Apesar de cá em casa já andarmos a apertar o cinto até à última fivela, o meu marido resolveu, num rasgo de génio, que queria começar a poupar para comprar um apartamento ao nosso filho. Ontem, mal caiu o salário, diz-me ele com aquele ar de quem está a anunciar a revolução: Vou pôr dinheiro de lado para a casa do miúdo. Ora, eu nem por isso fiquei satisfeita com este plano. Passo a explicar porquê.
Já lá vão mais de dez anos desde que o meu querido marido aterrou em Lisboa à procura de uma vida melhor. Andou a dar no duro nas obras não é trabalho para meninos. Antes de me conhecer, basicamente o ordenado dele era um bilhete só de ida para a conta da mãe. Ficava ele com os trocos para o café, e o resto era para a mãezinha. Os colegas sempre lhe disseram que devia era pensar em juntar para comprar um T2, mas ele lá ia, de coração na mão, meter tudo no envelope para casa. E a senhora mãe ainda tinha outros dois filhos, mas nenhum partilhava os tostões como o meu futuro cônjuge.
Depois de casarmos, fomos morar para o apartamento da minha mãe e da minha avó em Almada, que já não via tinta nova desde as grandes cheias do Tejo. Ao início, ele ainda era um doce comigo. Com a minha mãe e avó, era mais friorento mas pensei que era só até passar a fase do gelo. Mas não: passado um ano, em vez de melhorar, piorou. Começou a deixar-se ir pelo vinho, a ser bruto comigo e com a minha mãe, até culpava as paredes pelo estado em que estavam. O melhor teria sido bater com a porta, mas acabou por me convencer a ter um filho, naquela esperança tola de que as coisas iam melhorar com um berço cá em casa pronto, caí na cantiga e engravidei.
Pois claro, só piorou. Passámos a contar cêntimos. O meu subsídio de maternidade servia só para pagar as fraldas, mesmo juntando tudo num mealheiro comum. A minha mãe pagava a luz, a água, e ainda me comprava medicamentos caros (não tive moinhas, foi logo doença a sério). O resto gastava em comida. A avó ia guardando a pensão para o funeral, mas acabou por dar as economias todas para o nosso casamento.
O meu marido bem sonhou que os irmãos lhe iam enfiar uns trocos no envelope do casamento, mas de lá não veio nem uma nota. Tivemos festança à grande graças ao dinheiro da avó e ao salário dele. Por mim era só um bacalhau com todos e estava feito, mas ele queria tradição, bolo e até rancho.
Nestes sete anos de matrimónio, nunca deixou de ajudar a mãe com tudo e mais alguma coisa. Pagou obras lá em casa, electrodomésticos novos, tudo a sair do bolso do meu mais-que-tudo. E por várias vezes, mesmo quando nós passávamos canja à conta, descobri uns esconderijos com dinheiro pronto a voar para a mãezinha. Discutimos muito sobre isso, sempre a prometer que era a última vez.
Quando a mãe dele morreu, o homem, armado em generoso (e na minha opinião, pateta), renunciou à herança a favor do irmão mais novo, como se alguma vez esse rapaz lhe tivesse passado cartão. Ou seja, gastou tudo em remodelar a casa alheia e depois, zás, ficou de mãos a abanar. Nem ligou aos meus apelos para segurar o que lhe era de direito.
Depois de nascermos pais, o homem virou outro: deixou de querer saber de mim, rabugento com a comida, pão duro a comprar o que faz falta, implicava com a minha mãe só porque sim. O vinho tornou-se vizinho cá em casa. E eu, com o meu filho pequeno, doente e sem ter a certeza se algum dia iria recuperar, nem podia pensar em separar-me ainda por cima, se me mandam embora do trabalho depois da licença, estou feita ao bife.
Ele faz da minha dependência um palco para as suas queixas. Adora lembrar-me que sou uma mãe e avó penduradas no vencimento dele. Que está cansado de sustentar uma família inteira como se o salário não fosse já dividido entre toda a gente: ele, eu, a minha mãe e a avó.
Por vezes lá lhe falava do sonho de ter casa própria para o nosso filho também é o meu desejo, convenhamos. Mas, infelizmente, está sempre fora do nosso alcance, não sobra nem para os pastéis de nata. Ontem então, o meu excelentíssimo declarou que vai pôr de lado um terço do salário. Traduzindo: todos a pão e água, com dietas forçadas por tempo indeterminado nem pensar!
Claro que desconfio que este plano de poupança não tem nada que ver com o futuro do meu filho, mas sim com algum projeto de fuga do próprio marido. Sinto, no meio deste casamento às avessas, que está é a juntar para meter as malas ao ombro e deixar-me a chuchar no dedo.
Quando lhe disse isso, deu-me uma desculpa daquelas de novela: também ele tem medo que um dia eu o mande à fava e o ponha fora da nossa casa. Ora, confesso que já pensei nisso umas quantas vezes, mas nunca tive coragem. Se ao menos parasse de implicar com a minha mãe e avó, nem seria assunto.
O problema é que ele não parece nada interessado em mudar. A vida tem sido um teatro do absurdo, comigo e a família presas nesta história, e ainda não faço ideia como sair deste fado à portuguesa.







