O meu marido esteve um mês fora numa viagem de negócios. Estava quase a regressar, finalmente.
Pois calha que, enquanto ele estava ausente, a torneira da cozinha decidiu fazer das suas e avariar-se à grande. A Inês, minha vizinha, veio pedir-me uma ajudinha. Ora eu cá não percebo nada destas coisas, por isso disse-lhe logo para chamar um canalizador e até lhe passei o número de um que conhecia assim de ouvir falar.
Eles combinaram tudo para uma certa hora, o canalizador apareceu à hora marcada (milagre dos milagres!) e a Inês já tinha preparado os euros certinhos, como tinham acordado antes. Depois de terminar o serviço, ela lá lhe entregou o dinheiro.
Faltam 300 euros diz ele.
Como assim, tínhamos combinado outro valor! Até posso chamar uma vizinha como testemunha.
Estou-me nas tintas para as tuas testemunhas. Quero 550 euros, agora. Se não pagas, parto a torneira e fecho-te a água.
Mas não tenho tanto dinheiro, posso pagar o resto quando o meu marido voltar.
Quando volta ele?
Daqui a cinco dias…
Não dá, tem de ser já.
Olhe que não tenho mais dinheiro!
Então vamos ter de nos entender de outra forma. Tem de pagar a torneira arranjada!
E depois disto, o canalizador começa a remexer nos armários dela como se estivesse à vontade em casa própria.
Como se atreve, no meu apartamento! Olhe que eu chamo a polícia.
Sim, sim, chame à vontade, que eu digo que se recusou a pagar-me.
Quando ela tentou reagir, o canalizador começa a importuná-la e ela começa a gritar. Eu estava lá em casa. Assim que ouvi os gritos, corri logo para o apartamento do lado. Ele encostou a Inês à parede e não a deixava sair.
Afaste-se dela! gritei.
Ela está-me a dever dinheiro!
A Inês é uma rapariga séria, toma cá 250 euros, o que queres mais?
E não te esqueças: cada um responde pelos seus atos. E se o marido da Inês, que por acaso é boxeur, souber disto, estás feito.
Mal ouviu isto, o canalizador saiu disparado. Fiquei cheio de remorsos e pedi desculpa à Inês, afinal fui eu que lhe dei o contacto daquele artista. Combinámos não contar nada ao marido, para ele não ficar a preocupar-se. E agora andamos à procura de um canalizador de gente decente é que a minha torneira também já anda a pingarNos dias seguintes, ficámos as duas mais cúmplices do que nunca. Rimos (nervosamente) da ideia de um boxeur a dar caça a canalizadores aldrabões e fizemos um pacto silencioso: dali em diante, só chamávamos pessoal recomendado pelas mães, nunca das listas amarelas. Quando o marido dela regressou, a única coisa que ouvi comentar sobre a torneira foi:
Hã, isto ficou mesmo bem arranjado.
E eu e a Inês trocámos um olhar cúmplice, guardando o nosso segredo. Às vezes a vida apresenta canalizadores duvidosos, mas também nos traz amizades à prova de água dessas que, aconteça o que acontecer, nunca deixam escapar uma gota do que realmente importa.






