O cheiro do Lar de Idosos
Sabes a que cheiras? Cheiras a lar de idosos. A cânfora e velhice. Eu já não consigo assim.
Beatriz estava junto à janela, observando o pátio onde a gata da vizinha atravessava a poça, contornando-a com passos pequenos e cuidadosos. As palavras de Ricardo atravessaram-na como em surdina, como se fossem filtradas por uma almofada, e só passado uns segundos é que se virou.
Ele estava no meio da cozinha com uma camisa limpa. Aquela azul-clara que ela lhe comprara ainda em abril, na feira de Campo de Ourique, porque ele dissera que precisava de algo “leve, que não amarrotasse”. Beatriz lembrava-se de quanto tempo tinha passado a tocar nos tecidos, a perguntar à vendedora pela composição, enquanto Ricardo estava no carro, ouvindo a Antena 1.
Estás a ouvir-me? perguntou ele.
Estou sim disse Beatriz.
A voz saiu-lhe serena. Admirou-se quase disso.
Ricardo pousou o saco de desporto sobre a cadeira. Um saco grande, azul, com o logótipo de uma qualquer marca. Beatriz conhecia-o bem: estava arrumado na arrecadação, por baixo das botas de ski, esquecidas há uns oito anos.
Vou-me embora disse ele. Ambos sabemos que já era tempo disto acontecer.
Beatriz olhou para o saco, depois para as mãos dele. Mãos estáveis, sem inquietações, nem a mexer nos botões nem a fugir do olhar. Ele decidira já há muito. Só estava a dar nome ao que já tinha acontecido.
Pois já repetiu ela.
Sim. Ele encolheu os ombros. Beatriz, não quero discussões. Somos pessoas diferentes. Tu estás sempre aqui, com a minha mãe, nas rotinas, naquele cheiro. Eu não consigo viver assim.
O cheiro. Ela pensou nesse cheiro. Cinco anos. Cinco anos a acordar às seis da manhã, porque Dona Maria José acordava a essa hora, como se o corpo doente dela mandasse mais do que o relógio biológico de toda a casa. Cinco anos de óleo de cânfora, de fraldas higiênicas agora fraldas absorventes, cinco anos de tosse atrás da parede, de telefonemas para o INEM a meio da noite. Cinco anos em que o seu trabalho repousava em pastas no escritório que visitava cada vez menos, porque não havia tempo, não havia quem ficasse. “Beatriz, não há mais ninguém, compreendes?”, ele dissera. E ela compreendia.
Vais agora? perguntou ela.
Sim.
Está bem respondeu Beatriz.
Ele olhou-a, esperando outra reação. Talvez lágrimas. Ou um grito. Ou um com quem?. Ela não perguntou. Não porque não soubesse, mas porque, naquele momento, não fazia diferença.
Ricardo pegou nas coisas, demorou-se um segundo junto à porta.
Deixo as chaves na consola do corredor.
Deixa anuiu ela.
Ouviu o clique da fechadura, a porta do prédio a fechar, quatro andares escada abaixo. Beatriz conhecia aquele som de cor. E fez-se silêncio. Não um silêncio comum, mas aquele silêncio especial de sala quando desligamos uma televisão que esteve a falar baixinho durante tanto tempo que já não a ouvimos e ao calar percebe-se finalmente o quanto preenchia o espaço.
Beatriz olhou para as chaves na consola. Voltou à cozinha e encheu o fervedor de água.
Cinco anos antes, Maria José sofrera o AVC ali, à mesa do almoço, num aniversário de Ricardo. Nesse dia, Beatriz fizera bolo de cerejas; Dona Maria José comentou que delícia, depois largou o garfo e olhou-a de um modo estranhamente fixo suficiente para Beatriz perceber. Foi ela quem chamou a ambulância. Quem segurou a mão ao longo da viagem. A mão que já não apertava de volta.
Ricardo estava num jantar de empresa. Atendeu só à terceira chamada.
Depois, os médicos explicaram que a parte esquerda ficara parcialmente paralisada, que o restabelecimento seria demorado e só possível com acompanhamento permanente em casa. Ricardo sugeriu: “Agora que não estás a trabalhar a tempo inteiro, Beatriz. Os teus projetos… não são a principal fonte de rendimento”. Ela não debateu. Arrumou as plantas dos seus jardins e projetos na caixa, guardou-a no escritório.
A água ferveu. Beatriz fez chá, voltou à janela. A gata já não estava. A poça permanecia.
Os primeiros três dias, Beatriz quase não saiu de casa. Não porque não pudesse, mas porque não sabia para onde ir. O corpo estava feito à rotina: seis horas, levantar; sete e meia, cuidados; dez, pequeno-almoço; uma da tarde, almoço; quatro, cadeira na varanda a apanhar sol; sete, dormir. Agora, sem esse programa, o corpo não sabia o que fazer com o tempo.
Vagueou pelos compartimentos, olhando para as coisas. Para a cadeira de rodas encostada à sala. Sacos de fraldas debaixo da cama. A caixa dos remédios na prateleira do corredor, cada frasco etiquetado pela sua letra: manhã, noite, com tensão. Maria José morrera há três meses, tranquila, a dormir. E tudo continuava no seu lugar. Ricardo não tocara em nada, e a Beatriz faltavam-lhe forças para mexer.
No quarto dia, pegou em três sacos pretos do lixo e começou.
Trabalhou devagar, metódica. As fraldas, sacos, sondas, luvas, resguardos. Depois os medicamentos, caixa após caixa. Por fim, a cadeira de rodas o mais difícil, porque recordava-se de a conduzir junto ao jardim da frente, Maria José olhando demoradamente as árvores como só faz quem sabe que é a última vez. Beatriz desmontou a cadeira o máximo que conseguiu e levou-a à arrecadação em três viagens.
Ficou depois muito tempo no duche, a água bem quente.
Ao sair e olhar-se no espelho, viu-se. Não a cuidadora, não a esposa, não a nora de facto. Só uma mulher de cinquenta e dois anos, cabelo húmido, já com brancos, que não pintava há meses porque não havia tempo, nem para ela, nem quem notasse.
Na manhã do quinto dia, marcou cabeleireiro.
A cabeleireira chamava-se Filipa, devia ter trinta e poucos anos, mãos ágeis, seguras. Quando Beatriz explicou que queria tirar o comprimento e dar volta à cor, Filipa não questionou. Limitou-se a analisar o cabelo com aquele olhar atento de profissional igual ao de um bom médico.
Tem bom tom natural disse quando acabou de ver. Posso pôr umas madeixas e transformar o branco numa luz. Fica moderno. E um corte para abrir o pescoço. Tem o pescoço bonito.
Faça isso respondeu Beatriz.
Ficou duas horas na cadeira, testemunhando no espelho o surgimento de outra mulher. Não diferente, mas a mesma, lavada de incrustações acumuladas nos anos.
Ao sair para a rua, o vento já anunciava outubro. Mexia-lhe o cabelo curto, junto ao rosto. Beatriz pensou que já não sentia o vento nos cabelos há muito tempo. Não porque não o quisesse, mas porque não parava na rua. Sempre apressada: para a farmácia, de volta, para o centro de saúde, para casa.
Agora, sem pressas.
Comprou um café à porta da padaria, em copo de papel, e vagueou pela rua, só porque sim.
O divórcio demorou quatro meses.
Ricardo foi ao tribunal com advogado um homem novo, fato caro, olhar distante. Beatriz foi sozinha. Não por bravata só não via vantagem em combater.
À segunda sessão, Ricardo levou alguém.
Beatriz avistou-a: trinta e poucos anos talvez, cabelo apanhado, sobretudo aos quadrados, saltos. Ficou num canto, a olhar o telemóvel o olhar rápido, sem curiosidade, próprio de quem está numa fila.
Beatriz notou, quase com desapego. Nada de superioridade, apenas distância.
Beatriz disse Ricardo, baixo . Queria falar da casa.
Não é preciso cortou ela.
Mas…
Ricardo. Olhou-o de frente. Eu só quero o ateliê. O que já era meu antes de casarmos. O resto: casa, carro, o que quiseres.
Houve silêncio.
Tens a certeza?
Tenho.
O advogado apontou rápido. Ricardo olhou-a como quem esperava negociação, reivindicação de anos ou recordação do cuidado dado à mãe. Ela não referiu nada disso. Não por falta de direito, mas porque não queria essa conversa. Nem desculpas dele, nem lágrimas dela. Era um peso atrasado, pronto para assentar-se.
O ateliê ficava na Rua das Flores: segundo andar de um prédio antigo, vinte e dois metros quadrados, pé direito alto, janela enorme a norte. Beatriz comprara-o aos trinta e quatro, pouco depois de se formar, com dinheiro suado. Lá estava sua secretária com prancheta, já velha, mas familiar; estantes com dossiês; vasos com plantas sobreviventes às tempestades, verdes como sempre.
A primeira noite, após a assinatura do juiz, Beatriz dormiu no sofá-cama, olhando o teto, sem saber o que viria.
Não tinha resposta. Mas já não sentia medo, inexplicavelmente.
O primeiro telefonema foi para o Viveiro Verdejante, onde colaborara anos atrás. Recordaram-se dela: a secretária ficou feliz, sugeriu que falasse com o Engenheiro Manuel. Ele foi muito educado, elogiou-lhe o projeto do parque junto ao hospital de pediatria, mas avisou:
Beatriz, cinco anos é uma pausa muito longa. O mercado mudou, o software mudou, os clientes também. Procuramos pessoas já preparadas…
Compreendo disse ela.
Se algo mudar, ligo-lhe.
Ela sabia que não ligariam.
O segundo telefonema foi para a oficina privada onde trabalhava uma antiga colega, Joana. Ficou contente, mas dentro de minutos começou a falar de novas exigências, concorrência jovem.
O terceiro foi para os serviços camarários de jardins. Longa espera, depois informaram que o quadro estava cheio.
Beatriz pousou o telemóvel e olhou pela janela.
Já era novembro. Árvores nuas, passantes de gola levantada. Beatriz pensava em quanto cinco anos contam. Por dentro, não tanto sobrevivia ainda nela a mesma de sempre. Por fora, tudo mudara. O lugar que deixara cuidadosamente em pausa já tinha novo dono.
Ligou o computador, pesquisou programas de design de jardins. Novos, desconhecidos. Estudou até às duas da manhã, chá ao lado, bloco de notas. Algumas coisas realmente eram novidades. Outras, só mudaram de nome.
Em dezembro, conseguiu trabalho. Não o desejado, mas trabalho: ajudante num pequeno viveiro nos subúrbios. A dona, Dona Teresa curiosamente lembrava a sogra era despachada, prática, avaliando pessoas e plantas pelo critério de utilidade.
Sabes de plantas?
Sei.
Está aceite. O salário é modesto, mas o trabalho é bom.
Era, de facto. Beatriz chegava às oito, cuidava das estufas, transplantava, explicava a clientes. Não era aquilo por que ansiara, mas era real. Mãos na terra, cheiro da folha e da turfa, filas de vasos vivos.
No viveiro ouviu falar da estufa.
Dona Teresa, distraída, comentou que na estrada junto ao rio havia uma estufa esquecida, dos tempos do velho jardim botânico. Alguém da câmara tentava fazer algo, mas não havia mãos.
Beatriz hesitou dias antes de ir. Um domingo, vestiu o casaco e decidiu.
A estufa ficava no fundo de um parque antigo, oculta entre árvores. Era vidro muito vidro, sujo, onde se adivinhava vida opaca. A armação de ferro enferrujara em lugares, folhas caídas cobriam o caminho. Por dentro, caos mas um caos fértil. Plantas a crescerem como queriam: lianas subindo estruturas, árvores de tangerinas carregadas de frutos, palmeiras gigantes, vasos esquecidos, orquídeas desencontradas.
Beatriz ficou ali, sentindo ressuscitar algo dentro dela.
Veio por marcação?
Virou-se. Um homem idoso, camisola de lã, óculos na testa, apareceu de um corredor lateral. Pequeno, mãos de quem sempre trabalhou.
Não respondeu Beatriz. Desculpe, vi de fora e entrei. Se não puder…
Claro que pode. Olhou-a, depois para a estufa. Manuel Costa. Diretor, termo que ainda não sei se se usa aqui.
Beatriz Oliveira. Sou arquitecta paisagista.
Houve pausa.
Arquiteta?
Com um intervalo. De cinco anos.
Refletiu, mas não a julgava. Só pensava. Venha, mostro-lhe.
Andaram quase duas horas. Manuel explicou o estado do local, o que tentara ser feito. Aquilo encerrara há sete anos para obras provisórias que nunca aconteceram; mudara a gestão, ficou num limbo. Manuel obtivera permissão para manter, mas sozinho: vinha regar, alimentar, vigiar a temperatura.
Posso ajudar disse Beatriz.
Não consigo pagar.
Sei.
Observou-a longamente.
Venha na quinta-feira.
E assim foi. Depois repetiu. Tornou-se hábito: todas as manhãs. Deixara o viveiro. Dona Teresa compreendeu: Fazes bem, tua cabeça não é só para vasos.
A estufa tornou-se o seu projeto o primeiro verdadeiro em cinco anos.
Começou por registar. Cada planta, o estado, as necessidades. Passou três semanas a fazer um inventário, meticuloso, como os projetos de antigamente.
Depois desenhou esquemas. A estufa tinha quase quatrocentos metros quadrados, mas estava mal organizada vasos ao acaso, sem caminhos, sem lógica. Beatriz planeou. À noite, no ateliê, desenhava à mão, como nos tempos do curso.
Manuel via os desenhos e concordava:
Aqui, zona dos citrinos. Mandarinas, limoeiros, kumquats. Dão cor, perfume.
Perfume, sim. No inverno, quem entra, sente logo diferente.
Ao centro, as palmeiras continuava Beatriz. Trazem escala, altura. Debaixo, arbustos tropicais. E um caminho.
Caminho é bom. Para as pessoas andarem.
As pessoas virão dizia Beatriz. Vão sentir. Espaço pensado é espaço visitado.
O inverno passou entre trabalho e improvisos. Beatriz investiu o pouco dinheiro recebido do divórcio em novas plantas, arranjou vidraceiros, convocou ajuda. Manuel, sempre presente, regava, falava com as plantas com uma honestidade que só quem acredita compreende.
Em janeiro, Beatriz ligou à amiga Rita.
Rita era companheira de universidade, que ainda insistia em marcar encontros, até que percebeu que Beatriz já não ia porque “tenho que cuidar da D. Maria José, não posso sair”. Rita atendeu ao terceiro toque, longo silêncio.
Estás viva?
Estou.
Graças a Deus… Porque desapareceste?
É difícil explicar. Tu estás por casa?
Estou. A comer pastéis de bacalhau. Vem cá.
Beatriz foi. Sentaram-se a beber chá e depois vinho. Beatriz contou tudo. Rita ouvia, sem conselhos, só dizendo pois ou percebo. Era o que Beatriz precisava.
E o Ricardo, sabe que estás na estufa?
Para quê?
Só perguntei. E tu, estás bem?
Pensou.
Pela primeira vez em muito tempo, sim.
Rita acenou, mudando de assunto.
Fevereiro trouxe surpresas.
Beatriz trouxe gérberas novas e um grande vaso de alecrim que arranjara em saldo no viveiro. Manuel estava ocupado, e ela, sozinha, arranjava vasos. De súbito, a porta abriu.
Um homem apareceu.
Uns cinquenta e oito, casaco de fazenda, tablet debaixo do braço. Corpulento, olhar atento aquele jeito de quem já trabalhou na adversidade.
Desculpe, está o sr. Manuel?
Ali ao fundo, junto às palmeiras.
Obrigado. Olhou em redor. Está bonito. Eu estive cá há seis meses… estava bem diferente.
Está, sim.
Teu trabalho?
Meu e do senhor Manuel.
Mas a ideia é tua notou, sem pergunta.
Olhou-o. O olhar dele era o de quem vê estrutura, não só beleza.
E você é?
Alexandre Faria, engenheiro. Cuidamos das coberturas, havia infiltrações.
Terceira e sétima secção.
Sorriu.
Como sabe?
Estou cá todos os dias.
Foi ter com Manuel e voltou, minutos depois, com papéis. Ao sair, parou.
Uma pergunta: aquelas mandarinas vão florir esta primavera?
Devem florir se mantivermos a temperatura.
E como saber que estão a preparar-se?
Beatriz hesitou.
Os botões engrossam, escuros. Vê-los significa que, em três semanas, há flores.
Obrigado.
Manuel regressou, satisfeito.
Gente boa, esse Alexandre. Não nos larga, já há dois anos.
Engenheiro?
E dos bons. Gosta destas coisas antigas diz que este tipo de obra tem história, sente-se útil aqui.
Beatriz voltou ao alecrim.
Alexandre começou a aparecer mais vezes. Ora com projetos, ora de passagem. Deambulava pela estufa, tomava notas. Beatriz continuava o trabalho, até se cruzarem:
Desculpe.
Nada.
A sua profissão anterior?
Arquitecta paisagista. Trabalhei em espaços urbanos.
Nota-se. No modo como as plantas estão organizadas. Há movimento, não apenas beleza.
Beatriz fixou o olhar. À quanto tempo alguém falava assim do seu trabalho?
Em março, abriram a estufa, informalmente. Puseram aviso no portão do parque e na Junta de Freguesia. No primeiro dia vieram sete. Na semana seguinte, trinta. Gente a passear, a cheirar citrinos, fotografar palmeiras. Uma senhora de idade ficou largos minutos junto ao alecrim dizendo-lhe que, no Ribatejo, também havia assim grande.
Funciona disse Manuel.
Funciona confirmou Beatriz.
Beatriz, a Junta arranjou verba para um part-time, oficial.
Cargo?
Técnica principal em espaços verdes. Soa burocrático, mas é o teu papel.
Está bem disse ela.
Está bem começou, aos poucos, a ganhar novo sentido. Já não era só “serve” agora, era verdade.
Em abril, Alexandre convidou-a para um café.
Nada de romântico só ali ao lado conheço um sítio, estás na estufa faz horas sem pausa. Era verdade. Conversaram. Alexandre revelara ter uma filha noutra cidade, divorciado há anos, a vida de engenheiro-ambulante, apreciando cada obra única.
Porque edifícios antigos? perguntou Beatriz.
Têm história. Vejo a soma de pessoas: quem desenhou, quem construiu, quem modificou. É uma conversa entre tempos.
Beatriz olhou a rua pela janela do café.
E a estufa?
A estufa é especial. A história aqui continua viva.
Ouviram-se mais uma hora. Alexandre despediu-se à porta, prometendo regressar no dia seguinte para ver a cobertura.
Rita, ao ouvir falar de Alexandre em maio, quis detalhes:
A sério? Estás interessada?
Não sei.
Ele está?
Não perguntei.
Ó Beatriz! Com a tua idade…
Cinquenta e três, já.
Ainda melhor. Pergunta-lhe!
Beatriz riu. Descobriu que sabia rir sem motivo, nem permissão.
Sobre Ricardo soube por conhecidos, sempre num tom delicado, sem saberem se deviam contar.
Primeiro foi Fernanda do prédio antigo:
Beatriz, só para saberes… ouviste?
O quê?
Aquela Ana que estava com ele… foi-se embora. Levou as coisas em maio. Uns dizem que ele queria filhos e ela não. Outros, o contrário…
Entendi. Obrigada, Fernanda.
Depois, colega de Ricardo, Vasco.
Olha, pediram ao Ricardo para sair da empresa. Já há três meses, não quis logo contar…
E porquê partilhas agora?
Ligou-me algumas vezes. Não está bem.
Espero que continues amigo dele respondeu Beatriz. É importante nestas alturas. Mas para mim…
Tens razão. Desculpa.
Desligou. Era junho. Do lado de fora, lilases floridas no parque; por dentro, ar condicionado finalmente instalado. Mandarinas em fruto, palmeiras imponentes.
Beatriz cuidava das regas, pensava em Ricardo? Às vezes. Não muito. Recordava momentos felizes, claro. Os primeiros anos do casamento foram bons, até tudo sair lentamente do eixo, em pequenas renúncias: menos atenção, mais cansaço, menos perguntas como estás. Ela própria, cada vez mais invisível em casa.
Mas aquelas palavras. Cheiras a lar de idosos.
Largou o pequeno regador junto ao limoeiro. Folhas brilhantes, espessas, vivas.
Foi cruel. Palavras para magoar, para ferir, deixando a culpa do abandono a quem fica.
Depois continuou a cuidar das plantas.
Alexandre vinha agora à estufa várias vezes por mês. Às vezes por trabalho, outras só para ver, conversar com Manuel e às vezes com Beatriz. Falavam de tudo: da cidade, de livros, de obras do país. Um dia trouxe figos do mercado, teve a ideia de plantar na estufa. Manuel ficou entusiasmado; Beatriz explicou como se faz.
A maior diferença: ele escutava. Não para responder, mas para entender.
Em julho, foram juntos a uma exposição de arquitetura. Alexandre conhecia metade dos participantes; Beatriz escutava-o, cheia de gosto, apresentar a história de cada edifício, quem construiu, os erros, as lições.
E porque se dedicou à reabilitação?
Aos quarenta. Antes construía novo. Depois, vi que o antigo ensina mais.
Porquê?
Tem erros humanos, autênticos. Descobri-los aproxima-nos do arquiteto ou engenheiro de outro tempo. É estranho, mas bom.
Beatriz pensou nisso tempos mais tarde. Que talvez devesse olhar o seu próprio passado assim: não como fracasso, mas como erro alheio, que se compreende.
Em agosto, o calor apertou. A estufa ganhou fama: mais visitas, turmas de escolas, professores planeando aulas de biologia ali. Manuel andava radiante.
Isto és tu dizia a Beatriz.
Somos todos.
Não. Ideia tua, projeto teu. Eu só reguei.
Beatriz ria. Continuava a desenhar: queria ampliar o espaço, instalar zona educativa e ateliês. Procurou dois contributos de fundos europeus. Manuel, com os óculos no nariz, conferia os regulamentos.
Setembro. Ele telefonou numa sexta ao anoitecer.
O número não tinha sido eliminado.
Sim?
Beatriz… posso ver-te?
Para quê?
Falar. Preciso disso.
Beatriz olhou pela janela. Era o anoitecer de setembro, as pessoas voltavam do trabalho.
De quê? Sobre o quê?
Sobre tudo. Quero que me oiças.
Estou a ouvir-te agora.
Não, quero ver-te. Onde trabalhas?
Estufa no Largo do Rio. Horário normal.
Desligou.
Ele apareceu em outubro. Terça-feira, quase uma. Beatriz arrumava orquídeas. A porta abriu, ouviu passos: os de Ricardo.
Vinha com um ramo: crisântemos, meia dúzia, embrulhados como os que se vendem na estação por quatro euros.
Beatriz olhou-o: cinquenta e seis anos. Mais pesado. Outra expressão. Antes, ao sair, parecia leve. Agora, não.
Olá.
Olá.
Está bonito aqui.
Eu sei.
Ofereceu-lhe o ramo.
Para ti.
Beatriz aceitou, arranjou um vaso.
Sentaram-se numa zona pequena que Beatriz criara para os visitantes: poltronas, mesa, revistas de jardinagem. Manuel, educadamente, desapareceu.
Estás bem disse Ricardo.
Obrigada.
A sério. Fazes mesmo bem sentir-te assim… viva.
Eu sou a mesma.
Não. És diferente.
Silenciou-se. Olhou, esperando mais.
Beatriz disse ele enfim. Sei o que fiz. E o que te disse naquele dia… foi injusto.
Foi sim.
Senti-me com falta de ar, precisava de outra vida. Pensei que… calou-se.
Tiveste medo completou ela.
De quê?
De envelhecermos. De ter a doença na família, uma vida sem glamour. É humano, Ricardo.
Nunca me disseste isso.
Fui aprendendo. Com o tempo.
Silêncio. O vento agitava folhas fora.
Beatriz. Quero voltar.
Ela pensou um instante.
Ricardo. Não estou zangada. Já não. Ficou só… entendimento. Fizeste escolhas, eu também.
Então há esperança?
Não.
Demorou-se.
Porquê?
Porque eu escolhi outra coisa.
O quê?
Isto. Apontou a estufa, as plantas, o espaço, ela própria.
Ricardo percebeu, calou-se.
E esse engenheiro, Manuel disse-me que vem cá…
Manuel fala muito.
Estás com ele?
Ricardo olhou-o de frente já não te diz respeito.
Houve um aceno de cabeça.
Fico contente por ti disse baixo. Foste a melhor mulher que podia desejar. Eu é que não soube dar valor.
Sei disso.
Ergueu-se.
Preciso trabalhar. Queres uma visita à estufa?
Não, obrigado.
Caminhou para a porta, parou.
Tu… Não acabou. Boa sorte.
Igualmente.
A porta fechou-se.
Beatriz pôs as crisântemos numa jarra alta. Estas flores, se bem cuidadas, duram quase duas semanas.
Manuel regressou, como se nada tivesse passado.
Um chá?
Sim, obrigado.
Partilharam um chá simples. Manuel contava-lhe sobre borboletas dos citrinos, dizia poder tê-las no verão, se as portas ficassem abertas. Beatriz pensava que era boa ideia as crianças iriam gostar.
O outono chegou. Beatriz continuou o projeto de ampliação, recebeu pré-aprovação do financiamento, Manuel trouxe um bolo para comemorar; comeram, rindo das migalhas sobre os desenhos.
Alexandre passou a visitar mais, não só por trabalho.
Certa manhã, trouxe vinho quente num termo.
É novembro… justificou.
E se não gostar?
Mas gosta.
Riu-se.
Sentaram-se nas poltronas, olhando o jardim amplo pelas vidraças. Alexandre serviu vinho quente. Cheirava a cravinho e laranja.
Fala-me do projeto, outra vez.
Beatriz elucidou, desenhou, discutiu. Alexandre intervinha, mostrava-lhe cálculos, ideias para as estruturas. Pela primeira vez em anos, Beatriz sentia-se plenamente igual em diálogo.
Aqui, convém vidro duplo, resolve o vapor de água. Vi em França, num clima parecido.
As vigas aguentam?
Faço um cálculo. Queres?
Quero.
Olhou-a diretamente.
Beatriz Oliveira…
Sim?
Gosto de falar consigo.
Beatriz ficou um segundo calada.
Também eu.
Algo mudou para lá da vidraça. Parou. Era neve. A primeira neve, hesitante, quase derretida antes de tocar chão, mas que ficava nos bancos, nos galhos, nos passeios frios.
Neva…
Pois, diz novembro…
Ficaram a ver.
Beatriz sentia o calor da chávena nas mãos e o perfume de citrinos e pinho. Era reconfortante. E pensou: lá fora é inverno, mas aqui dentro é quente, cheio de vida. Se nisso se resumia o que fez naquele ano, então, sim, valeu a pena. Encontrou um lugar onde há dentro calor, mesmo com tudo cinzento lá fora.
Pensa em quê? perguntou Alexandre, voz baixa.
Penso…
Em coisas boas?
Beatriz olhou os citrinos pequenos, as orquídeas alinhadas, as palmeiras que tocavam o vidro, já cobertas de flocos.
Sim respondeu , em coisas boas.
Alexandre não disse mais nada. Encheu os copos. Sentaram-se juntos, ali, na estufa aquecida, a olhar o primeiro nevão.







