Porque o Destino Lhe Reservou Tamanha Vida? A História de Lúcia, Decidida a Não Seguir os Passos da …

Por que terá o destino reservado tamanha sorte a ela?

Com o passar dos anos, fui percebendo cada vez mais que não queria nem podia viver como a minha mãe, Benedita. Ela ainda era uma mulher relativamente jovem, mas parecia velha, marcada por anos de sofrimento ao lado do meu pai, o Joaquim, homem sempre bêbado.

Chamava-me Leonor, tinha dezoito anos e, depois de terminar o secundário em Viseu, não entrei para a faculdade. Temia deixar minha mãe sozinha. Já teria fugido de casa há muito, mas sentia pena dela, pois o meu pai, no auge da raiva, podia fazer qualquer disparate. Se eu partisse, quem lhe daria apoio, quem lhe colava uma compressa fria nos hematomas, quem lhe levaria água?

Certa noite, Joaquim entrou novamente em casa de trombas, cambaleando, e afundou-se na cadeira da velha cozinha. Benedita, em silêncio, pousou-lhe à frente um prato de caldo verde, mas logo a seguir o prato voou ao chão, por pouco não lhe acertando.

Já estou farto destas tuas porcarias de sopas! gritou, olhos esbugalhados.

Apressei-me a ajudar a minha mãe a apanhar os cacos, enquanto o meu pai ergueu-se a custo e, ao passar, ainda empurrou Benedita com o joelho. A mim lançou:

Amanhã logo de madrugada vamos pescar. Vais ajudar-me a trazer peixe para esta lamacenta fazer alguma caldeirada.

Pensei que ele esqueceria, mas acordei sobressaltada ainda antes do amanhecer, ao sentir o toque bruto do pai.

Vamos lá, anda, que o peixe hoje ferve cedo.

Vesti-me à pressa, e de repente surgiu a minha mãe à porta, com um balde de leite acabado de tirar da vaca.

Estás a ver o céu, Joaquim? Vem aí tempestade, onde já se viu ir ao rio nestas condições?!

Benedita pousou o balde ao chão, bloqueando-me a saída.

Nem penses, vais afogar a miúda.

Mas o meu pai, sem meias palavras, empurrou-a com força, derrubando o leite, e agarrou-me pelo braço com tal violência que saí tropeçando pela porta fora. Senti o vento a levantar-se, enquanto carregávamos o barco em direção ao Mondego. O vento já soprava em rajadas, o céu escurecia, e as ondas cresciam. Fiquei assustada, mas Joaquim, imperturbável, remava para o meio do rio.

Já o outro lado ficava perto, a tempestade desabou, e a chuva miudinha transformou-se em bátega. Apoquei-me na borda do barco, de tanto pânico.

O meu velho sempre dizia que na tempestade o peixe pica mais! gritava ele.

Foi então que se levantou dentro do barco para lançar a linha, mas o vento remexeu e, com uma onda, ele desequilibrou-se e caiu ao Mondego. Vi-o a debater-se, tentando respirar entre as vagas. Quis ajudá-lo, tentei estender um remo, mas acabei por cair também, virando o barco. E tudo se fez nevoeiro até levar uma pancada surgida do nada.

Despertei numa cama de uma casinha húmida, o cheiro da lareira completava o quadro. Entrou um homem barba rija, rosto fechado. Ofegava, nem me mexia.

Acordaste? Já era tempo disse, e pôs-se a acender o lume. Voltei a adormecer, sonhando com uma mulher jovem a minha mãe.

Da vez seguinte, ele já estava sentado ao meu lado, a dar-me de beber uma infusão amarga de ervas.

Bebe, que te faz bem, tens de recuperar.

O tempo foi passando, e quando me senti melhor, levantei-me com pernas bambas. Olhei pelo postigo, era outono profundo. Trazia uma camisa de dormir enorme, e ao passar pelo espelho vi o cabelo entrançado e despenteado. Estava numa velha casa de madeira, mas, rendida à fome, fui ter à cozinha.

Viva, já te decidiste a levantar? Vá, senta-te aqui, come pão. Ele mexia um tacho e a casa cheirava a sopa acabada de fazer.

Sentei-me, desconfiada, sem perceber onde estava. Serviu-me um prato de caldo, sentou-se e começou a comer.

Como vim cá parar?

Primeiro come, depois conversamos…

Comi, para lhe não fazer frente.

Não te lembras mesmo de nada? perguntou, fitando-me.

Não… tudo em branco.

Bonito serviço… Viver com uma mulher e ela sem se lembrar de coisa nenhuma. Talvez seja da pancada na cabeça, não te lembres de nada. Quase morreste afogada, eu salvei-te.

Fiquei sem resposta, sem memórias para dar.

E o teu nome, não te lembras? Abanei a cabeça. Ele suspirou.

Assim está a vida… És a minha mulher, Leonor. Leonor, sim senhora.

Não pode ser exclamei, completamente em choque, sem lembrar nada do que dizia.

Pode sim, minha rica. Anda daí, que eu ajudo-te a lembrar! Agarrou-me o braço com força, empurrando-me para o quarto. Dois meses deitado e eu cá a cuidar de ti.

Empurrou-me para o colchão, bati com força, sentia-me uma boneca sem vida. Escorria-me uma lágrima silenciosa enquanto, lá fora, o barulho da motosserra cortava a tranquilidade do bosque. Passado pouco, aproveitei uma distracção do barbudo, vesti um casaco enorme, tentei sair sorrateira e corri para o pinhal. Lá estava o Mondego e o barco com motor dele. Mas os passos atrás de mim eram rápidos, ele apanhou-me e atirou-me ao chão.

Agarrou-me pela gola:

O que é isso, pensavas fugir? Deixa-te de fitas, fiquei aborrecido por teres perdido a memória, mas já está, agora és minha mulher. Eu chamo-me Manuel, ora toma nota!

Como que hipnotizada, regressei para casa. Já não lutava, só planeava fugir quando fosse possível.

Meu Deus, por que destino me deste esta sina? pensava, vezes sem conta.

Manuel pôs-me a trabalhar como criada: limpar, cozinhar, tratar das lides da casa e do curral, e quando a noite vinha, sorria-me com aquele sorriso nojento, puxando-me para a cama à força. Se resistia, batia-me. Aprendi a não me opor.

O tempo passava. Quando Manuel ia ao rio ou ao mercado da cidade vender o peixe e a carne, eu lia livros velhos ao pó, pois nem televisão havia. Só então respirava melhor. Mas bastava ouvi-lo chegar, o medo voltava logo.

Um dia, com o pretexto de apanhar lenha, fui até ao rio e vi o barco preso com um cadeado. Sabia que a chave estava na prateleira da sala. Certa tarde, enquanto Manuel dormia depois do almoço, peguei nela, vesti-me com antecipação e corri. Ao embarcar, ouvi um tiro a zunir-me por cima da cabeça. Olhei; estava lá, com a espingarda apontada.

Volta já, ou disparo firme! E disparou de novo. Obedeci.

Ajudou-me a sair, deu-me um murro seco, apaguei. Voltei a mim em casa, na cama.

És burra ou fazes de conta? Para a próxima ficas fechada no curral!

Passou-se uma semana. Senti-me atordoada, cada dia mais fraca, até que comecei a enjoar e a fugir para o quintal. Notou logo.

Estás grávida, não?

Logo confirmou-se. Depois disso, tratou-me um pouco melhor, deixou de levantar a mão, mas mantinha-se ameaçador. Um dia, Manuel foi à cidade vender peixe, como sempre fazia, atravessando a margem no barco antes de apanhar o comboio. Enquanto ele estava fora, caminhei até ao Mondego. O frio descia do norte, era novembro. Ouvi então aproximar-se um motor de barco. Mas não era Manuel. Um homem robusto, com canas de pesca, desceu e ficou boquiaberto ao ver-me.

Leonorzinha, és mesmo tu!

Engana-se, eu sou Leonor gaguejei, incapaz de explicar.

Não digas disparates! Conheço-te desde pequenina, até te peguei ao colo! A tua mãe, a D. Benedita, já enterrou o Joaquim e desesperou por ti! Achavam que tinhas morrido no rio! Sou o tio Rui, o vosso vizinho. Não te lembras de mim? Como vieste cá parar, miúda?!

Vivo aqui com o meu… com o Manuel murmurei, confusa.

Pensei que isto andava ao abandono, nunca vi luz cá dentro… De repente, agarrei-lhe o braço, aflita.

Tio Rui, leve-me para a outra margem, por favor! Eu conto tudo, preciso de ajuda… Tenho medo do Manuel, se me apanha, é capaz de tudo.

Rápido, anda daí! Entrámos na canoa, mas, mal pusemos pé em terra, ecoaram tiros atrás de nós. Corremos e escondemo-nos atrás de uns arbustos.

O tio Rui levou-me a casa dele. Ao entrar, reconheci a mulher que via nos meus sonhos era a minha mãe.

Olá, mãe… sussurrei.

Filha! gritou Benedita, abraçando-me. Rui, onde a encontraste?

Nunca vi tamanha felicidade. O tio explicou onde me achara, mas eu, sem memórias, ficava calada. Aos poucos, porém, as recordações foram regressando: o pai, a mãe, o acidente no rio, o Manuel a salvar-me… mas depois, todos os horrores vieram à tona. Contava tudo à minha mãe, dominada pelo pânico.

Mãe, se ele me encontra, é capaz de tudo! Ele não é um homem… é um bicho.

Já a vizinha, Dona Filomena, tinha vindo acorrer, apoiou-nos logo:

Benedita, a tua filha tem razão. Abram asas, partam daqui já. Podem ir para a casa da minha irmã, ali perto de Seia. Aproveitem enquanto ainda não voltou.

Em poucas horas, a minha mãe e eu metemo-nos no carro velho do tio Rui. Olhámos uma última vez para a casinha e partimos. Uns dias depois, Manuel encontrou a casa vazia, bateu à porta.

Quem procura? inquiriu Filomena.

Uma amiga, não sabe para onde se mudou?

Não faço ideia respondeu, fria, até o ver afastar-se desconfiado.

Mais tarde, o tio Rui vendeu a casa da minha mãe, entregou-lhe os euros, ajudou-a a comprar uma casinha nova perto da serra. Ele e a mulher ajudaram-nos a pintar, trataram do jardim, ficámos finalmente em paz.

O tempo passou, recuperei as memórias e deixei para trás os pesadelos com o Manuel, exceto quando olhava para o meu filho, Diogo, a única lembrança viva daquele passado. Mas amava-o mais do que tudo, tal como a minha mãe. Segui a vida adiante e conheci António, um vizinho bondoso que me devolveu a esperança nos homens. Ele já fazia planos para pedir a minha mão.

Hoje aprendi que não há tristeza tão funda que o tempo e o amor não curem, nem rio tão fundo que nos roube para sempre à vida. O destino pode ser cruel, mas a coragem e o amor são maiores.

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Porque o Destino Lhe Reservou Tamanha Vida? A História de Lúcia, Decidida a Não Seguir os Passos da …
Инвестирах цялата си душа в нейната мечта, а накрая се оказах нежелан гост на празника на живота…