Há alguns anos, eu era uma pessoa que acreditava que o sucesso se media apenas por dinheiro e status. Trabalhava numa empresa de construção em Lisboa e estava obcecado em provar o meu valor.

Há alguns anos, eu era aquele tipo de pessoa que acreditava que sucesso se media apenas pelo dinheiro e pelo estatuto social. Trabalhava numa empresa de construção civil em Lisboa e era obcecado em mostrar o meu valor. Passava doze horas diárias no escritório, vezes havia em que nem ao fim de semana parava. Dizia para mim mesmo que fazia tudo por amor à família, mas, se fosse honesto, era sobretudo pelo meu próprio orgulho.

Os meus pais viviam numa aldeia pequena no interior do Alentejo. Sempre levaram uma vida de trabalho duro o meu pai, na agricultura, a minha mãe, no pequeno mercado da terra. Não percebiam muito da vida da cidade nem de ambições de carreira. Às vezes ligavam-me só para ouvirem a minha voz, mas eu, quase sempre, dizia que estava ocupado.

Ao início, era por cansaço. Depois tornou-se hábito.

Recordo-me daquele inverno em que a minha mãe insistiu tanto para eu ir passar a Consoada à aldeia. Dizia que não me viam há meses. Mas eu tinha um projeto importante em mãos e decidi que não valia a pena perder tempo em viagens. Prometi-lhes que iria depois das festas.

Acabei por não ir.

Passaram-se mais meses. No trabalho tudo corria bem, deram-me uma promoção e o ordenado cresceu. Comprei um carro melhor, mudei-me para um apartamento maior. Para os outros, parecia que a minha vida estava impecável.

Mas dentro de mim começou a crescer um vazio estranho.

Certa manhã, o telefone tocou cedo. Era o vizinho dos meus pais. A voz arrastada dele denunciava logo más notícias. Foi assim que soube que o meu pai tinha sofrido um AVC durante a noite.

Foi a primeira vez, em muito tempo, que senti medo a sério.

Peguei no carro e conduzi quase sem parar. O caminho pareceu-me interminável. Só conseguia pensar em todas as vezes em que podia ter ligado, mas não o fiz. Todos os Natais e aniversários que deixei passar.

Quando finalmente cheguei ao hospital em Évora, vi a minha mãe sentada numa velha cadeira de madeira no corredor. Estava mirrada, como se tivesse envelhecido dez anos de uma vez.

O meu pai jazia ali, imóvel. Os médicos não escondiam que o estado dele era grave.

Fiquei ao lado dele, a olhar para aquelas mãos grandes e gastas de tanto trabalhar. Essas mãos construíram a nossa casa. Essas mãos seguraram-me tantas vezes em miúdo.

Foi aí que senti um choque violento: sempre tive tempo. Simplesmente nunca o dei.

O meu pai faleceu dias depois.

O funeral foi silencioso e frio. A aldeia permanecia igual à de sempre casas baixas, ruas de terra batida, vizinhos que te tratam pelo nome desde criança. Muitos vieram dizer-me, com um tapinha nas costas, que o meu pai tinha muito orgulho em mim.

Essas palavras doeram-me como nada mais.

Fiquei mais uns dias com a minha mãe. As noites eram longas e silenciosas. Ficávamos sentados na cozinha, a beber chá. Vi-a a pôr os pratos para dois, embora agora só ela ficasse naquela casa.

Só aí percebi a solidão em que viveram todos esses anos.

Enquanto eu corria atrás de dinheiro e carreira, eles só queriam poder ver-me de vez em quando.

Desde então, tudo mudou. Não larguei o emprego, mas deixei de viver só para ele. Comecei a ir mais à aldeia. Ajudo a minha mãe no que posso.

Às vezes sento-me no banco mesmo à porta e olho o quintal onde o meu pai trabalhava todos os dias. Penso como é estranho só percebermos o verdadeiro valor das coisas quando já é tarde demais.

Se aprendi alguma coisa, foi isto: trabalho, dinheiro e sucesso podem esperar.

Quem nos ama, esses não podem.

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Há alguns anos, eu era uma pessoa que acreditava que o sucesso se media apenas por dinheiro e status. Trabalhava numa empresa de construção em Lisboa e estava obcecado em provar o meu valor.
Благодаря за татко