Enquanto as mães enchem os fóruns com perguntas sobre o que levar no estojo de primeiros socorros e se as companhias aéreas deixam o carrinho entrar na cabine, outros turistas preparam-se para o voo, pouco à vontade com tanto alvoroço ao redor. Confesso que, de há uns tempos para cá, tudo se tornou mais simples mas também mais estranho. Se antes tentavam envergonhar quem tinha pouca paciência para crianças, hoje até já se pede que as companhias áreas criem zonas separadas para famílias e para quem queira descansar. Quando foi que começámos a ser assim?
Desejo-vos um bom voo!
Quando foi que ficou “na moda” não termos de parar a vida por termos filhos? Continuar a trabalhar, a sair com amigos, a ir a eventos e, claro, viajar quando nos apetece, seja qual for a idade dos miúdos. As nossas mães não viveram nada disto e, sinceramente, duvido que tal lhes passasse sequer pela cabeça. Custa-me imaginar uma mãe portuguesa dos anos 60 a levar um bebé para jantar fora quanto mais para um hotel. Naquela altura, isto seria visto como uma loucura. Quando muito, quem o fazia era olhada com pena ou desconforto.
Apesar de muitos fugirem desta verdade, viajar longe com crianças é estafante, tanto para elas como para nós. Dá trabalho garantir conforto para todos e essa é a parte a que muitos pais não querem dar atenção. Vai-se de férias e, pronto, acham que o descanso começa logo, deixando os miúdos entregues a si próprios. Depois, claro, acabam à mercê dos olhares dos outros.
Toda a gente gosta de voar em paz. Ninguém está disposto a aturar duas horas de ruído e rebuliço depois de pagar 300 euros por um bilhete. Parece que até a mínima distância entre bancos é motivo de queixa, quanto mais o constante saltar de um miúdo de cinco anos, a testar o quanto pode abanar o assento do vizinho. Para ser sincera, não me lembro de ver alguém sorrir nessas alturas, muito menos fazer o papel de palhaço para acalmar as crianças.
O jardim infantil a desvanecer-se
Lembro-me de uma vez em que, cheia de boas intenções, tentei ser simpática. Uma senhora com um bebé devia ter menos de um ano sentou-se ao meu lado e, quase instintivamente, prendi a respiração. Mas não foi suficiente: pouco depois, percebi que a família era ainda maior. Crianças à frente, atrás, a cruzarem-se para trocar biberões e chuchas por cima de mim, cada qual ocupando todo o bocadinho de espaço livre. Senti que só faltava adotarem-me também. Nem sequer me pediam por favor para segurar coisas e, por pouco, não me queimei quando me salpicaram com água a ferver de um termo. Que maravilha! Não havia para onde fugir se pudesse, saltava pela janela.
Noutra ocasião, numa viagem de comboio até ao Porto, assisti em silêncio enquanto uma mãe entretinha a filha de quatro anos durante as 26 horas (vá, não tantas, mas assim parecia!) de viagem. A senhora gritava: Mariana, vamos ali, Mariana, olha a janela, Mariana, vamos desenhar, escolhe as cores!, e eis 40 minutos de rabiscos barulhentos, uma paleta de lápis interminável e debates sobre cães e gatos imaginados pelo caminho. Entre silêncio ou caos, não sei o que escolheria.
E como não nos sentimos tentados a gritar que se fiquem por casa até os filhos terem idade para entender regras básicas de convivência? Claro, se a criança conseguisse desenhar caladinha durante três horas, eu nem me queixava. Mas será que existe alguma assim?
E ainda nem falei dos bebés que choram na descolagem, na aterragem e nas mil fases entre as duas. Se antes havia um em cada avião e já era sorte, agora são três ou cinco, a juntar às irmãs e irmãos que riem ou correm pelo corredor como se estivessem em casa. Saímos do avião à mesma velocidade com que ele aterrou.
Atenção, não sou apologista do não ter filhos. Aliás, também já tive de viajar com criança pequena e, sinceramente, foi por necessidade e não por prazer. Não tenho nervos para tudo isso em férias. Esperei que crescesse, que já soubesse contar pelos dedos e a quem já pudesse explicar, firmemente: Senta-te ali e não mexas em nada!. Só assim foi suportável, sem papel e lápis pelo chão. Mas hoje as famílias pensam diferente e acham que sair de casa implica preparar uma mala cheia de ideias para entreter a criança, correr, pular tudo, menos estar quieta, porque faz bem ao corpo em crescimento. E o resto que aguente…







