O meu pai proibiu-me de pegar ao colo a minha filha, todo preocupado que eu fosse demasiado meiga com a neta dele. Agora que a pequena começou a gatinhar, sempre que saio da sala, lá vem ela atrás de mim, a implorar para ser levada ao colo. O avô já veio com aquele discurso antigo de que não a devo mimar, porque, segundo ele, a menina só aprende a safar-se na vida se ficar no chão. Mas eu… confesso que não consigo resistir a abraçar a minha filha, e isso faz-me pensar se não estarei a ser demasiado protetora.
Reconheço que sou, talvez, um bocadinho mole consolo-a quando chora, encho-a de mimo e raras vezes lhe levanto a voz. Se calhar, estou só a tentar compensar o que me faltou em miúda. Cresci num lar em Lisboa, depois de a minha mãe ter morrido, e nunca conheci os meus pais biológicos. Fui “adotada” por uns tios afastados, da família do primo do meu pai, que me deram casa quando souberam do meu drama.
O início não foi fácil: o meu pai era um homem de poucas palavras, daqueles típicos do interior, enquanto a minha mãe passava a vida a trabalhar para meter comida na mesa sobrava pouco tempo e ainda menos paciência para beijos e abraços. Eu sempre soube que gostavam de mim, só que o carinho era coisa rara e estava mais escondido do que azeite virgem no supermercado ao domingo. Por isso, habituei-me a inventar as minhas próprias histórias, a imaginar-me rainha de um reino encantado onde o amor vinha a rodos e os elogios voavam como manjericos nas festas de Santo António.
Com o tempo, dei por mim a procurar validação em todo o lado, especialmente nas relações amorosas. Mergulhava de cabeça à espera de migalhas de atenção e até fiquei presa cinco anos numa relação mais tóxica que gases de escape junto à Ponte 25 de Abril, só porque achava que, se saísse dali, nunca mais encontrava amor. O meu marido, esse sim, é um homem de coração aberto, sabe um bocadinho sobre o meu passado e apoia-me sempre mas não sabe tudo, nem sonha o que me vai cá dentro. Apesar do que vivi, não sei refrear-me: mimo a minha filha com tudo, porque, ao contrário de mim, ela merece um mundo inteiro de carinho e amor, e mais algum. Se calhar, é excesso. Mas, honestamente… venham de lá as críticas! Ela merece cada beijinho, cada abraço, tudo em dose dupla!







