Recordo bem aquela situação que aconteceu há muitos verões atrás, numa sexta-feira tranquila. O meu marido estava no trabalho e eu, juntamente com a minha filha Leonor, decidimos ir ao mercado da vila para comprar o que faltava lá para casa.
Depois das compras feitas, regressámos lentamente pelas ruas calcetadas à nossa casa em Coimbra. Assim que chegámos, cada uma pôs mãos à obra: Leonor tratava da limpeza e eu ocupava-me de preparar o almoço.
De repente, ouvi dos portões da rua uns travões estridentes. Eram os nossos familiares distantes que chegavam sem aviso prévio: a minha prima Matilde, o marido dela, António, e a filha deles, a pequena Beatriz, já moça de quinze anos.
Convidei-os a entrar e tratei logo de pôr a mesa. Perguntei a Matilde o que justificava aquela visita inesperada; então ela contou-me que fora ontem o seu aniversário e decidiram aparecer, por surpresa, para celebrar conosco.
Claro que estava longe de preparada para uma festa improvisada. Enquanto os convidados tomavam chá, telefonei ao meu marido, Vasco, a contar-lhe como estávamos. Sugeri-lhe que poderíamos fazer umas espetadas, ao que ele respondeu que havia carne de porco congelada própria para grelhar, esquecida no congelador.
Expliquei aos familiares que não contava com visitas, mas que faríamos espetadasia temperar a carne naquela hora, e dentro de uma ou duas horas tudo estaria pronto, exactamente a tempo de Vasco chegar do trabalho.
Os familiares anuíram com a cabeça, entraram na sala e logo se esticaram no sofá, puseram a televisão por cabo e ficaram ali a ver novelas, indiferentes.
Confesso que fiquei desconcertada com tamanha atitude. Perguntei a António se podia ajudar-me a cortar a carne para as espetadas. Ele desculpou-se dizendo que lhe doía o braço, e Matilde murmurou que ainda sentia-se indisposta após a viagem, virou-se na almofada e continuou a fixar o ecrã.
Resignei-me em silêncio e meti mãos à carne, eu e Leonor cortámos e temperámos, arrumámos tudo, preparámos a mesa e, durante todo esse tempo, não houve sequer oferta de ajuda da parte deles.
Quando Vasco chegou e lhe contei o episódio com calma, ficou surpreendido e comentou que eram atitudes muito mal-educadas, convidando-os, ainda assim, a sentarem-se para jantar.
Durante o jantar reinava um silêncio pesado, apenas se ouviam os talheres a bater nos pratos. António rapidamente agarrou três espetos de carne, devorando-os com gula. Notei na expressão de Vasco que não lhe agradava nada a cena.
Depois, ao fim da refeição, perguntei educadamente se queriam ajudar com a loiça, esperando que alguma consideração lhes viesse à consciência. Mas Matilde respondeu que tinha feito manicure naquele dia e que Beatriz também não podia por ser ainda jovem.
Como se não bastasse, anunciaram que já era tarde para regressar e que iriam passar a noite ali, solicitando dormir na nossa cama porque António precisava de colchão firme para as costas.
Foi aí que Vasco já não aguentou mais, levantou a voz:
Acham que isto é uma pensão, que cá há empregados? Vá, tratem de juntar as vossas coisas e vão para casa!
Fiquei estupefacta. Ainda tentei sossegá-lo, mas, ao ver a expressão das minhas primas, mal acreditava. Saíram apressados, meteram-se no carro e partiram com rapidez pela rua fora.







