Matilde, espera. A rapariga voltou-se ao ouvir a voz. Sabia que Tomás a esperava outra vez, encostado ao portão da sua casa em Lisboa. Outra vez tu? Ainda não te cansaste disto tudo? Pareces preso a este sítio há séculos!, exclamou Matilde. Tomás, com um sorriso tímido, estendeu-lhe um ramo de cravos vermelhos. Só queria ver-te.
Matilde pegou nas flores com desconfiança e soltou um suspiro arrastado. O que é que vou fazer contigo? Olha, entende de uma vez que entre nós não há nada possível!, disse ela zangada. Digo-te isto todos os dias. És uma criança, Tomás. Não sei ser de outra maneira. Talvez um dia me passe. Não te passa enquanto andares atrás de mim como alma penada. Já te disse mil vezes! Não és nada para mim! Não fiques zangada, pequena, isso não te fica bem. Sonhos agradáveis, respondeu Tomás. E tu não és meu namorado!, gritou Matilde, já farta.
Tomás apaixonara-se pela Matilde num instante. Ela aparecera na escola dele quando ele ainda estava no sétimo ano, naquela escola antiga em Alfama, com azulejos desbotados. Desde então, partilhava a mesma carteira. Também Matilde gostava de Tomás, e andavam juntos por todo o lado. Mas agora, depois do fim das aulas, Matilde tinha mudado. Já não via Tomás ao seu lado. Como é possível?, interrogava-se Tomás, enquanto observava Matilde a voltar para casa acompanhada por outros rapazes. Aquilo doía-lhe como um espinho. No íntimo, prometia nunca mais correr atrás dela. Porém, no dia seguinte, as pernas levavam-no sozinhas ao portão de Matilde.
Matilde já sabia, ainda antes de sair, que Tomás estaria sentado no banco ao pé da entrada, à espera. Sonhava que um dia ele a veria a chegar acompanhada e a deixaria finalmente sossegada. Porque esperas aqui todas as tardes? Estás à espera de alguém?, perguntou-lhe uma voz diferente. Tomás ergueu o olhar e viu uma rapariga à sua frente. Reparou logo no cabelo ruivo-acobreado e nas sardas únicas espalhadas pela sua face. O sorriso dela parecia acordar a rua inteira. Junto a ela, corria um cão tão cor de fogo como ela. Tomás pensou que era uma rapariga atrevida acompanhada do cão. Sorriu e respondeu:
Espero pela felicidade. Mas ela nunca aparece…
Talvez olhes para o lugar errado. Se calhar deviamos procurá-la juntos. Eu e o Gui, o meu cão, passeamos aqui todos os dias. Queres juntar-te a nós? Vamos os três à procura da sorte.
Tomás olhou uma última vez para as janelas do apartamento de Matilde, ergueu-se do banco e respondeu com firmeza: Olha, vou mesmo convosco. Pela primeira vez, Matilde chegou à praceta e não viu Tomás no banco velho de pedra. Teve de abrandar o passo, sentindo que faltava ali qualquer coisa. Desviou-se para o banco, mas estava vazio. Matilde ficou por ali, remoendo pensamentos, até ouvir ao longe um latido efusivo. O olhar deteve-se em duas figuras distantes Tomás e uma rapariga de cabelo brilhante. O coração de Matilde apertou-se de ciúme. Era a primeira vez que Tomás não a esperava. Dentro dela nasceu uma ausência imensa, e aquele estranho ia levando Tomás para longe…







