“Nu venhas ao meu casamento, só estarão presentes pessoas ricas”, disse a filha ao pai.

Olha, deixa-me contar-te uma história que não me sai da cabeça. Havia um homem que criava sozinho a sua filha, a Leonor. A única coisa que ele queria era que ela crescesse com valores, uma pessoa de bem, sabes? O homem trabalhava que nem um mouro para dar à menina tudo o que podia, nunca poupando esforços nem euros, mesmo que por vezes o salário não desse para tudo. Desde que Leonor perdeu a mãe tão cedo, a vida nunca foi fácil.

A menina sentia muito essa falta e cresceu com algumas dores. Os outros miúdos da escola não facilitavam, gozavam-na por não ter mãe e ela muitas vezes desabava em lágrimas, preocupada com tudo. O pai abraçava-a forte, tentava mostrar-lhe que a vida tem dessas voltas, que às vezes nos surpreende de maneiras que não esperamos. Amava-a profundamente e nestes momentos mais difíceis fazia questão de o mostrar, com uma ternura e dedicação como não há igual.

A época preferida da Leonor era sempre a véspera de Ano Novo. Sonhava com esse dia, imaginando que todos os pedidos dela iam ser realizados, sabes como é? Na escola, organizavam sempre uma festa onde os miúdos se mascaravam e davam presentes. O pai, apesar de estar sempre a contar tostões, fazia sempre aquele esforço extra para garantir que a filha ia linda nesse dia. Houve um ano que juntou o suficiente e comprou-lhe um vestido tão bonito que a Leonor virou vedeta na festa toda a turma ficou de boca aberta e elogiava-a sem parar. Ela estava radiante, e só sabia agradecer ao pai, cheia de orgulho nele.

Com o tempo, Leonor cresceu. Acabou o secundário e partiu para Lisboa para ir para a universidade, determinada como sempre foi. As coisas correram-lhe exatamente como ela planeou, porque tinha cabeça e nunca deixava nada ao acaso. Mas viver na capital mexeu com ela. Descobriu que gostava de luxo e da vida boa, começou a mudar os valores, ficou mais fria. Leonor passou a sair com rapazes de famílias com dinheiro, habituou-se a almoços em bons restaurantes e a presentes caros.

Um dia ficou grávida e preparava-se para casar. Estava contente, porque o futuro marido tinha uma boa posição e vivia rodeado de gente fina. Mas nem se lembrou de convidar o pai para o casamento, nem os outros familiares. Mandou-lhe apenas uma mensagem a explicar que ia ser uma cerimónia para pessoas ricas, e que não fazia sentido ele lá aparecer.

Imagina como o pai ficou… Anos e anos a dar tudo por aquela filha, a sacrificar-se em tudo, sempre presente nos bons e maus momentos e agora isto. Será que merecia este tratamento? No fim de muito pensar, decidiu ir à cidade na mesma.

Chegado ao casamento, esperou pela altura certa. Aproximou-se devagar da Leonor, ofereceu-lhe um pequenino ramo de flores, deu-lhe um beijo na testa e desejou-lhe muita sorte. Depois saiu de lá sem olhar para trás. Leonor ficou gelada, sem saber o que dizer, cheia de vergonha pelo que tinha feito. Como é que conseguiu ser assim com quem mais a amava e sempre lhe deu tudo?

Não aguentou. Correu atrás do pai, chorou muito e pediu desculpa, prometendo que nunca mais voltava a cometer um erro desses.

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