Traição sob a máscara da amizade
O inverno em Lisboa parecia querer exibir todo o seu esplendor. Choveu tanto e o vento era tão cortante que os becos e praças do Bairro Alto ganharam tons melancólicos e mágicos, como se fossem tirados de um conto antigo. As gotas grossas, impulsionadas pelo vento, riscavam as fachadas dos prédios amarelos e azuis, serpenteando pelo calçamento de pedra, enquanto o ar trazia aquele frio húmido e transparente, inconfundível da cidade à beira-Tejo.
Dentro do T2 acolhedor de Beatriz e Tomás, a atmosfera era outra envolvente, calorosa e serena. Lá fora, a tempestade desenhava as suas telas no vidro da janela, mas ali, com as portadas fechadas e a lareira crepitante, só existia tranquilidade. Um abajur antigo, de base de cerâmica, lançava uma luz âmbar e confortável sobre o sofá onde o casal se aninhava, protegidos por uma manta de lã que a avó de Beatriz tricotara nos tempos livres.
Deitados lado a lado, saboreavam um serão típico: chá de limão bem quente, bolachas de manteiga e uma comédia portuguesa qualquer a passar na RTP Memória daqueles filmes leves que só existem para arrancar sorrisos e deixar o tempo correr devagar. Beatriz acompanhava a história do ecrã com olhos pensativos, sorrindo subtilezas para si mesma. Tomás, deitado com a cabeça recostada e sentindo o ombro dela, alternava o olhar entre o televisor e o espetáculo de chuva lá fora, onde as luzes dos elétricos já se refletiam nas poças de água.
Toda aquela paz e harmonia foi quebrada com o toque melodioso do telemóvel de Tomás. Ele não respondeu logo. Parecia não querer abandonar aquele instante de puro conforto, mas o toque insistiu com uma impaciência quase infantil.
Com um suspiro resignado, Tomás puxou o telemóvel do bolso do casaco, consultou o ecrã e logo o deixou escapar outro suspiro.
Outra vez o Miguel comentou, olhando para Beatriz. Já vai na terceira chamada esta noite.
Ela não desviou os olhos do ecrã.
Se calhar quer mesmo que vás ter com ele à casa nova. O tom dela era calmo como a própria casa. Comprou aquela moradia em Cascais, não é? Quer inaugurá-la a todo o custo. E não sabe ouvir um não.
Tomás deslizou o dedo pelo ecrã, aceitando a chamada.
Miguel, então, como é? esforçou-se por soar animado.
Ó Tomás! Então e vocês não vêm? O entusiasmo do outro desbordava pelo telefone. Já está tudo pronto: braseira acesa, a mesa cheia; só faltam vocês! Anda daí, traz a Beatriz. Vai ser giro!
Tomás hesitou. Atirou um olhar rápido a Beatriz que, só com um leve abanar de cabeça, fez-lhe perceber o que pensava: nada de festas barulhentas, músicas altas e conversas intermináveis para aquelas noites de inverno. Ambicionavam aquele sossego tão conquistado, esse ninho só deles.
Ficou ainda mais uns segundos a pensar. De súbito, teve uma ideia.
Olha, Miguel, é complicado… A Beatriz foi dormir a casa da mãe uns dias. Não me está a apetecer ir sozinho, sabes como é e depois ainda dizem alguma coisa que não devem prefiro evitar chatices. Variamos na próxima, pode ser?
Do outro lado houve um silêncio breve. E depois uma nota de surpresa.
Foi? E quando volta?
Amanhã à noite. Foi assim mesmo inesperado E nós com planos: cinema, caminhada pelo parque, tentar patinar em Belém, mas não deu. Ficarmos para outro fim-de-semana, está bem?
Miguel não respondeu logo. O seu tom, quando finalmente falou, tinha uma satisfação estranha.
Está certo… Mas avisa quando ela voltar. Tenho saudades vossas!
Claro, combinado despachou Tomás. Combinamos logo que puder.
Despediu-se, largou o telemóvel em cima da mesa e deixou escapar um riso aliviado.
Ufa, consegui safar-me! murmurou para Beatriz. Não percebo esta insistência. Quer que eu vá lá para quê? Aturar os amigos todos já com um copo a mais? O Miguel nunca sabe estar sem confusão Enfim. Prefiro mil vezes estar aqui contigo.
Abraçou-a, sentindo o peso das preocupações a dissipar-se. O calor da casa, o silêncio entrecortado pelo som da chuva, e o filme que continuava a rolar devolviam-lhe o que mais estimava: a quietude partilhada.
Beatriz aninhou-se ao peito dele, sentindo-lhe o ritmo calmo da respiração, o aconchego da sua presença. O ambiente era de conforto: o abajur, o preto-e-branco do filme, os ponteiros antigos do relógio na parede a marcarem o tempo devagar. Aquela sensação de abrigo e bem-estar que faltava lá fora estava ali, só deles.
Eu também murmurou ela, erguendo o olhar para os olhos ternos dele. Fiquemos só a ver o filme e depois cama. Não precisamos de mais nada.
Tomás sorriu, apertando-a mais. Imaginava já como dali a pouco apagariam as luzes, aconchegados no edredão, adormeceriam ao som do vento nos postigos. Mas, quase por ironia, o telemóvel tocou de novo. O mesmo nome.
Tomás franziu o sobrolho, pegou a contragosto no aparelho.
Miguel, já te expliquei tentou não se mostrar irritado, mas a tensão ouviu-se.
Tomás a voz de Miguel estava diferente, tensa e estranha. Estou agora no Cristal, aqui no Cais vi com os rapazes beber um copo antes de ir para casa. E está aqui a Beatriz. Com um gajo qualquer. A beber, a rir, de braço dado. Tive de ligar Ela disse-te que foi para casa da mãe, certo? Desculpa, mas tiveste de saber!
Tomás ficou imóvel. Olhou para Beatriz, depois para o ecrã, ainda sem acreditar. Estariam a gozar com ele?
O quê? gaguejou, a dúvida a ouvir-se Tens a certeza? Não te enganaste? Eu juro que sei com quem está a minha mulher!
Absoluta. Ela está para lá de alegre, riso escancarado, nem sequer se preocupou comigo. Se quiseres, passo-te a chamada.
Tomás fechou os olhos, tentando controlar o que sentia incredulidade, raiva, medo. O que era aquilo? Seria só um equívoco? Ou havia algo mais sinistro?
Passa respondeu, ativando o altifalante, esperando ouvir sabe-se lá o quê.
Ouviu-se ao longe música do clube, vozes indistintas, gargalhadas. E depois, emergindo da confusão, um timbre feminino terrivelmente parecido ao de Beatriz.
Sim? Quem fala? disse com ligeira hesitação, tropeçando nas palavras de quem já bebeu.
Tomás engoliu em seco. Beatriz olhava-o de olhos esbugalhados, sem perceber nada.
Beatriz? Sou eu, o Tomás! O que se passa?
Do outro lado ouviu-se um riso solto e depois o mesmo timbre, agora mais atrevido, quase desafiador:
Ó Tomás, deixa-me em paz! Quero divertir-me, perceberam? Farto-me da tua vidinha aborrecida! Vou fazer o que me apetecer!
Beatriz pôs-se de pé de rompante, o rosto pálido de incredulidade. Levou uma mão ao peito, tentando controlar o coração, e sussurrou quase inaudível:
Mas isto é absurdo! Como pode alguém fazer-se passar por mim? E como sabe tanto? O que se passa aqui, Tomás?
Onde estás?
Que interessa? a voz soava agora insolente. Não tenho de te dar satisfações. Sou tua mulher mas faço o que quero!
Mais gargalhadas e brindes em fundo. Depois, Miguel voltou à chamada:
Ouviste, Tomás? Viste como tinha razão?
Tomás interrompeu, sentindo tudo confuso dentro de si raiva, choque, perplexidade, quase vontade de desaparecer.
Chega, Miguel. Amanhã falamos. Agora não ligues mais.
Desligou e largou o telemóvel sem pensar. Ficou a olhar o teto, paralisado. Se Beatriz não estivesse mesmo ali, ao seu lado teria acreditado naquela encenação?
Ela sentou-se devagar, olhando-o de frente. O timbre era assustadoramente parecido! Mas o mais estranho era outra coisa: como podiam saber tanto sobre eles?
Que disparate sussurrou, a voz sumida. Quem será? E que raio de propósito terá?
Tomás passou os dedos pelos cabelos, já sem se preocupar com a aparência.
Não faço ideia Mas a semelhança é incrível. A voz, as pausas, até o riso. Não foi acaso nenhum.
E o Miguel, cheio de certezas! Se eu não estivesse aqui, tu ias acreditar, não ias?
Tomás olhou-a com doçura, puxando-a levemente para si.
Eu confiava em ti. Mas, se fosse outro dia talvez duvidasse. Alguma coisa está muito errada. Vou descobrir. Se for preciso, peço ao gerente do Cristal que me mostre as câmaras. Vamos ver quem era aquela mulher.
Beatriz aninhou-se nos seus braços, sentindo, finalmente, o medo desvanecer-se e dar lugar ao calor da confiança partilhada.
Eu só quero saber quem foi. E porquê? murmurou, encarando-o com determinação.
Tomás não hesitou. Havia nos seus olhos a convicção de quem não volta atrás. Apertou-lhe a mão, certo de que, juntos, podiam enfrentar tudo.
**********
No dia seguinte, perto do almoço, Beatriz sentava-se à mesa da cozinha, mexendo o chá e revendo uns emails do escritório. O toque do telemóvel ecoou no silêncio o nome de Miguel aparece no visor. Inspirou fundo antes de atender. Precisava de respostas.
Olá começou Miguel, o tom cauteloso. Falaste com o Tomás depois de ontem?
Beatriz apertou o telemóvel. Decidiu aproveitar para resolver tudo de uma vez. Falou devagar, fingindo tristeza.
Sim. Discutimos muito. Ele não ouve nada do que digo; acha que lhe escondi qualquer coisa. Não confia em mim.
Embateu-se um silêncio. Depois, inesperadamente, ouviu-se no timbre dele um misto de satisfação e pena.
É, sempre disse que ele nunca soube dar valor ao que tens. Nunca te compreendeu
Por dentro, Beatriz fervia. Mas conteve-se.
O que queres dizer com isso, Miguel?
Ele baixou ainda mais a voz:
Tu mereces mais, Beatriz. Sempre senti por ti Eu amo-te, a sério. Se algum dia quiseres sair de casa do Tomás, eu trato de ti. Estou aqui. Sempre.
Ela ficou muda, digerindo cada palavra. Quanto tempo teria ele cultivado isto? Teria sido tudo uma encenação sua, a começar pela noite passada?
Respirou fundo. Era hora de o confrontar.
Isso não faz sentido, Miguel. Eu amo o Tomás e vamos resolver isto juntos. Não precisas de te meter.
Houve um silêncio desconfortável.
Desculpa Eu só queria que soubesses que tens alguém a quem recorrer. O Tomás é um ingrato, não te merece. Ele só está à procura de um pretexto para te largar! Quero que estejas segura, só isso!
Beatriz apertou o telefone até as falanges ficarem brancas. Mas o seu tom foi cortante e frio.
Escuta, Miguel e aí não tremia sequer para começar, ontem dormi em casa. Para continuar, tu organizaste isto tudo. Só não entendia para quê. Agora vejo tudo claro.
Silêncio. Ouvia-o respirar, tentando encontrar uma saída.
Que queres dizer? gaguejou finalmente. Depois recompôs-se: Como assim?
Ouve bem: arranjaste uma mulher de voz parecida com a minha. Preparaste um teatro: telefonar-me, fingir que eu estava no Cristal, com outro homem, para nos deixares de costas voltadas. Diz-me que estou errada.
Ouviu-se apenas a respiração dele.
Então Miguel explodiu, quase desesperado:
Sim, foi tudo encenado! Porque gosto de ti, Beatriz! Porque acho que o Tomás te tira o brilho. Nunca vai saber cuidar de ti como eu. Só quero que sejas feliz, ao meu lado.
Beatriz cerrou os olhos. Doía, mas manteve-se firme.
Feliz? E achas que era contigo que ia ser? Tu, que mudas de companhia a cada semana? Se fosses o único homem do mundo, nem assim olhava para ti!
Miguel calou-se, depois retomou num sussurro incrédulo:
Pensei que, ao verem-se assim, ficavas comigo. Eu nunca esqueci o que sinto! Ninguém se compara a ti!
Beatriz sentiu raiva, gelada e firme. O seu tom era de sentença.
Tu traíste a amizade, traíste a nossa confiança. Tudo por uma ilusão tua.
Desculpa, Beatriz o tom dele era quebrado, sem a força de antes.
Mas ela já tinha decidido.
Não te posso perdoar. E nem sequer quero que continues na nossa vida. Nunca mais me ligues, nem ao Tomás. Vou contar-lhe tudo desta conversa miserável!
Desligou, pousou o telemóvel na mesa. As mãos trémulas, mas o olhar firme, voltou-se para a rua, onde a chuva continuava a cair em silêncio.
Tomás entrou de repente na cozinha, atento ao semblante dela.
E então? perguntou, apreensivo.
Beatriz voltou-se e soltou um sorriso amargo.
Está tudo explicado, Tomás. Ele organizou tudo. Confessou que me queria e inventou esta história para nos afastar. Que miséria humana.
Tomás sentou-se a seu lado, segurando-lhe a mão com força. Naquele gesto estava toda a segurança do mundo: Estou contigo.
Então nunca foi nosso amigo de verdade murmurou Tomás. Não penses mais nisso. Já desconfiava há muito, só não tinha provas. Agora acabou.
Sim. Pelo menos não restam dúvidas. Agora sabemos com quem contamos murmurou Beatriz, encostando-se nele, sentindo o consolo do lar querido, do perfume familiar do chá quente e das madeiras.
Olha sorriu Beatriz, ao menos agora temos desculpa para faltar a todas as festas de grupo. Não me peças para aturar o Miguel Dizemos só que há lá alguém de quem não gostamos. É bom ter essa liberdade.
Disse-o a brincar, mas havia verdade nas entrelinhas. Agora já não precisavam de estratégias, podiam viver o que realmente queriam: a paz deles.
Tomás riu-se, sincero, leve como há muito não estava.
Vamos antes ver um filme e beber chá, concordou, cruzando o olhar com ela.
Sem sair daqui, acrescentou Beatriz, aconchegando-se melhor à manta, como num casulo aquecido.
Perfeito, respondeu ele, abraçando-a com mais força.
Ali, no abrigo do apartamento lisboeta, com a luz quente a afastar as sombras, o mundo deles estava intacto. Não havia espaço para mentiras, nem jogos, nem traições. Existiam apenas eles, a paz segura, o laço de confiança. E a certeira certeza de que, lá fora, o inverno podia soprar o que quisesse por dentro, tudo estava bem.
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Miguel sozinho numa cozinha, com a caneca de chá esquecida e fria fixava o vazio. As últimas palavras de Beatriz ecoavam como um disco riscado: Nunca mais me ligues.
Não sentia vergonha ou arrependimento mas, antes, uma revolta surda e dolorosa, que lhe apertava o peito. Apertava os punhos até as unhas marcarem a pele. Porquê assim?!
Revivia os momentos da véspera. Acordo com a Mariana, uma rapariga que conhecera semanas antes num café do Príncipe Real. Tinha-lhe contado o plano, ela alinhou de imediato: Gosto desse desafio!, disse-lhe a sorrir. O nervosismo de encenar uma Beatriz tresloucada, palavras combinadas, risos forçados, tudo encenado até ao detalhe.
Achava que, no fim, Beatriz haveria de ver que Tomás não era suficiente. Que ela perceberia, finalmente, que merecia outra paixão, um cuidado mais intenso, diferente.
Agora, tudo o que conseguiu foi perder. Perdeu Beatriz. Perdeu Tomás. A amizade de anos desfeita como papel molhado. Mas, dentro de si, só restava irritação.
Eles que vivam no seu casulo de felicidade aparente O Tomás nunca lhe dará o que eu daria, pensava, cerrando o queixo. Deixou-se ficar diante do vidro embaciado da janela, vendo os pingos de chuva fundirem-se com as luzes do elétrico.
Sussurrou, revoltado:
Acreditas que ganhaste, Beatriz? Achas que a verdade é sempre o que parece no quente do sofá? Não vês que há quem te ame de verdade à tua porta? Mas escolheste a ilusão. Vais ver um dia vais perceber.
Mas sabia: ninguém voltaria para trás. O cenário da vida deles continuava, a tempestade lá fora, o calor artificial cá dentro. Ficou só: o estranho no quarto acolhedor, a recordar planos que só deixaram vazio.
O mundo lá fora seguiria o seu ritmo. O deles, para sempre, já não voltaria a ser igual.







