Em segundo lugar
Querido diário,
Hoje, quando cheguei a casa, vi a Mariana parada na entrada com aquele ar cansado. O meu casaco já estava vestido, as chaves tremiam nos dedos. Ia sair de novo, e ela ficou ali, presa ao puxador do armário como se aquilo a pudesse segurar melhor ao chão.
João, vais sair outra vez? perguntou ela, a voz quase sumida, mas carregada de preocupação.
Sim, respondi, sem me virar. A Inês precisa ir ao hospital. O Tiaguinho está outra vez com febre e ela própria mal se aguenta em pé.
Senti aquele peso no peito. Ela avançou, tentando manter o tom firme, mas a voz vacilou:
E os nossos filhos? Disseste ontem que levavas o André ao parque, que lia uma história à Matilde antes de dormir. Eles passaram o dia à tua espera! Como consegues ser tão indiferente aos teus próprios filhos?
Baixei a cabeça, passei a mão pelo cabelo como para alinhar os pensamentos. Não me sentia propriamente culpado. Sempre detestei justificações, ainda mais quando acredito estar a fazer algo certo.
Oh Mariana, sabes bem suspirei, desviando o olhar. Ela não tem mais ninguém. Precisa de ajuda. E quanto ao André e à Matilde podem ir ao parque outro dia. Ou lês tu a história. Eles estão bem de saúde.
As palavras dela ficaram no ar como um nevoeiro denso. Vi-lhe a face endurecer, e ela deu mais um passo, as mãos agora cerradas em punho.
Eles em breve deixam de se lembrar de ti! gritou, com uma dor aberta e impossível de disfarçar. Quando foi a última vez que estiveste com eles, de verdade?
Fiquei calado. Olhei para o chão, sem saber o que responder ou talvez sabendo, mas sem coragem. E murmurei:
Não a posso deixar assim. Está mesmo desesperada. Ela precisa mais de mim do que tu ou as crianças.
Mariana riu, mas foi um riso seco, amargo. Abanou a cabeça tentando segurar as lágrimas, como se a indiferença fosse um cobertor.
Pois claro. Nós podemos sempre esperar, não é? Como sempre.
Ia responder senti os lábios tremerem, os ombros tensos , mas em vez disso sacudi o ar com a mão e saí. O cheiro do meu aftershave ficou mezclado no corredor, como um fantasma breve.
Ela sentou-se no banco da entrada, pernas trémulas, abraçando-se a si própria. Fiquei a pensar: de novo, deixei para trás aquela dorzinha dela, que eu já sabia distinguir ao longe.
Os dias passaram um atrás do outro, arrastando-se. Levar o André ao infantário, Matilde à escola, roupa para lavar, chão para aspirar, jantar para fazer. As noites pesavam. Eu quase não aparecia. Às vezes, já quase a dormir, Mariana ouvia as minhas chaves rodar na fechadura. Ela entreabria os olhos na esperança vã, mas de manhã só ficava a almofada vazia e o aroma abafado do café.
O tempo foi-se juntando às semanas e a Mariana recheava-se de uma tristeza silenciosa. Tentava convencer-se de que era uma fase, só uma fase. Mas todas as noites, na solidão que se deitava ao lado dela, vinha uma pergunta: e se for para sempre?
Numa dessas manhãs, olhando a espuma deslizar nos pratos, compreendeu: já não aguentava mais. Não podia ficar calada, fingir que tudo estava bem. Com uma coragem feita de raiva e angústia, pegou no telemóvel e marcou o número que nunca tinha chamado.
Olá, disse, tentando manter a voz estável. É a Mariana, mulher do João.
Do outro lado, um silêncio de segundos que pareceu uma eternidade. Os nós dos dedos brancos de tanta força. O sangue a martelar nas têmporas, a ansiedade crescendo.
Enfim, ouviu a voz da Inês serena, segura, mas tensa:
Sim, eu percebo. Em que posso ajudar?
Fechou os olhos, força a crescer subitamente. E as palavras saíram, duras:
Podes parar de te aproveitares da bondade dele? saiu quase a gritar. Ele tem uma família. Filhos. Fazes ideia do que ele está a perder em casa?
Um breve silêncio lá do outro lado. Imaginou-a, talvez, de café na mão, olhar gasto na janela, sem fazer ideia da dor que Mariana carregava.
Compreendo a tua preocupação, respondeu Inês, suave mas com a certeza de quem não recua. Mas o João oferece-se para ajudar. E, convenhamos, neste momento não vejo razão para recusar. Com o miúdo doente, sozinha, é difícil.
A Mariana quase esmagou o telemóvel na mão. Se relaxasse, ele caía. O nó na garganta ameaçou saltar-lhe da boca.
É só porque é cómodo, sussurrou, de olhos fechados. Aproveitas-te dele ser bom.
Preciso mesmo de apoio, respondeu-lhe Inês, sem hesitar. E o João é um homem decente. O género de homem ideal.
Mariana soltou o ar num fôlego de desespero e raiva. Não concebia que aquela mulher falasse assim do marido que devia estar em casa, com ela e as crianças.
Tu nem imaginas o que é destruir uma família, pois não? perguntou, querendo segurar a voz, mas ela falhou.
Desta vez Inês demorou-se a responder. Quando falou, foi gelada:
Não destruo nada. Só aceito ajuda. Quem decide é o João. E, pelo visto, ele já escolheu. Não voltes a ligar, por favor.
A conversa morreu ali. Mariana ficou, ainda, a ouvir o silêncio do tu-tu-tu, a mão suspensa no ar.
Foi até à janela, encostou a testa ao vidro frio. Lá fora, o mundo seguia o seu ritmo. Crianças riam ao longe, carros passavam, vizinhos cumprimentavam-se. Mas, no mundo dela, alguma coisa tinha ruído para sempre.
Chega. Não ia aguentar mais.
No dia seguinte, a Mariana começou a arrumar as coisas. Sem pressas, sem lágrimas. Dobrava a roupa, separava brinquedos do André e da Matilde, contava livros, organizava os bonecos preferidos.
Já não tinha forças para chorar. Guardara as lágrimas para noites anteriores. Agora precisava era de ser forte para ela, para os filhos.
Quando o táxi chegou, a Matilde, calada durante toda a arrumação, não aguentou:
Mãe, vamos para onde? perguntou de mansinho.
A Mariana baixou-se, pegou-lhe nas mãos pequenas.
Vamos à casa da avó. Vais gostar. Lembras o quanto gostas dela?
A Matilde assentiu, mas vi-lhe nos olhos as perguntas mudas.
O André já percebia tudo. Mais crescido, sério demais para a idade, largou a pergunta que mais custava:
O pai não vem connosco? olhou Mariana directamente nos olhos.
Ela respirou fundo, fazendo uma festa no cabelo dele.
Não sei, André. Agora precisamos estar juntos os três. Precisamos de tempo.
O André aceitou, agarrou o seu carrinho favorito mais forte. Ficou ela ali, parada, a olhar uma última vez pela casa. Tantas memórias, sonhos, gargalhadas. Mas já não era um lar.
Pegou nas malas, sentou os filhos no carro. Não olhou para trás. Sempre em frente, para o futuro que pudesse construir com eles, com esperança, por mais incerta que fosse.
***********************
A avó Alice abriu-lhes a porta antes sequer de baterem. Não houve perguntas, só braços abertos para os miúdos, e depois para a Mariana. Naquele abraço, veio a promessa silenciosa: estão salvos aqui.
O aperto no peito da Mariana começou a abrandar. Por fim, entrou, fechou a porta atrás de si, e rebentou em lágrimas silenciosas, fortes, antigas. Sentou-se na cozinha, encostada ao ombro da mãe, chorou como há muitos anos não chorava; como se fosse menina outra vez, como se tudo pudesse ser resolvido naquele abraço maternal.
Alice fez chá. Só o som da chaleira já acalmava. O cheiro do chá quente resgatava-a devagar.
Cinco dias passaram, sem notícias do João. Nem uma mensagem sobre as crianças, nem a perguntar como estavam. Parecia que nada tinha acontecido.
No sexto dia, o telemóvel tocou. O nome dele no visor gelou-a, mas atendeu.
Onde estão? a voz dele era incerta, como quem se apercebeu agora do vazio.
Em casa da minha mãe. Fomos embora, respondeu Mariana, com firmeza.
Porquê? havia espanto ali, só espanto, como se nunca lhe tivesse passado pela cabeça uma razão.
Ela respirou fundo. As palavras saíram sóbrias, claras:
Porque tu já não estás connosco. Já há muito tempo.
Silêncio. Ouvia-lhe a respiração pesada.
Eu vou aí, murmurou ele.
Não venhas, disse ela suavemente. Não queremos ver-te.
Ela desligou, pousou o telefone com calma. A mãe, sentada em frente, disse baixinho:
Ele vai perceber. Só não sei se vai mudar.
No dia seguinte, Mariana ficou sozinha na cozinha, chá frio à frente, o sol a romper tímido pelas cortinas. Distraía-se a ver as folhas de chá flutuarem.
A campainha soou. Levantou-se devagar, espreitou pelo óculo. Era o João.
Abriu a porta. Ele trazia o rosto cansado, olheiras fundas, parecia não dormir há dias.
Eu só agora percebi que vocês foram mesmo embora, balbuciou.
Mariana esboçou um meio sorriso amargo.
Já passou uma semana, murmurou. Impressionante a tua atenção. Em nenhum momento te lembraste de nós?
Ele tentou um discurso, mas faltaram-lhe as palavras.
Pensei que estavas em casa de alguma amiga, nem sei ficou mudo um segundo antes de acrescentar: A Inês disse que falaste com ela.
Mariana cruzou os braços.
E o que te disse?
Que estás com ciúmes. Disse que lamenta.
Ela soltou uma gargalhada amarga:
Lamenta? Ela apanhou-te e tu deixaste.
Nisso, os miúdos regressaram do quintal. Quando viram o pai, pararam à porta do corredor. A Matilde, doce, avançou primeiro, baixinho:
Vais embora de novo?
O André, sempre contido, murmurou com seriedade:
Dizes sempre que ficas, mas sais.
O João quis aproximar-se, mas Matilde afastou-se, encostando-se à parede, olhos húmidos. André virou costas, olhando pela janela.
Eu vou mudar, prometo, arriscou o João, a voz fracamente segura. Só peço que tentem entender. Ela precisa de mim, isso vai acabar em poucos meses
A Mariana abanou a cabeça. Só cansaço havia no gesto.
Já chega. Não posso viver com quem prefere estranhos à família. Não volto a dizer às crianças que o pai vai chegar e ele não chega. Nem quero que fiquem à janela à tua espera.
Mas eu amo-vos! tentou ele, estendendo a mão.
Então porque estamos sempre em segundo lugar?
Ele calou-se. Não havia mais palavras, nem desculpas.
Vai-te embora, João. Não voltes.
Ele olhou os filhos uma última vez, hesitante, mas ninguém o chamou de volta.
A porta fechou-se atrás dele. O som do trinco foi definitivo.
A Matilde desfez-se em lágrimas. A Mariana apressou-se a abraçá-la, sussurrando-lhe que tudo ia ficar bem. O André juntou-se, apertando-lhe a mão. Não precisavam de conversas, só dos gestos.
Íamos consegui-lo juntos, naquele novo começo.
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Os dias passaram devagar, cada manhã uma batalha para acreditar que seria mais fácil. A Mariana ocupava-se: ajudar nos trabalhos de casa, limpar, cozinhar, levar o André ao futebol, a Matilde ao ballet. Para não pensar, para não se afundar mais.
Começou até a aceitar traduções para fazer à noite. Era pouco, mas ocupava-lhe o espírito. A mãe ajudava em silêncio, ficava com as crianças, sentava-se à mesa com uma chávena de chá, sempre disponível.
Duas semanas depois, chamada inesperada: era a Inês. A Mariana atendeu.
Mariana eu sei que não deves querer ouvir-me, mas a voz dela denunciava vulnerabilidade. Já não conto mais com o João. Ele deixou de me ajudar.
Mariana ficou atónita, mas manteve-se firme.
E então?
Esteve a viver connosco. Mas ontem arrumou tudo e disse que se sentia um traidor.
A Mariana bufou não por raiva, mas cansaço.
Ligas para que eu tenha pena dele?
Não. Para pedir desculpa. Usei-o porque não queria estar sozinha errei. Não tinha o direito.
Obrigada por dizeres, mas já não interessa, respondeu Mariana.
Interessa sim. Ele ainda vos ama.
Mariana cerrou os olhos, sentindo o velho aperto, mas não deixou sair emoção.
Se amasse, nunca teria posto outros à frente de nós. Nem reparou, durante uma semana, que não estávamos lá.
Do outro lado silêncio. Por fim, Inês balbuciou:
Perdoa-me.
Quando as crianças dormiam, Mariana ficou a pensar no que restava dela e do passado. Sabia que aquilo era o fim não da saudade, mas da dúvida. O futuro teria de ser por ela desenhado, agora.
O João apareceu só um mês depois. A mãe já tinha ido ajudar a irmã noutra cidade, mas ligava todos os dias. Tínhamos encontrado um pequeno apartamento cá em Lisboa. Tinha o essencial e uma paz nova.
Numa dessas noites, voltando do trabalho, vi o João sentado num banco à porta, um saco de maçãs no colo.
Só queria saber como estão, disse, os olhos baços.
Estamos bem, respondi, directo.
Fico feliz. Não volto. Só algum dia perdoas-me?
Pensei nos dias difíceis, mas também na alegria discreta desta nova casa. Olhei-o com sinceridade:
Já te perdoei. Mas não quero voltar atrás. Não há espaço para isso.
Ele aceitou. Virou costas e foi embora, desaparecendo na penumbra dos candeeiros.
Subi as escadas. O cheiro de bolos da vizinha da frente fez-me sorrir. Cá em cima, ouvi as vozes da Matilde e do André entre gargalhadas, na azáfama do serão.
Fechei a porta atrás de mim. Era o som de um lar, finalmente livre da ansiedade e do medo. Aqui já não se esperava à janela, nem se achava que felicidade era coisa distante.
Aprendi, neste tempo todo, que amar é escolher todos os dias quem está à nossa frente. Se alguém te põe sempre em segundo lugar, mereces ser prioridade. E foi isso que fui aprender, tarde, mas finalmente a tempo.
Lisboa, Março de 2024.







