Miúdos mimados
Foste tu que o estragaste! Cedes-lhe em tudo, claro que ele faz o que quer contigo! Leonor, assim não pode ser! Estragaste o miúdo por completo! Tal como eu te estraguei a ti na minha altura! Não podes culpar ninguém! Eu também não sou nenhuma santa! Isto agora é só filhos mimados! E nem venhas com aquela conversa do já sou adulta! Sempre foste uma criança e continuas a ser! Não sabes pensar com cabeça e tomar decisões certas! Dona Matilde, exasperada, bateu a porta do frigorífico, quase teve um ataque quando viu o íman com a foto da filha e dos netos cair ao chão.
Aquela fotografia foi tirada no verão passado no Algarve, onde, por alguma razão, este ano não foi convidada. Durante anos acompanhou os miúdos nas férias. Dava uma mão aos netos, descansava o corpo na praia, aproveitava para fazer uns contactos úteis. Este ano ficou a ver navios.
As razões que a filha lhe deu para não a levar pareceram-lhe, no mínimo, estranhas.
Mãe, este ano a coisa está apertada. Vamos só nós os quatro. Mais tarde compramos a tua viagem, assim podes ir onde quiseres! Começa a pesquisar destinos, está bem?
Mas Leonor! E os miúdos? Quem é que vai tomar conta deles?
Oh, mãe, o Diogo já tem idade para tomar conta de quem quiser. E a Mariana fica sempre comigo. Desta vez não dá para aquele hotel chique, portanto temos de cortar em alguma coisa. A Mariana precisa mesmo do mar, já sabes, depois fica o ano inteiro sem ficar doente. Se não temos dinheiro para hotel bom com animadores, vamos à moda antiga! Alugamos uma casa e cá nos desenrascamos.
Pois, e eu nem faço parte dos planos!
Dona Matilde não gostou nem um bocadinho daquela realidade. Ir sozinha para uma estância termal onde o único programa é bailarico para maiores de idade e a conversa é sempre do mesmo? Nem pensar! Em hotéis bons ela sentia-se outra, com estrangeiros simpáticos pelo meio e gente de nível no geral! Com a sua formação e a capacidade de falar duas línguas, só lhe restava escolher. Mas este ano não foi o caso…
Ó mãe, tu entendes. Férias são mais do que arranjar um quarto. É voos, refeições, tudo junto.
Agora parece que sou eu que vos como tudo! Matilde ficou mesmo ofendida.
Mãe, por amor de Deus! Porque é que tenho de te explicar o básico?! Não há dinheiro para irmos todos! Disseste bem: as obras do teu apartamento, problemas de saúde o ano passado, explicadores para o Diogo… Estás a ver o nosso orçamento, não é? Queres que adie as férias das crianças? Ou preferes que eles fiquem a ver a praia pela televisão? Eu também estou morta, sabes! Tu viste bem como andei todo o ano…
Vi, sim! Vi que és uma mãe negligente! Não tens tempo nenhum para os miúdos! Fica tudo em cima de mim e da tua sogra, a D. Celeste. Buscar a Mariana à creche, o Diogo à escola, dar-lhes de comer, levá-los às actividades…
Mãe, não exageres! O Diogo vai treinar sozinho. Só levas a Mariana à dança, e nem é todos os dias. E se quiséssemos até dava para dispensar isso agora a creche também tem aulas extra de dança, mas tu insististe: era importante para a miúda desenvolver-se.
Agora sou eu a culpada? A voz de Dona Matilde subiu um tom, e levou a mão ao peito. Que família ingrata! Eu faço tudo e nunca está bem!
Mãe, não digas isso… Leonor sentiu um aperto no peito e encostou a testa ao vidro da janela. Agradeço tudo o que fazes, mãe, mas não mistures as coisas, por favor…
Matilde não quis ouvir mais nada. Saiu emproada, largou no meio da sala o saco do novo fato de banho e ficou ofendida.
Era profissional do amuar. Não precisava de fazer dramas nem armar encrenca; bastava deixar de atender o telefone, ignorar mensagens, e depois, quando se dignava finalmente a responder, suspirava com ar de mártir e dizia num tom que se ouvia mal:
Leonor, e se o coração parar, o que é que isso significa?
Nessas alturas, Leonor largava tudo e ia a correr até ao Ribatejo, para a casa da mãe, onde Matilde se enclausurava após cada zanga para deixar a alma descansar. Essas idas acabavam com Leonor exausta, a chorar baixinho no quarto, sem perceber porquê a mãe a tratava assim.
Diogo entrava pé ante pé, cobria a mãe com uma manta e punha-lhe a mão no ombro:
Mãe, deixa lá isso. Não vás mais. A avó refila, mas depois aparece cá sozinha.
Oh, Diogo! Quem me dera ter essa certeza…
Leonor bem sabia com quem lidava. Desde pequena que a mãe era assim. Sensível, culta, leitora compulsiva, com gosto por música. Mas cheia de mágoas. Capaz de cobrar na perfeição em português, em francês, em inglês, o que fosse preciso. E para a pequena Leonor, o pior castigo era quando a mãe dizia calmamente:
Leonor, era bom refletires sobre o que fizeste. Vai para o teu quarto, filha.
Nunca, em momento algum, a chamava filha num tom carinhoso se estava bem-disposta. Momentos assim, eram raros.
Matilde via o mundo de copo meio vazio. Palavras como insuficiente, fracasso, isso era o pão dela. Todos eram menos capazes: colegas, amigos, marido, família, vizinhos, nunca ninguém lhe chegava aos calcanhares.
Por muito tempo, o rótulo de incapaz não se colava à filha. Pequena Leonor, orgulho e beleza, com três anos já lia e com quatro tocava no piano que a mãe lhe ofereceu, dizendo com ar sonhador:
Ouço música, mãe!
Matilde enchia-se de orgulho. Até que, um ano, Leonor apanhou uma negativa no ditado, no 6º ano, sem razão aparente. Nem a deixou justificar-se, limitando-se a dramatizar.
Filha, desiludiste-me! Vai para o teu quarto!
Só a avó ajudou Leonor a perceber que o problema tinha sido outro: tudo por causa da primeira menstruação, um assunto que a mãe nunca quis abordar, porque não era preciso, e ela nem sabia que perguntas fazer.
Discutiu com a sogra até ficar com uma enxaqueca, resumindo tudo a:
Leonor, esses temas discutes só comigo, percebes?
Mas eu não sabia…
Da próxima vez, pensa pela tua cabeça!
Leonor nunca percebeu bem a culpa que carregava.
Foi aí que percebeu, mesmo que só de leve: a mãe não era nenhuma santa. E nem sempre punha os filhos à frente de tudo, como dizia.
Daí para a frente, veio mais desilusão atrás de desilusão. Matilde não escondia mais o seu desagrado. Começou a aparecer pela casa com uma faixa de seda na cabeça, para as enxaquecas, dizia ela. Leonor, só de ver o adereço, já sabia: vinha tempestade.
Matilde nunca gritava. Sentava-se com pose no cadeirão, dedos na testa, e o gelo na voz esfriava qualquer alma:
Leonor! Estás a arruinar-me
Porquê? Nunca explicava. Leonor que adivinhasse. O motivo podia ser qualquer coisa.
Queria ser médica, para seguir a tradição? A mãe abominava.
Não percebes? O meu marido era cirurgião, toda a vida a trabalhar, quase não o via em casa! Não é profissão para mulher, Leonor! Não repitas esse erro!
Mas a avó dizia que salvar vidas é bonito! O pai também quis ser médico…
Não interessa o que ela diz. O que interessa é o resultado! Eu fiquei viúva, tu cresceste sem pai. Ele não aguentou a pressão! Tens de pensar nos que ficam, filha!
A discussão arrastou-se até Leonor entrar na Faculdade de Medicina. Seguiram-se seis meses de silêncio, só sim ou não nas poucas conversas de cozinha.
O processo repetiu-se quando escolheu o marido. Para Matilde, nunca estaria à altura.
Não havia alguém melhor, filha? Nem é pela carteira! Vocês são tão diferentes! O teu marido nem sequer sabe quem é o Camilo nem ouviu uma ópera de Verdi!
O Gonçalo é boa pessoa, mãe… tentava não discutir, mas não ficava calada.
De boas intenções está o inferno cheio! Vais perceber tarde demais!
No casamento, Matilde enxugava as lágrimas debaixo de olhos pintados, dizendo a toda a gente:
Vai ser difícil para eles. Mas para isso servem as mães, para ajudar! Eu estarei sempre por perto.
Por sorte ou não foi ali que Matilde conheceu o segundo marido, o Sr. Álvaro, primo afastado do noivo, major na reserva, postura impecável e ainda sabia francês.
Ai que sotaque, onde aprendeu?
Minha mãe nasceu em Paris, filha de diplomata.
Encantada, Matilde esqueceu os lenços e dedicou-se à nova paixão Álvaro tinha uma casa enorme perto de Leiria, onde encontrou mil e uma ocupações e deixou a filha respirar.
Foi feliz neste segundo casamento. O Sr. Álvaro adorava-a, ela floresceu, até ficou mais leve. Recebeu o nascimento do neto, depois da neta, com enorme alegria.
Leonor! Que netos maravilhosos! O Diogo é um génio, sai ao avô! E a Mariana… tem o meu nariz e os meus olhos!
Leonor só sorria, genuinamente contente por ela.
Contrariando todos os prognósticos, o casamento de Leonor com Gonçalo foi sólido. Gonçalo, trabalhador, acabava por dar-se com a sogra sem nunca entrar em discussões. Compraram casa, contra vontade de Matilde:
Nem pensem em crédito à habitação! Vai ser duro, Leonor não tem tempo para tudo!
A empresa está bem, mãe. E a Leonor quer mesmo voltar ao hospital. E a minha mãe vai ajudar com os miúdos.
Os teus filhos não têm só uma avó! ripostava Matilde, levantando o queixo em desafio.
O sonho de Leonor tornou-se realidade: voltou às operações, os filhos cresceram, compraram casa, e parecia que tudo se encaixava. Mas, de repente, o Sr. Álvaro adoeceu e, apesar dos esforços de Leonor, não resistiu.
Ó Álvaro… Como pudeste? Matilde ficou de rastos. Só agora é que me sentia realmente mulher! Porquê tirar-me isso tão cedo?
A quem culpou? Só ela saberá.
Passou a visitar os cemitérios com dois ramos de cravos brancos para todos os homens da sua vida. Aos vivos, tornou-se mais insuportável.
Leonor tentava preencher o vazio da mãe: férias, fins-de-semana, festas Matilde estava sempre. É natural! Eu sou parte da família! dizia às amigas.
Ó Matilde, às vezes a Leonor pode querer estar só com o marido e os filhos…
Ridículo! Eu não controlo a minha filha! Eu só ajudo! Como é que ela se aguentava sem mim?
O problema apareceu quando o Diogo cresceu. O controlo da avó exasperava-o. Gostava dela, mas a constante pressão irritava-o.
Diogo! Outra vez essa música horrível?! Como é que consegues ouvir isto? Matilde invadia o quarto e torcia o nariz. É insuportável!
Voltava à faixa de seda, mas com o Diogo não funcionava. Ele preferia resolver à maneira dele.
Mariana! Anda daí! Vamos cantar e dançar!
Quando Matilde apanhava os dois às cambalhotas ao som dos Da Weasel, ficava em choque.
Diogo A tua irmã? Isso não! Vou telefonar à vossa mãe!
Telefonas mas é ao pai, avó! A mãe está em cirurgia, sabes bem!
Gonçalo, sempre tranquilo, pegava na sogra, deixava-a em casa e depois cantava com o filho, que sonhava em mostrar o seu talento ao mundo.
O talento do Diogo pedia espaço, e Leonor decidiu comprar-lhe uma guitarra.
Não penses nisso, Leonor! Queres livrar-te de mim?
Oh mãe…
Não aguento! O miúdo precisa é de estudar!
Mas ele tem boas notas, mãe! E foi sempre defensora do desenvolvimento dos miúdos!
Mas não era isto que eu queria dizer e tu sabes…
A discussão durou dias. Gonçalo, do lado da mulher, e Matilde voltou ao velho truque: não atendia chamadas, não abria a porta, tinha ficado com todas as chaves para não perder.
Só que, desta vez, Leonor perdeu a paciência.
Não quer falar, não fale! suspirou, a lavar a loiça ao domingo. No jeito, o caneco preferido do filho caiu ao chão, partindo-se em pedaços. Aqueles cacos coloridos, a brilhar no chão, foram a gota de água.
Era amor, sim, mas de outra maneira. Tinha de deixar de doer.
Diogo! chamou ela lá para cima. O rapaz desceu as escadas, curioso com o tom da mãe.
Que se passa?
Já escolheste a guitarra?
Posso mesmo? Olhos a brilhar.
E deves! Qual queres?
Baixo! Mas tens a certeza?
Absoluta. Não é isso que dizes?
É! Então e a avó?
Vai dizer que somos miúdos mimados… esquece isso! Vai buscar a Mariana!
Aonde?
Como onde? Ao shopping! Onde se compram guitarras?
Já vou! Vou só chamar a Mariana, que ela ajuda a escolher!
A vê-los, Leonor pensava: o meu rapaz é mesmo generoso. Que adolescente convida a irmã de seis anos para o ajudar a comprar uma guitarra só porque quer ouvir a opinião dela?
Guitarra comprada. O quarto virou sala de ensaio e os amigos passavam lá tardes, com material comprado entre Gonçalo e outros pais. Quando o vídeo da banda do Diogo com a Mariana a cantar se tornou viral no TikTok, fez-se luz.
Leonor sorria, orgulhosa, a ver os miúdos tão ativos, sentindo-se em paz. Cansada do hospital, chegava, e era acolhida pelos filhos, as histórias, os sonhos.
Matilde, essa, esperava. Arrumava a casa, cozinhava, e esperava pelo pedido de desculpa habitual. Mas as semanas passaram, a filha não apareceu.
Caiu na zanga surda. Depois, percebeu que, pela primeira vez, alguém lhe retribuía. Que não podia controlar tudo, que a filha lhe resistia. Com os outros cortava sem piedade. Com Leonor era diferente. Amava-a, no fundo.
Mês após mês…
Até que percebeu: não iam aparecer. Nem pedir desculpa.
Custa. Não entendia: como podia a filha ser tão fria? Dediquei-lhe a vida, criei os meus netos! Porquê isto agora? Por causa de uma palavra mal dita, vai tudo por água abaixo?
Farta de se lamentar pela casa, voltou à casa de campo a ver se encontrava paz. Zangada, sozinha, caminhava pelo terreno, perdida de saudades, mas incapaz de admitir que a responsabilidade era também sua.
O verão transformou-se em outono, chovia, e Matilde percebeu que não valia a pena esperar.
Nesse dia em que o coração finalmente abrandou, estava na cozinha, chá na mão, a ver as crianças dos vizinhos a brincar de galochas no quintal ao lado. Quis, há muito, um muro alto, mas o Álvaro preferia grade trabalhada, o que a obrigava a cumprimentar os vizinhos e assistir à vida deles, mesmo que sem vontade.
Os vizinhos, professores universitários, com cinco netos educados, mostravam-lhe o que era uma família feliz. Ao ver o mais novo saltar nas poças, Matilde pensou: ou me levanto e vou, ou daqui a pouco é a Leonor a comprar-me cravos brancos. Vale o orgulho tanto assim?
Largou a chávena. Em minutos, meteu-se no carro e fez-se à estrada.
Domingo, pouco trânsito, entrou no bairro onde estava a casa da filha e, de repente, deu-lhe um nervoso miudinho. Era a primeira vez que dava ela o passo para fazer as pazes, a pôr a mágoa de lado. Mas o nervoso não a deixou recuar.
Bastou abrir o portão, seguir pelo jardim. A porta estava entreaberta; entrou, subiu ao alpendre para bater mas um estrondo de batería e guitarras fez-se ouvir lá de cima. Espreitou e viu: Leonor a dançar na cozinha, colher de pau na mão, a cantar aos gritos uma música sobre bonecas e bruxas.
Espetáculo, mãe! Vamos gravar um vídeo também?! Mariana largou os copos no balcão, batendo palmas.
Leonor pousou a colher, encheu copos de sumo e entregou dois à filha.
Toma! Dois para levares lá acima, eu levo os outros. Os rapazes devem estar com sede.
Já ia subir as escadas quando engrenou: Matilde estava ali, de pé na porta.
O tempo parou. Olharam-se, a ver o que se diria.
Mariana ficou de boca aberta, mas a mãe foi mais rápida:
Olá mãe! Olha, dá uma olhadela à carne, por favor? Vai já ser almoço, assim que acabarem de tocar. Tens fome?
Matilde pousou o casaco, um sorriso tímido.
Tenho, sim…
Ótimo! Leonor piscou o olho à filha. Mariana, mexe-te! Ou já te esqueceste da cara da avó?
Mariana sorriu e abanou a cabeça:
Não, avó! Eu saí da dança! Agora vou aprender a cantar na escola de música! O Diogo diz que tenho jeitinho!
Matilde sentiu as lágrimas a crescer, e baixou-se para tirar os copos das mãos da neta:
Dá cá, leva-me lá acima para ver a guitarra do Diogo. É bonita?
Muito! Vermelha! Fui eu que ajudei a escolher! Anda, vou mostrar!
E lá subiu. Leonor acenou com a cabeça.
Então? Anda, mãe. Já fizeste a parte mais difícil…
Matilde respondeu com um aceno, e lá foi até ao quarto do neto, que a recebeu como gente grande, mostrando-lhe orgulhoso a guitarra.
Alguma coisa mudou.
Não tudo ninguém muda de repente. Haverá muitos desentendimentos, sobrará muito por dizer. Muitas vezes Leonor suspirará ao ouvir a mãe a deitar-lhe moral, e Matilde vai perguntar-se onde falhou.
Mas uma coisa ficou clara para aquela família: se queres ser ouvido, aprende a ouvir o outro. E assim, no fim, cada qual encontra o seu lugar. Com os nossos por perto. E, afinal, não é isso que importa?







