Ao ouvir a campainha, abri a porta e vi a minha sogra a chorar. Afinal, a amante tinha-a roubado.

Quando eu e Manuel nos casámos há já quinze anos, senti logo pela atitude da minha sogra que nunca seríamos amigas. Casámo-nos, mas eu e Manuel não tivemos filhos de imediato. Esperámos longos dez anos. E então, finalmente, Deus recompensou a nossa paciência com um filho e uma filha.

Durante esses anos juntos, o Manuel tinha uma carreira de sucesso. Era diretor numa grande empresa em Lisboa, o que me permitiu ficar em casa em licença de maternidade para cuidar das crianças. Esta situação encaixou-se perfeitamente na minha vida.

A minha mãe vivia longe, no Porto, por isso não tinha como me ajudar. E a minha sogra nunca mudou a postura fria comigo em todos estes anos. Para ela, eu era uma desconhecida, uma rapariga do campo que roubara o filho querido. Ela sempre achou que o Manuel merecia alguém melhor. Mas ele escolheu-me a mim.

O meu mundo, tão feliz, desmoronou-se de repente.

Um dia, regressei a casa com os miúdos depois de um passeio pelo parque e reparei num papel em cima da mesinha-de-cabeceira. Enquanto andava pelo corredor, reparei que as coisas do Manuel já não estavam lá. Tinha-nos deixado. No papel, de forma apressada, ele escreveu: Perdoa-me, mas apaixonei-me por outra pessoa. Não procures por mim, sei que és forte e vais conseguir… Acredita, é melhor assim.

Telefonei-lhe imediatamente, mas do outro lado só ouvia silêncio. Não atendeu mais nenhuma chamada. O Manuel desapareceu das nossas vidas, deixando-me sozinha com as crianças. Não fazia ideia onde estava ou com quem. Com o coração pesado, liguei à minha sogra.

Sempre foi culpa tua disse ela, com um certo gozo na voz Eu sabia que isto ia acabar assim. O que esperavas?

Senti-me perdida. Porque seria eu a culpada? Será que fiz alguma coisa errada? Era difícil aceitar tudo isto, e ainda mais difícil era imaginar como íamos continuar. O Manuel não nos deixou qualquer dinheiro, estávamos quase sem recursos para o dia-a-dia.

Naquele momento, ainda não podia procurar trabalho, porque não tinha ninguém com quem deixar os meus filhos pequenos. Lembrei-me então do meu antigo emprego em part-time, escrevendo textos académicos para estudantes universitários. Isso ajudou-me a aguentar mais uns meses. Durante todo esse tempo, não tive qualquer notícia do Manuel.

***

Numa noite fresca de outono, ouvi uma campainha inesperada. Pensei que fosse algum vizinho, mas quando abri a porta encontrei a minha sogra. Logo ali ao pé da porta ela desmanchou-se a chorar, então convidei-a a entrar. Contou-me que a tal namorada nova do Manuel era uma vigarista, que o enganou e os deixou sem nada. Agora, mal conseguiam sobreviver. De repente, a minha sogra pediu-me que a deixasse ficar connosco em casa. E aqui estou eu, neste dilema: devo perdoá-la, ou fazer o mesmo que ela e o Manuel me fizeram deixá-la ficar fora da minha vida?

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Ao ouvir a campainha, abri a porta e vi a minha sogra a chorar. Afinal, a amante tinha-a roubado.
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