Sai de casa, rapariga ingrata!, gritou o pai, enquanto Matilde saía porta fora. Já tinham passado oito anos desde que perdeu a mãe, e agora, aos dezoito, Matilde tinha acabado de terminar o último ano de medicina com uma medalha de ouro. Sonhava seguir os passos da mãe, mas o pai tinha outros planos, e trouxe-os numa surpresa digna de novela portuguesa anunciou-lhe o noivado com o filho do seu antigo colega de faculdade, um tal de António.
Sentindo o coração dividido, mas sem abdicar do seu sonho, Matilde arranjou um quarto num lar universitário e começou a trabalhar part-time numa pastelaria no centro de Lisboa. Numa noite, ao terminar o turno, reparou num homem moreno de fato impecável sentado à mesa. Parecia mais alguém de um restaurante sofisticado em Cascais do que numa pastelaria modesta na esquina. Matilde não conseguiu evitar pensar nisso.
No caminho para o lar, o moreno estava à espera dela junto ao carro. Chamou-a: Matilde, preciso de falar contigo. Surpresa, ela parou para o ouvir. Ele apresentou-se como o misterioso noivo que o pai tinha arranjado para o seu aniversário de dezoito anos, mas que não conseguiu aparecer a tempo.
Chamo-me Ricardo, disse ele. Vamos tratar-nos por tu. Tenho uma proposta para ti, mas ouve primeiro e depois decides. Matilde concordou em ouvir.
Ricardo contou-lhe a sua situação queria criar a sua própria empresa, mas o pai ameaçava tirar-lhe tudo caso ele não se casasse com uma jovem escolhida pela família. Propôs-lhe um casamento fictício: ela teria apoio financeiro, um quarto só dela e total liberdade, sem interferências.
Matilde ficou sem palavras e pediu tempo para pensar. Ricardo entregou-lhe o cartão e pediu que lhe ligasse quando decidisse. Dias depois, depois de ponderar tudo, Matilde acabou por lhe telefonar.
O casamento decorreu apenas com os pais de ambos presentes, numa pequena cerimónia típica portuguesa, com pão e vinho na mesa. Quando trocaram o beijo, uma faísca passou entre eles. Matilde sussurrou a Ricardo que gostava dele, e ele respondeu com um sorriso genuíno. Nos meses seguintes, aquela faísca virou chama, e acabaram por perceber que aquilo que era só uma fachada se transformou numa verdadeira história de amor como tantas que já ouvimos nas ruas de Lisboa.






