Те се подиграваха на евтиното ѝ палто, докато не разбраха истината

Сега, като се сещам за това, сякаш бе в други времена когато мутрите на модата и ценниците решаваха кой струва и кой не. Всичко се случи на благотворителен бал със строг пропускателен режим, който се проведе в тогавашния най-луксозен хотел Балкан в сърцето на София.

Кристалният салон грееше от полилеите и светлината, отразена в бижутата по врата на дамите. Даниела облечена в искряща златна рокля и нейният спътник Николай държаха чаши с фино изчакано червено вино, докато шушукаха зад гърба на останалите присъстващи. Смехът им изведнъж пресекна, когато на прага се появи млада жена Гергина. Носѝ тя едно просто, доста износено бежово палто и ниски обувки, далеч от актуалната мода.

С насмешка, Даниела прекоси залата и застана срещу Гергина, не криейки презрението си. Погледът ѝ се плъзна по старите обувки на Гергина, лицето ѝ се изкриви в гримаса. Николай, като се приведе към нея, прошепна нарочно високо:
**Да не би чистачките днес да са забравили къде е служебният вход?**

Даниела направи крачка напред и поклати глава със снизхождение:
**Мило момиче, на три преки отсам раздават безплатна супа. Не е нужно да разваляш визията на вечерта ми.**

Гергина само срещаше погледа ѝ, стоеше изпъната в тишината ѝ имаше достойнство, което не можеше да се купи, нито да се облече като скъпа дреха.

Тогава, с решителна походка, към тях приближи възрастен господин в безупречен тъмносин костюм известният господин Тодоров, председател на фонда. Не удостои с поглед Даниела и Николай, които вече се канеха да му отправят своите поздрави. Вместо това, той се спря пред Гергина и леко се поклони:
**Госпожо Христова, моля за извинение вашият частен самолет пристигна по-рано от предвиденото. Договорът за придобиване на холдинга ви очаква остана само вашият подпис.**

Всички в залата се смълчаха. Лицето на Даниела застина, устата ѝ необуздано се разтвори от учудване. Пръстите ѝ се разтърсиха, чашата с вино изпадна и се разби на парчета по мраморния под.

В края, Гергина спокойно пое писалката от асистента на Тодоров и, без дори да свали износеното си палто, подписа документа с уверена ръка.

Обърна се към Даниела и с тих, хладен глас каза:
**Знаеш ли, Даниела, вече това не е твоята вечер. Току-що купих тази сграда и фирмата на съпруга ти. А твоята естетика вече е минало за мен. Охрана, изпроводете тези хора.**

Останаха вцепенени Николай и Даниела, докато охраната вежливо, но твърдо им посочи пътя навън.

**Поуката?** Не оценявайте един човек по дрехите му. Зад старото палто може би се крие някой, който утре ще ръководи вашия свят.

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Те се подиграваха на евтиното ѝ палто, докато не разбраха истината
Lina era má. Muito má, coitada da Lina, era mesmo má, essa Lina. Toda a gente tentava mostrar à mulher o quanto ela era má. Má, e ainda por cima infeliz. Claro, não tem marido, o filho já é adulto, vive sozinho. Lina está sozinha, não faz falta a ninguém. Segunda-feira chega ao trabalho, todas gabam-se do fim de semana a limpar, a lavar, umas trabalharam no quintal, outras fizeram compotas. Lina cala-se, não tem o que contar, não tem homem, o filho já cresceu, fica calada. Hoje saiu mais cedo, todos sabem que, um par de vezes por mês, ela sai antes. Abanam a cabeça em desaprovação, convencidos de que Lina vai ter com os seus inúmeros amantes, porque toda a gente ali sabe: Lina tem muitos amantes, afinal, é tão má. Lina é mesmo má. As outras são todas boas mulheres casadas, ocupadas, mas Lina, essa é má. — Lina, diz a mãe, — porque é que tu és assim? — Assim como, mãe? — Tão desarrumada na vida, olha, podias ao menos arranjar um homem qualquer, filha. Ainda vais a tempo até de ter outro filho, agora todos têm filhos depois dos quarenta. — Mãe, para quê mais um homem? Para que quero outro filho de um homem qualquer? Já tenho o meu filho, o Léo chega-me bem… E esse homem, como tu dizes, para quê? O que faço com ele? Já tenho o Óscar. — Lina! — exclama a mãe, — Lina, tu não percebes, o Óscar não é teu homem! — Então não é? Claro que é, — ri-se Lina. — Convida-me para sair uma vez por semana, dá-me presentes, ajuda-me nas férias, não me chateia, não me manda para a quinta dos pais, não me obriga a lavar-lhe cuecas e meias, não exige jantar, não me enche de problemas, nem fica esparramado no sofá. Uma bênção. — Pois é uma bênção, mas tudo isso fica para a pobre da mulher dele. — Então, querias que isso tudo ficasse para mim? Não, mãe, eu já tenho quarenta e poucos, já fui casada duas vezes, lembra-te, DUAS. E fugi de tanta felicidade a correr descalça. O primeiro marido, pai do Léo, lembro-te, foi porque tu insististe: “é mais velho, é sério, ama-te, tem bom emprego…” Cinco anos estive presa, sem poder estudar, sem amigas, até do meu filho não podia cuidar: “és nova, vais fazer asneira”, só podia trabalhar para ele e para a mãe dele. Mas, ah, estava cheia de ouro. Uma vez por mês exibia-me como se fosse um troféu, para mostrar que tinha uma mulher direita. Ele até gostava das tais “bonecas”, não se coibia… Quando fugi e pedi divórcio, agradeço à minha avó querida que me ajudou, ele quis tudo de volta, até as minhas cuecas… Na segunda vez, casei por amor, estudava e trabalhava, lembras-te, mãe? De dia na faculdade, à noite trabalhava para não ser um peso em casa… — Lina! Como podes dizer isso? Alguma vez te atirei à cara o pão ou o prato de sopa, a ti ou ao teu filho? — Tu não, mãe… Mas não és só tu… Há quem sempre tenha medo que eu “salte para o pescoço” e fique aí dependente. — Mas de quem falas? — Do pai, claro. E do mano, o Nuno, sempre no sofá, a jogar no computador… Trabalhas em dois sítios, chegas a correr, ainda tens de passar no supermercado porque “os passarinhos têm fome”. Cozinhas, limpas… Por isso, casei outra vez por amor, porque viver sem era igual. Mudou alguma coisa? Nada. Trabalho a dobrar — passei a Lina-que-deve-a-todos. O homem no sofá, eu no trabalho, depois ao infantário buscar o meu filho. Nem pensar em pedir-lhe ajuda, “não é filho dele, e mesmo que fosse, homem não cuida”. De carro, nem falar, só ele precisa. “Quem vai à fábrica de eléctrico? As mulheres vivem assim, o que é que queres?” Jantar feito, mesa posta, roupa lavada, tudo direitinho, e ainda “satisfaz o marido, senão ele trai-te, tesouro”. Falta dinheiro? “É para o teu filho, não para mim.” “Se ao menos fosse meu, via-se.” “Não, procura outro otário que sustente a ti e ao pirralho.” Desculpa lá, enganaste-te na filha… “Não ajudas com o carro? Mas somos família, não somos?” “Olha essa, a diferença entre o que tu ganhas e o que eu ganho, sem fazer nada.” “Tiveste sorte…” “Vais embora?” “Vá, quem é que te vai querer, já com filho? Haha.” Pois foi assim, mãe, já estive com quem ganhava mais e com quem ganhava menos. Não mudou nada. Para eles tudo bem, só eu é que não era feliz, mãe. — Lina, toda a gente vive assim, filha. — Pode ser, mãe, mas eu não quero isso, não vou viver assim. Como foi o teu sábado? — Olha, o Nuno e a Sónia deixaram-me os filhos, fui passear, fiz panquecas, limpei, aspirei, lavei o chão, pus roupa a lavar, à noite deitei-os, dei jantar ao avô, passei a ferro e fui-me deitar quase à uma, e domingo de manhã já eles pediam panquecas outra vez, depois o Nuno e a Sónia voltaram, assei frango, fiz salada, pizza, jantámos, arrumei e fui-me deitar às onze estafada, o avô foi acordar-me para ir para a cama. — Mãe, não me lembro de tu teres ficado com o Léo assim… Nunca te deixei o miúdo e fui correr para descansar, pois não? — Tu sempre foste muito independente, estes agora… nem sei. — Queres saber como foi o meu fim de semana passado? Sexta à noite ligou o Léo a pedir para ficar com o Timóteo, que queria ir à Serra com a namorada. Claro que fiquei, porque não? Timóteo é o gato da Mariana, do Léo, e tu se estivesses menos ocupada com a família do Nuno, até sabias disso. Vieram trazer o gato, com pizza, e foram-se embora. Comi pizza e fui ver séries, porque não tenho de me levantar cedo ao sábado. De manhã dei comer ao Timóteo, fiz café, limpei o pó, pus roupa a lavar, liguei-te para irmos ao museu ou só conversar. O pai atendeu, estavas ocupada, com as mãos molhadas. Chamou-me de preguiçosa, disse que tu trabalhas sem parar, aturas os meus sobrinhos, e eu ando feita madame em museus. Até queria ficar ofendida, mas nem vale a pena. Fui ao museu, havia exposição do teu pintor favorito, lembrei-me porque gostavas tanto dele. Fui ao café, às compras, voltei a casa, o gato a dormir. Não me apetecia sair, deitei-me no sofá a ver séries. Domingo dormi com o Timóteo até tarde, tentei convidar-te para andar de cacilheiro, mas a Sónia atendeu e disse que estavas ocupada, a lavar a loiça ou a arrumar. À noite o Óscar ligou, convidou-me para jantar fora, fui, porque não? Sou mulher livre, não lhe pergunto pela mulher dele, nem ele me fala disso, não me enche a cabeça de problemas. Tive um ótimo serão e segunda fui trabalhar bem-disposta. Tentei conhecer homens solteiros, mãe, mas foi desilusão. Só aparecem miúdos à procura de mãe ou homens amuados com a vida, cheios de filhos e ex-mulheres, divorciados. Estás a olhar para mim assim porquê, mãe? O mundo mudou, sabes? Um deles disse que eu tinha de aceitar os filhos dele, claro, porque toda mulher tem amor de sobra pelos filhos dos outros. Ele vai sustentar os filhos e a ex-mulher — “ela é mãe dos meus filhos, merece”. E vivemos os dois do meu ordenado, porque o resto ele gasta na pesca, que gosta muito. Em troca, prometeu “dar-me bom peixe para comer”. Perguntei se ele ajudaria o meu filho, ficou ofendido: “O Léo tem o pai dele, que seja ele a ajudar” — Justo? Justíssimo, e por isso mandei-o à fava. O Léo tem mãe, sou eu. Claro que fiquei má, egoísta, calculista, sem vergonha. Queria arranjar um homem para criar o meu filho e ser feliz às custas dele… Por isso apareceu o Óscar. Sim, posso ser má aos olhos dos outros, mas não me envergonho da vida que levo. O que me custa é ver-te a ti, mãe, assim, por isso tento tirar-te de casa, como hoje, menti a ti e ao pai, disse que precisava de ajuda. Mãe, comigo está tudo bem, agora vamos cuidar de nós, fazer algo por ti, por mim, tua filha. — Estás maluca, Lina, e o teu pai? — O que tem o pai? Está doente? — Não, mas… o almoço… — Não acredito que não tenhas almoço feito. — Mas é preciso aquecer, e o Nuno… — Mãe! Olha que me ofendo… eu sei que sou má, deixa-me ser boa agora, vem descansar comigo, faz-me esse favor… No trabalho, segunda-feira, as mulheres contam como “descansaram” a cansar-se. Lina sorri de lado, todos dizem que a Lina é má, ela passa leve e feliz, sorrindo sozinha. Afinal, toda a gente adivinha o que lhe passa na cabeça — só pode ser coisa má.