostrar que era dona da casa, não apenas a namorada do Afonso. Queria também, quem sabe, um dia ser lembrada como a nova chef da família Barreto.
Bastou meia hora de retoques na casa de banho para se apresentar à visita, e a cozinha foi dominada pelo pro, claro.
Mari, que fazes aí sozinha? Afonso apareceu à porta, com ar de quem já provou do tinto e está apaziguado. Mãe, o pato estava divinal! Mari, foste fantástica mesmo, não sabia que tinhas esse dom!
Mariana virou-se para ele, devagar.
Não fui eu, Afonso.
Como não? perplexo.
Literalmente. A tua mãe deitou a minha comida fora e fez outra. O que comeram, do início ao fim, foi tudo feito por ela.
Afonso ficou de boca aberta, os olhos fugiam da mulher para a mãe, que de repente começou a limpar pela milésima vez a bancada.
Vá lá, Mariana tentou ele abraçar-lhe os ombros, mas ela escapuliu-se. A mãe só quis ajudar. Viu ali um problema É a mania da perfeição, tu sabes. Mas ficou de comer e chorar por mais! Os teus pais adoraram. Afinal, qual é a diferença se o serão foi um sucesso?
Qual é a diferença? as lágrimas quase saltavam. A diferença é que, para vocês, eu aqui sou nada. Um móvel, decoração. Estive três dias a pensar este menu! Queria cozinhar eu para os meus pais! Mas a tua mãe, mais uma vez, fez de mim a desastrada que nem um molho consegue fazer
Ninguém te quis humilhar, disse a sogra, impecável a dobrar o pano. Não contámos nada a eles. Pensam que foste tu. Salvei-te a face, Mariana. Devias era agradecer, em vez desse teatro todo.
Agradecer? Mariana soltou uma gargalhada amarga. Agradecer por me tirarem até o direito de falhar? Na minha própria casa?
Na minha casa, corrigiu D. Albertina outra vez, de voz calma mas que parecia de mármore. É minha, Mariana. E na minha cozinha, só se come comida decente.
O silêncio voltou, pesado. Só se ouvia o telejornal ao longe e o pai de Mariana a gracejar com a mãe na sala.
Eles estavam contentes. Pensavam que a filha era a vencedora do MasterChef E ela ali, a sentir-se como quem leva um tupperware na testa sem aviso.
Mariana saiu da cozinha sem uma palavra, passou pela sala.
Mãe, pai, desculpem, sinto-me mal, a cabeça está uma lástima. O Afonso despede-se por mim, sim?
Marizinha, o que foi? a mãe levantou-se logo, preocupada. O pato estava mesmo dos deuses, filha. Se calhar foi do cansaço, trabalhaste tanto
Foi isso, Mariana fitava o vazio. Demasiado. Nunca mais repito
Fechou-se no quarto do casal e sentou-se na beira da cama. Uma frase martelava-lhe o cérebro: Isto não pode continuar.
Aquilo já vinha desde há seis meses, desde que decidiram ir provisoriamente viver para casa de D. Albertina, para poupar para a entrada do crédito à habitação.
Se Mariana lá ia às compras, D. Albertina vasculhava os sacos.
Onde arranjaste estes tomates? São de plástico. Só servem para telenovela, não para salada.
Se Mariana tentou fritar batatas a sogra suspirava como se visse alguém matar um porco com uma colher.
Acabou por evitar a cozinha quando ela lá estava.
Mas aquela noite era para ser triunfal. Saiu derrotada.
A porta rangeu suavemente. Afonso entrou.
Já foram embora. Tirando o teu espetáculo, tudo correu bem. A mãe exagerou, eu vou ter uma conversa com ela, mas
Não vale pena, atalhou ela, já a enfiar roupa na mochila.
O que fazes? Afonso parou, espantado.
Vou para casa dos meus pais. Agora.
Mariana, não comeces. Por causa do pato? Isto é só comida!
Não é a comida, Afonso! voltou-se, apertando o casaco. É a atitude. A tua mãe trata-me como um acessório que estraga sempre o ritmo. E tu deixas. A mãe quis ajudar, a mãe sabe. E eu, o quê? Sou tua esposa ou estagiária dela?
Ela não quer magoar-te, ela é assim. Está formatada pelo restaurante. Quer as coisas perfeitas.
Então que fique feliz no seu mundo perfeito. Eu quero poder errar a sopa, queimar a omelete numa casa minha, onde ninguém manda os meus cozinhados para o lixo enquanto estou no banho!
E agora vais para onde? Está noite cerrada. Amanhã logo se fala.
Se eu ficar até amanhã, aturo reclamações sobre o café mal feito. Não consigo mais, Afonso. Ou amanhã estamos noutra casa, nem que seja um T0, ou ou não sei.
Sabes que não há dinheiro para isso, Afonso começava a ficar nervoso. Estamos a juntar, falta só meio ano para o suficiente.
Vais gastar em renda agora? Aguenta-te mais um pouco.
Mariana olhou-o como se o visse pela primeira vez. No olhar dele, apenas números, contas, e zero espaço para sentimentos.
Meio ano? sorriu, amarga. Meio ano nisto, e já nem sombra sou de mim própria.
Atirou umas mudas de roupa e o necessaire para dentro da mala e, com a ferragem a queixar-se, saiu para o corredor.
D. Albertina esperava-a, braços cruzados e pose de muralha de Óbidos.
Agora é o drama do adeus? Terceiro ato da novela Genial incompreendida na cozinha?
Não, D. Albertina, Mariana calçou as sapatilhas. É o fim. Ganhou. Fique à vontade pode deitar fora até as minhas especiarias, que não têm o seu nível.
Mariana, chega! Afonso apareceu atrás dela. Mãe, diz-lhe alguma coisa!
E digo o quê? encolheu os ombros D. Albertina. Se por uma panela se destrói uma família, era porque havia pouca coisa a segurar.
No meu tempo sabíamos admitir erros e aprender com os mais velhos. Agora, são todos uns ilustres especialistas…
Mariana ignorou e saiu para a escada. O ar fresco da noite soube-lhe a paraíso.
Ia para o elevador e ouvia ainda sussurros Afonso e a mãe a discutir, ela sempre calma, com aquele tom de professora primária.
***
Passou uma semana em casa dos pais. Eles perceberam tudo, sem fazer perguntas. Só a mãe suspirava, metendo mais uma panqueca no prato dela nada de confit ou gourmet: panquequinhas caseiras, fossem elas benditas.
Afonso ligava todos os dias. Primeiro irritado, depois a suplicar, depois a jurar que ia falar a sério com a mãe. Ao quinto dia apareceu.
Mariana, volta, trazia olheiras, camisa amachucada. A mãe A mãe está mal.
Mariana congelou, chá só a meio.
O quê? Pressão outra vez?
Não. Está com uma virose horrível. Três dias de febre a bater nos 40ºC.
Agora dorme, mas Mariana, ela está apática. Não come, não sente o sabor de nada. Nada.
Como? Perdeu o paladar?
Tudo. Diz que é como estar a mastigar cartão. Não sente cheiros. E para ela isso tu sabes.
Ontem partiu um frasco das especiarias favoritas, porque não sentiu o cheiro. Ficou a chorar sentada no chão. Nunca a vi chorar, Mariana.
Sentiu o rancor a dissolver-se dentro dela, agora coberto de geada e pena. Lembrou-se de D. Albertina no seu ritual matinal, a moer café, a cheirar como se fosse incenso sagrado.
Perder isto, para quem vive do sabor, era como um pianista perder a audição.
Chamou o médico?
Sim. Falaram em complicação neurológica. Pode passar em dias semanas ou nunca. Trancou-se no quarto. Diz que se não sente o sabor a vida acabou.
Mariana olhou para a janela, já com neve miúda a cair na rua só que, em Lisboa, era antes aquela chuva tristíssima de inverno. Imaginou D. Albertina, antes poderosa, agora perdida na cozinha sem cheiro e sem cor. Aquilo assustou-a.
Mariana, não venhas por mim, suplicou Afonso. Mas ajuda-lhe. Ela até tem medo de cozinhar.
Ainda ontem pôs sal a mais na sopa, não percebeu. Serviu-me, provou e ficou sem chão
E eu como é que ajudo? Mariana sorriu, triste. Sou a trapalhona. Nunca me deixou sequer cortar uma cebola sozinha.
És a única esperança dela. Não te vai pedir, orgulho a mais. Mas vi-a olhar para o teu espacinho vazio no frigorífico.
No dia seguinte, Mariana voltou. Não era perdão era quase dever de consciência. Afinal, D. Albertina era família, uma cactácea, sim, mas família.
A casa tinha um cheiro estranho: nada. Nem bolos, nem estufados. Cheirava a pó e solidão.
Mariana foi à cozinha. D. Albertina estava sentada à mesa, dez anos mais velha. O cabelo, sempre arranjado, agora num carrapito improvisado. Em frente, uma chávena de chá. Fitava-a como se fosse ver se vinha aí o Tremor de Terra.
Boa tarde, D. Albertina
A sogra estremeceu, levantou os olhos.
Vieste gozar comigo, foi? Vá, frita lá a tua sola de sapato, que para mim é igual ao bife do lombo.
Mariana pousou a mala, aproximou-se, viu as mãos trémulas mãos de quem já desossou mais galinhas que uma padaria vende pão.
Não, vim cozinhar.
Para quê? Não sinto nada. O mundo ficou a preto e branco, Mariana. Como se apagassem som e cor.
Mastigo pão é algodão. Bebo café água quente. Para quê estragar comida?
Mariana respirou fundo e despiu o casaco.
Porque hoje vou ser a sua boca. E o seu nariz. Você manda. Eu provo e digo-lhe.
D. Albertina soltou uma risada amarga.
Tu? Tu não distingues tomilho de orégãos nem à vista.
Então ensina-me. Você é a profissional, não é? Ou já desistiu?
A sogra ficou em silêncio, olhos nas mãos, depois em Mariana. E, só por um segundo, voltou a velha faísca a da professora exigente.
Nem o jeito de pegar na faca tens, resmungou. Vais cortar-te logo.
Então pôr um penso rápido faz parte do treino, Mariana abriu o frigorífico. E aquela carne de vaca? Fazemos um estufado?
D. Albertina levantou-se devagar, encostou a mão à placa a frio.
Para estufado, é preciso selar bem. Até dourar, sem queimar, o que tu provavelmente irias fazer.
Você vê e dirige. Só sem insultos. Eu sou aprendiz, não saco de pancada.
D. Albertina acabou por se sentar junto da tábua. Observou Mariana a pegar na faca:
Muda o jeito de pegar, mandou. Polegar em cima, indicador de lado.
Não esmagues a carne; deixa o corte ir de raspão.
Mariana ajustou.
Assim?
Um bocadinho melhor. Corta cubos de três centímetros. Ou ficam crus ou se desfazem. Isto é o básico.
Começaram ali a lição mais improvável da culinária portuguesa. Mariana picava, selava, mexia. D. Albertina, ora cheirava o ar por hábito, ora fazia careta por já não sentir nada.
Agora vinho, comandou. Um pouco no tacho e deixa evaporar o álcool.
Mariana fez. O perfume do vinho subiu no ar, denso e quente como noite de São João.
E então, cheira a quê? perguntou D. Albertina, sussurrando.
Mariana fechou os olhos.
Cheira a fim de verão, aquelas primeiras chuvas. Um pouco ácido, com qualquer coisa doce escondida.
A sogra fechou os olhos também. Mudo, repetia as palavras como um velho poema.
São os taninos Muito bem. Põe uma pitada de açúcar para equilibrar.
E agora? Mariana provou com a colher. Sabe bem, mas falta um travo qualquer talvez picante?
Mostarda de Dijon. Uma unha, só. Dá aquela nota final.
Mariana misturou, provou outra vez. Sorriu, espantada.
Uau! Como sabe que é isto? Nem provou!
D. Albertina sorriu pela primeira vez em muito tempo, quase tímida.
Memória, menina. O sabor está aqui, na cabeça. Tenho livros e livros inteiros na memória.
Passaram a tarde nisto. Quando Afonso chegou, vinha aroma de carne por toda a casa.
Uau! Isto sim! Dava para abrir restaurante! Mãe, estás bem?
D. Albertina, sentada, tinha uma paz estranha no rosto.
Não, Afonso. Cozinhou a Mariana. Eu só fui mau feitio e rainha das dicas.
Afonso olhou, surpreendido. Mariana piscou o olho, limpando as mãos ao avental.
Senta-te. E vê lá se te atreves a dizer que está salgado. Aqui cada grama foi fiscalizada por ambas.
Quando ele ia para a segunda taça, D. Albertina disse, de repente, para o vazio:
Mariana Sabes porque deitei fora o teu pato, aquele dia?
Ela travou, prato na mão.
Porque foi?
Porque estava aceitável. Não era brilhante, mas não estava mal.
Então?
A sogra fixou-a com uns olhos de medo, humanos afinal.
Se tivesse ficado perfeito, eu passava a ser dispensável. O filho cresceu, tem a própria vida Eu sou cozinheira. Se não cozinho para ninguém, não existo. Viro só velha a ocupar espaço.
Quis mostrar que aqui, sem mim, não havia ordem. Que era eu a dona do domínio.
Mariana pousou o prato. Nunca tinha pensado assim sobre a sogra. Sempre a imaginou uma rocha, um general.
No fundo, era só uma mulher a lutar para não deixar de pertencer a alguma coisa.
Não vai ser dispensável nunca, D. Albertina disse Mariana, meigamente. Quem mais me ensina o segredo do refogado? Ainda mal sei segurar a faca, hoje percebi.
A sogra assoou o nariz, sentou-se, voltou ao seu ar de chefe.
Isso é verdade. Ainda pareces um tatu a pegar na faca. Amanhã aprendes a fazer leite-creme decente. Voltas a pôr Maizena nesse creme e és expulsa da minha cozinha!
Mariana riu.
Feito. Mas se fizer bem, quero receita daquele bolo de mel seu, combinado?
Vamos ver se te portas, resmungou a sogra. Mas, por um instante, a mão dela pousou sobre a de Mariana, como um elogio às escondidas.







