A mãe trouxe a filha ao canil para escolher um cãozinho, mas a menina ficou parada na gaiola do cachorro mais triste e não quis seguir em frente sem ele…

Joana Silva segurava com delicadeza a mãozinha da sua pequena de dois anos, a Inês, enquanto atravessavam o limiar do Abrigo Municipal de Animais da Praça do Carmo, em Lisboa. Os primeiros raios de sol da manhã atravessavam as amplas janelas, lançando luz sobre as jaulas alinhadas, cujos habitantes lançavam olhares cheios de esperança aos visitantes. No ar misturavamse sons típicos do local latidos, miados chorosos, o farfalhar da palha e o tilintar das patinhas no chão.

Então, minha querida disse Joana, sorrindo calorosamente vamos escolher um amigo?

Inês assentiu e os olhos lhe brilharam de excitação. Fazia tempo que sonhava com um cachorro próprio, observando da janela como as crianças do bairro brincavam no parque com os seus bichinhos.

Nos sonhos de Joana, o dia seria diferente. Imaginavase a escolher um filhote adorável um golden retriever ou um labrador brincalhão que cresceria ao lado de Inês. Um cão obediente, saudável, bonito o pet perfeito.

Percorreram as jaulas com filhotes saltitantes, cães adultos elegantes e gatinhos peludos. Joana apontava para os animais mais simpáticos, mas a menina parecia ignorálos.

De repente, Inês parou como se tivesse sentido um tremor no chão.

No canto mais distante, na penumbra de uma jaula, jazia um cão que fez Joana fechar a boca involuntariamente. Era um pitbull em estado deplorável pelos emaranhados, pele inflamada, corpo debilitado. Voltavase para a parede como se tivesse vergonha do próprio aspecto.

Inês, vamos embora apressouse Joana. Olha só quão fofos são os filhotes.

Mas a menina pressionou o focinho contra a grade da jaula.

Mãe, o que lhe se passa? Está doente? sussurrou.

Sim, minha filha, está doente respondeu o funcionário que chegara ao abrigo. O nome dele é Bolota. Está aqui há mais de seis meses. Mas ele ficou em silêncio, sem terminar a frase.

Joana franziu a testa. Para ela, os pitbulls eram sinónimo de agressão e perigo e ainda por cima doentes. E se fosse contagioso? E se fosse imprevisível?

Inês, vamos embora insistiu, mais firme. Há outros cães aqui.

A menina, porém, sentouse bem em frente à jaula, como se fosse o seu próprio assento.

Eu quero este declarou com determinação.

O quê? Inês, não isso é impossível. Olha só, está muito doente. E ainda por cima, os pitbulls são perigosos.

O trabalhador, que se apresentou como Manuel, balançou a cabeça, entristecido.

Bolota não é mau. Ele está quebrado. Foi abandonado ainda filhote porque o achavam feio comparado aos outros. Encontraramo enfermo, com infecções. Uma família o adotou, mas devolveuo após algumas semanas, dizendo que era muito apático.

Joana sentiu o coração apertar entre a pena e a razão. Em casa havia ordem, carinho e um filho pequeno. Por que trazer todo esse problema?

Precisa de cirurgia, tem uma lesão grave na pele, e custa muito caro explicou Manuel. O abrigo não tem fundos. Se dentro de um mês não encontrar dono ele deixou a frase por dizer.

Vão eutanasiaro murmurou Joana, quase inaudível.

Infelizmente sim.

Inês ficou ali, fixa na jaula, sem desviar o olhar do cão.

Cãodinho murmurou baixinho. Olha para mim.

Nada mudou.

Eu sou a Inês. E tu, quem és? perguntou o cão, como se esperasse resposta.

Joana já se preparava para erguer a filha e sair, mas algo a impediu.

O nome dele é Bolota disse Manuel.

Bolota repetiu Inês, com um sorriso sincero. Nome bonito. Bolota, vamos ser amigos.

E então, como num milagre inesperado, o cão levantou a cabeça lentamente e encontrou o olhar de Inês. Nos olhos dele havia uma tristeza tão profunda que o coração de Joana apertou.

Posso fazer-lhe carinho? perguntou a menina.

Não sei hesitou Manuel. Ele tem medo das pessoas e não permite aproximações.

Podemos tentar? a voz de Inês era tão sincera que seria impossível dizer não.

Manuel abriu a porta da jaula com cautela. O som do cadeado fez Bolota se encolher no canto, gemendo suavemente.

Inês, não! gritou Joana.

Mas a menina já estava dentro da jaula, agachada no meio, e estendeu a mãozinha trêmula ao cão.

Não tenhas medo, Bolota sussurrou, a voz delicada. Não vou magoarte, só quero ser tua amiga.

O pitbull observoua por alguns minutos, depois aproximouse cuidadosamente, cheirou a mão e, timidamente, lambeua.

Inês explodiu em risos:

Mãe, vê! Ele está a darme um beijinho!

Um brilho de esperança acendeuse no peito de Joana. Era a primeira vez em meses que via um lampejo nos olhos de Bolota. O cão olhava para a menina com tanta ternura que parecia temer ferila, e ainda assim, lambeua delicadamente.

Mãe disse Inês, a sério, enquanto acariciava a cabeça do cão ele está muito triste. Precisa de uma família.

Nunca vi tudo isso exclamou Manuel, maravilhado. Olhem! Está a sorrir! Vejam, ele está mesmo a sorrir!

De fato, o semblante de Bolota parecia iluminarse de dentro. O rabo abanava, os olhos já não refletiam dor nem desespero.

Mas ele está doente suspirou Joana. E o tratamento é caro

Eu pago declarou, surpreendendo a todos, inclusive a si mesma. Eu mesmo.

Manuel abriu um largo sorriso:

Só tem um porém. As regras dizem que o animal tem de concluir todo o tratamento antes de ser entregue a um novo dono.

Joana acenou, compreendendo a lógica. Poucos dias depois, o telefone tocou.

Joana? a voz de Manuel soava preocupada. Bolota parou de comer, está a gemer sem parar. Pensamos que pode estar a puxarse para a tua filha.

Já vamos respondeu Joana, sem hesitar.

No abrigo, Bolota jazia no canto, a olhar a parede como se estivesse a esperar o fim. Mas ao ver Inês, pareceu reviver saltou, abanou o rabo e gemeu feliz.

Bolota! gritou a menina, encostada à grade. Sentia a tua falta!

Levemnos para casa ordenou Manuel. É uma exceção, mas com vocês ficará melhor do que aqui. Podem continuar o tratamento numa clínica particular.

Em casa, Bolota primeiro se enfiou debaixo da cama e ficou lá horas sem aparecer. Joana começou a duvidar: E se for perigoso? E se? Mas Inês se deitou no chão e começou a contar ao cão, em voz baixa, histórias dos seus brinquedos, da sopa que preparariam juntos, do prato que lhe caberia.

Ao cair da noite, o cão subiu cautelosamente, deitouse ao lado deles. Quando a menina dormia no sofá, Bolota acomodouse aos seus pés.

Bem pensou Joana, observando a cena parece que o nosso cão chegou de fato.

A cirurgia correu bem. O tratamento, que durou um mês inteiro, trouxe resultados impressionantes: a dor recuou, o pelo começou a crescer novamente, os olhos brilharam como nunca. Mas, sobretudo, a alma de Bolota transformouse. Tornouse paciente, carinhoso, disposto a tudo por Inês até a alimentaro com colher. Joana sentiase eternamente grata, como se o cão a tivesse recompensado por têlo salvado.

Sabes disse Joana a uma amiga, enquanto observava Bolota brincar delicadamente com Inês eu pensei que estávamos a dar-lhe uma chance de viver. Mas ele acabou por nos dar a lição de amar sem condições.

Passouse um ano. Bolota transformouse num cão forte, de pelagem brilhante e olhar sereno. Os vizinhos, que antes evitavam o perigoso pitbull, agora o admiravam, encantados com a sua boa disposição.

Inês cresceu ao lado de um amigo leal, que lhe ensinou empatia e o verdadeiro sentido da ligação. Ela já não lembrava exatamente o dia no abrigo, mas sabia que Bolota e ela precisavam um do outro.

Mãe perguntou um dia, abraçando o cão por que ninguém quis adotálo?

Porque não sabiam olhar com o coração respondeu Joana. Só viam o exterior. Tu viste a alma dele.

Bolota murmurou satisfeito, acomodandose ainda mais no colo da menina. O medo já não tinha lugar na sua vida. Tinha agora um lar, uma família que o amava.

Às vezes, os amigos mais verdadeiros chegam disfarçados de perigosos. O essencial é enxergar o coração que se esconde atrás da aparência e oferecer-lhe o amor que tanto espera.

E tu? Tens alguma história de um animal especial que encontrou casa? Partilha nos comentários histórias assim trazem esperança.

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