O pai não é pior do que a mãe
O segundo marido de Mariana apareceu na sua vida durante um campo de voluntariado à beira do Tejo, onde tentavam proteger ninhos de aves raras dos caçadores furtivos. Ela chegou com o filho de dez anos, Simão.
António era o coração e o motor do projeto um biólogo apaixonado, com olhos cheios de fogo. Os passeios invulgares eram organizados por ele e um amigo de infância, tanto refúgio como fonte de algum rendimento extra.
Três dias depois, Mariana escorregou nas pedras húmidas e torceu o tornozelo. António revelou-se não só entusiasmadíssimo com aves, mas também médico prático. Falou baixinho, ajeitou-lhe o pé, enfaixou-o e levou-a até à tenda, ficando toda a semana a tratá-la como uma filha.
Enquanto Simão, deliciado, andava com os cientistas, os adultos perceberam que algo diferente surgia entre eles. Por terem passado ambos por desilusões, contiveram-se, sem se largarem à euforia de um romance de verão.
Regressada de férias, Mariana imergiu no trabalho com afinco, tentando esquecer o que considerava uma fantasia passageira. António pensou igualmente que não passava de um caso de aventuras, mas, passadas duas semanas, já procurava o endereço dela.
Meio ano depois, foram viver juntos. No ano seguinte, casaram-se.
António atirou-se de corpo e alma ao papel de pai sempre quis filhos, mas o tempo escapava-lhe entre trabalho e paixões científicas. Simão, criado pela mãe e avó, entregou-se logo ao padrasto, que passou a chamar de pai em pouco tempo. Compraram um apartamento amplo, com vista sobre o jardim da Estrela, e começaram a sonhar com um filho em comum. Mariana sonhava, há muito, ter uma filha; o desejo encontrou eco no marido. Decidiram o nome: Joana. Tudo parecia perfeito.
De repente, nasceu uma dupla com Joana, veio também Francisco. Mariana mergulhou no caos de fraldas, papas e noites brancas. A mãe ajudava como podia. António, para sustentar a família crescida, foi contratado por um grande grupo farmacêutico, trabalho de muitas viagens longas e relatórios sem fim. Depressa se viu a não querer voltar para casa, onde choravam bebés e onde a mulher, exausta, não tinha energia para uma conversa inspirada.
Achava que, como provedor, merecia espaço próprio e descanso. Mariana, pelo contrário, defendia: criar filhos é para os dois e António devia praspar parte das tarefas diárias. Discutiam cada vez mais, afastando-se. Raramente havia diálogo que não acabasse numa troca de acusações sobre o papel de cada um.
A salvação chegou em forma de infantário: antes dos três anos dos gémeos, Mariana conseguiu voltar à arquitetura. Simão tornou-se um grande aliado. A tensão aliviou-se. Mas não por muito tempo.
Dois anos depois, António apaixonou-se novamente. Desta vez por uma colega nova, tão entusiasmada com o trabalho, tão livre e viva como ele fora em tempos. Depois da traição, António, honestíssimo até ao ponto de dor, confessou tudo a Mariana e anunciou a separação.
Sempre ajudarei a ti e às crianças, prometo. A questão da casa resolveremos este ano. Mas agora peço-te que leves os miúdos e fiques com a tua mãe. O divórcio trato eu.
E não te lembra que comprámos a casa juntos, a pensar numa família grande? respondeu Mariana, contida.
Não compliques! Quero que tudo corra bem! Atirou ele, perdendo a calma.
Tenho de pensar, foi tudo o que ela disse.
Passou uma semana a pensar. Depois, informou da decisão:
Apaixonaste-te por outra. Acontece a muitos. Mas os filhos não são só meus, são teus também. E serão nossos para sempre, não é? Não vou disputar a casa, apesar de ter direito podes lá viver com a tua nova companheira. Mas vamos dividir responsabilidades: levo Simão e Joana. O Francisco fica contigo.
António ficou estático.
Estás a falar a sério? Não consigo criar uma criança tão pequena sozinho! Trabalho! Ele precisa da mãe!
Ah sim? Mariana arqueou a sobrancelha. Tanto querias filhos, uma família a sério. Aqui está o teu sonho. Eu também trabalho, sabias? Queres recomeçar vida nova e deixar-me três filhos? Não aceito. Ao menos um fica contigo. Assim é justo.
Seguiu-se uma discussão feroz.
António, furioso, bateu a porta e foi contar tudo a amigos, família, colegas. Todos ficaram em choque. Telefonaram a Mariana, criticaram, suplicaram. Mesmo a mãe dela assegurou que nunca a perdoaria por isto. Mariana manteve-se firme: Porquê, o pai é menos que a mãe? Ele ama-os! E Francisco já não mama, é um miúdo independente.
António, atordoado, sem escapatória, aceitou. A mãe recusou tomar conta do neto não tinha saúde. A nova paixão, ao ver a rotina de pai solitário, desapareceu em menos de um mês. Não fazia parte do plano lidar com o filho de outro.
***
Três meses passaram.
Numa noite, Mariana veio buscar Simão, que passara o fim de semana com o pai. António abriu-lhe a porta. A casa estava limpa, cheirava a sopa; Francisco, no chão, construía cidades de legos.
António parecia cansado, mas sereno.
Entra, murmurou.
Simão foi pôr as coisas na mochila; eles ficaram na cozinha.
Sabes, começou António, olhando fixamente a bancada, nas primeiras semanas odiei-te. Achei que era a vingança mais cruel. Mas depois depois fui conhecendo o Francisco. Descobri que gosta de tomates e laranjas. Tem pavor do aspirador. Adora legos. Faz um barulho estranho a dormir. Só adormece se lhe faço festas nas costas.
Ergueu os olhos.
Tornei-me pai dele. De verdade. Não só aos fins de semana todos os dias.
Mariana ficou calada.
Não te vou pedir desculpa pelo que houve. Mas agradeço. fez um gesto para o filho. Por isto. Por nós.
Eu sabia, disse Mariana, devagar.
Sabias o quê? Que eu aguentava?
Isso já eu sabia. Mais que isso nunca duvidei que irias amá-lo. De verdade. Só assim. Sempre fomos exigentes, António. No amor, no trabalho. E afinal, também na parentalidade.
Então, foi vingança?
Mariana sorriu e, já a sair da cozinha, disse:
Não. Foi a única forma de voltar a ver-te como eras quando me apaixonei. Acho que consegui.
Fechou a porta suavemente, deixando António na casa tranquila, com o filho. Finalmente, ambos entenderam que, embora o casamento tivesse caído, a família de uma forma estranha, quase mágica resistira.






