Pretendente sugeriu um passeio com -20°C porque “só mulheres sustentadas vão a cafés”. Então, eu não perdi a compostura…

O pretendente sugeriu um passeio com 0°C lá fora, porque «só mulheres interesseiras ficam em cafés». Não hesitei Apareci de fato de ski e roupa térmica Mas ele nem imaginava o presente que o esperava ali

O nome dele era Tomás. Nas fotografias, um homem perfeitamente comum de trinta e poucos anos, bem arrumado, sem traços extravagantes. No perfil dizia refletir sobre consciência, crescimento pessoal e procurava uma alma viva e verdadeira. Já nesta parte eu deveria ter desconfiado: minha experiência mostrava que quanto mais um homem fala sobre mulheres de verdade, mais procura alguém que se contente com pouco e não exija nada.

Trocámos mensagens durante alguns dias. Tomás era educado, embora de vez em quando surgissem comentários estranhos. Especialmente gostava de lamentar que, na sua opinião, as mulheres modernas só pensam em dinheiro.

Todas só querem restaurantes, viagens para as ilhas e telemóveis caros, escreveu ele. Ninguém quer olhar para a alma, só andar e conversar.

Eu, educada, acenava mentalmente, claro e desviava o tema com cuidado. Todos têm suas feridas. Talvez uma ex-mulher tenha lhe tirado as ilusões ou até a casa ninguém sabe. Evitei julgamentos precipitados.

Então ele propôs um encontro. Só havia um problema: era fevereiro, com frio cortante e zero graus no termómetro, sensação de menos cinco com o vento. Os informativos alertavam para nível laranja de perigo, protegendo-se era a recomendação.

Vamos encontrar-nos no parque, sugeriu Tomás. Caminhar, respirar ar puro, conhecer-nos sem máscaras.

Tomás, respondi, está um frio de rachar, vamos virar estátuas em dez minutos! Que tal tomar um café numa pastelaria?

A resposta veio rápido.

Eu não vou a cafés. Lá só ficam mulheres que esperam ganhar algo, e eu procuro uma parceira de vida, para estar comigo na alegria e na tristeza, e no frio também. Se for importante gastar dois euros contigo, então não somos compatíveis.

A curiosidade venceu. Queria muito conhecer esse defensor das relações puras, para quem uma bica era símbolo de escravidão financeira.

Perfeito, escrevi. No parque, às 19h, na entrada principal.

Preparei-me com cuidado: vesti roupa térmica, uma camisola bem quente, o fato de ski. Nos pés, botas grossas, meias de lã, na cabeça um gorro com orelhas.

No espelho, via alguém pronta para hibernar.

Força, Tomás, pisquei ao espelho e saí para o frio.

Às 19h estava no parque. O frio mordia-me as bochechas, única parte exposta. O chão rangia debaixo das botas, não se via ninguém: gente sensata, incluindo as tais interesseiras, preferia o calor.

Tomás aguardava à porta, de casaco leve de meia-estação. Mudava os pés, pulava e soprava nas mãos. O nariz já roxo, as orelhas vermelhas.

Aproximei-me.

Olá, disse numa voz abafada pelo cachecol.

Ele olhou-me, esperando uma princesa delicada, tremendo ao vento, para dar-lhe oportunidade de sentir-se herói. Em vez disso, tinha diante de si alguém parecida com uma exploradora.

Olá, respondeu entre dentes. Preparaste-te bem

Foste tu que disseste: na alegria, tristeza e frio. Decidi começar pelo frio. Vamos caminhar e respirar ar puro?

Os 15 minutos da glória

Caminhámos avenida fora. Aquela foi das situações mais peculiares das minhas experiências em encontros.

Que tal o tempo? perguntei, num tom social.

Revigora, respondeu. O rosto já quase não mexia, só os lábios azulavam rapidamente. Gosto do inverno, testa as pessoas.

Concordo, acenei. Falando em interesseiras: explica melhor porque o café é sinal de interesse financeiro?

Falar custava-lhe, o frio queimava-lhe a garganta, mas o orgulho exigia sacrifícios.

Porque a voz tremia, uma relação deve ser baseada no interesse pela pessoa, não pela carteira. Se a mulher não pode só caminhar, logo pede algum mimo, é consumidora.

E se ela só não quer apanhar uma pneumonia? acrescentei, ajeitando o capuz.

Isso são desculpas, cortou ele, com um puxão de nariz. Quem quer, procura soluções. Tem de vestir-se bem, como tu, aliás.

Pois, eu vesti-me. Mas tu parece que não. Estás mesmo bem?

Estou ótimo! respondeu, mas tremia tanto que era visível até no escuro.

Passaram dez minutos, chegámos à praça principal do parque. Fechado estava o quiosque de café. Tomás olhou para ele com tristeza digna de novela.

Se calhar voltamos? propôs. O vento está a ficar mais forte.

Ora, só começámos! Querias conhecer a alma. Vamos conversar sobre livros. Gostas de Jack London? Tem um conto chamado Acender uma fogueira, onde o homem morre de frio porque subestimou o inverno.

O olhar que me lançou não era de busca interior.

Olha, preciso ir, interrompeu-me. Tenho assuntos urgentes.

Que assuntos? Planeámos este fim de tarde.

Trabalho. Esqueci-me do relatório.

Às oito da noite? Numa sexta-feira?

Sim! exclamou quase.

Virou-se às pressas e acelerou para a saída. Fui atrás, saboreando o momento: o meu sobrevivente durou exatamente quinze minutos.

Na entrada do metro nem se despediu, apenas sumiu no calor salvador. Espero que lá tenha aquecido não só as mãos, mas também, quem sabe, suas convicções. Embora duvide.

Cheguei em casa, fiz chá bem quente e apaguei a conversa com Tomás. Não me arrependi do tempo gasto. Aqueles quinze minutos foram uma lição uma lembrança de que cuidar de si mesma não faz ninguém interesseira. Se queremos respeito, é preciso começar por nos respeitar.

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