Maria do Carmo, estás a ouvir-me? A voz de António soava calma, quase burocrática, como quem avisa que acabou o pão.
Maria do Carmo estava à janela da sala e olhava para o quintal. Ali crescia uma oliveira antiga, que ela própria plantara há vinte e três anos, no ano em que tinham comprado aquela casa nos arredores de Coimbra. A oliveira estava robusta e serena. Não sabia porque lhe vinha esse pensamento precisamente agora.
Estou a ouvir, respondeu.
Quero que entendas isto da forma certa. Não quer dizer que esteja tudo mal. Simplesmente… aconteceu.
Virou-se. António estava sentado à mesa, as mãos cruzadas em frente, como num conselho de administração. Tinha sessenta e um anos. Alto, aprumado, vestido à maneira de quem há muitos anos deixou de se preocupar com dinheiro. Vinte e seis anos conhecia aquele rosto: sabia como franzia a testa antes de uma conversa importante; reparava quando tamborilava os dedos na mesa, nervoso. Agora não o fazia. Isso era estranho.
Simplesmente aconteceu, repetiu, ecoando as suas palavras. Só isso?
Maria do Carmo, não vamos a isso.
Isso como?
Levantou-se, percorreu a cozinha. Era espaçosa e luminosa, com um móvel italiano que tinham escolhido juntos oito anos antes. Ela queria creme, ele branco. Cedeu, como tantas vezes cedia.
Não te devo explicações disse ele. Mas explico-te. Porque te respeito.
Respeitas.
Sim. Tivemos uma vida boa. Nada nos falta. Os nossos filhos já são adultos. Não quero discussões.
Maria do Carmo sentiu um peso surdo no peito. Não dor. Mais aquela dormência que nos envolve quando percebemos algo demasiado grande e ainda não temos palavras para processar.
Vais embora, afirmou. Não perguntou. Apenas disse.
Vou, confirmou ele. Por uns tempos. Preciso de espaço.
Espaço, repetiu de novo, pela terceira vez a recolher as palavras como quem as arruma para tentar entendê-las melhor.
António aproximou-se, quis tocar-lhe na mão. Ela recuou ligeiramente tão pouco que quase ninguém veria, mas ele viu.
Não te zangues, pediu.
Não estou zangada.
Maria…
Não estou, António. Estou só a pensar.
Ele ficou ali um momento, depois acenou e saiu da cozinha. Ela ouviu-o andar pelo quarto, a abrir portas do guarda-fatos. Estava a fazer uma mala. Só uma parte das coisas. “Por uns tempos”, disse ele.
Olhava para a oliveira e pensava que os pássaros já tinham começado a debicar as azeitonas. Isso, dizia-lhe a mãe, era sinal de inverno cedo. A mãe morrera há sete anos, e Maria do Carmo ainda se apanhava, às vezes, pronta a pegar no telefone para lhe ligar. Depois lembrava-se.
Tinha cinquenta e oito anos.
***
A amiga, Amélia, apareceu logo no dia seguinte, sem avisar. Só telefonou quando já estava ao portão.
Maria, abre. Estou aqui.
Amélia, nem estou mudada…
Então muda-te. Eu espero.
Amélia Pereira era amiga de Maria do Carmo desde a faculdade trinta e sete anos, se fossem a contar bem. Era ruidosa, direita, às vezes brusca. Tinha-se divorciado do António dela três anos antes, chorou bastante, depois secou as lágrimas de repente e abriu uma loja de artigos de costura no centro de Coimbra, que lhe dava rendimento suficiente para viver em paz. Dizia sentir-se mais viva do que há muito tempo.
Sentaram-se à mesa da cozinha. Amélia abraçou-a logo à entrada forte, a sério, daqueles abraços que fazem o peito arder e os olhos picarem. Mas não chorou.
Conta, disse Amélia, enquanto servia chá.
Já sabes, Amélia.
Quero ouvir de ti.
Maria do Carmo contou. Breve, sem pormenores. António disse que se ia embora. Precisa de espaço. Não perguntou com quem. Não era por não suspeitar, mas porque, enquanto não perguntasse, podia fingir que era só uma hesitação, e não uma certeza.
E não quiseste saber com quem? Amélia fitou-a.
Não.
Maria…
Que foi?
Sabes quem é?
Pausa. Na rua, alguém conversava, talvez crianças a rir. A vida prosseguia impávida.
Suponho que sim, disse. A secretária dele. Andreia. Tem trinta e dois anos.
Amélia calou-se, pensativa. Depois perguntou:
Há muito tempo?
Não sei. Um ano? Talvez mais. Fui percebendo algumas coisas mas não quis pensar.
Porquê?
Maria do Carmo olhou para a chávena, bela, do serviço bom que trouxeram da Madeira há dez anos. Boa viagem foi essa António bem dispunha, fazia piadas, dava-lhe a mão no Funchal.
Porque se começar a pensar, tenho de agir. E não sabia o que fazer, Amélia. Há vinte e seis anos que não trabalho. Primeiro os meninos, depois a casa, depois… foi assim que aconteceu.
Ele sempre tratou de tudo.
Sim. E eu fiquei com a casa, os filhos, os sogros quando ficaram doentes. Fui… hesitou, procurando a palavra, fui parte da vida dele. Parecia-me importante.
E hoje não te parece?
Hoje, acho que fui a parte conveniente. Disse, serena, apenas constando os factos. Era a esposa conveniente. Sem discussões, sempre pronta a aceitar. A cozinha branca, não bege. As férias na serra, não no Algarve. O jantar às oito, não às sete. Sempre conforme ele queria.
Amélia olhava-a em silêncio. Incomum nela.
Estás zangada? perguntou, por fim.
Ainda não. Talvez venha a ficar.
E agora?
Maria do Carmo demorou-se. O quintal estava quieto. A oliveira firme.
Agora estou a tentar lembrar-me do que gosto, disse baixinho. Para lá desta casa. Da vida dele. Do que gosto mesmo só eu. E não me sai logo. É estranho.
Amélia pousou-lhe a mão sobre a dela. Disse nada. Às vezes era o melhor.
***
Três dias depois, a filha ligou. Margarida morava no Porto com o marido e dois filhos. Tinha trinta e quatro anos. Sempre fora mais chegada ao pai, prática, de decisões rápidas.
Mãe, o pai contou-me. Como estás?
Estou bem.
Estás? Bem não é resposta…
Estou, Margarida. Só estou a pensar.
Pensar no quê? vinha-lhe aquela tensão típica de quem já escolheu um lado, mesmo sem o dizer.
Em tudo um pouco.
O pai diz que é só uma fase. Que precisam de algum…
Margarida, cortou Maria do Carmo, calma e firme. Não quero discutir isto contigo, nem com o Manuel. É entre mim e o pai. Está bem?
Está bem, disse a filha, depois mais suave: Estás sozinha aí?
Estou. Estou bem.
Queres que vá?
Não preciso. Digo se precisar, prometo.
Desligou e ficou sentada, em silêncio. O filho, Manuel, estava em Lisboa. Ainda não tinha ligado, o que não era de estranhar sempre evitou conversas difíceis, escondia-se atrás de pretextos, de mãe, há sempre tanto para fazer.
Percebia-o.
Levantou-se, deu a volta à casa. Quatro quartos, corredor largo, duas casas de banho. Tudo arrumado, tudo limpo. Sempre fizera questão disso. As plantas na janela eram verdadeiras, não de plástico. Mudava as cortinas conforme a estação. Na cozinha, cheirava a lavanda fazia saquinhos e punha nos cantos.
A casa era bonita. Mas como um museu arrumado, em que cada coisa está em ordem e, no fim, nada tem a ver com quem ali vive.
Parou diante da estante. Na prateleira do meio estavam os seus livros. Não eram muitos. Maioritariamente ofertas. Livros de receitas, alguns romances, um antigo livro de poemas da Sophia de Mello Breyner, gasto, dos tempos de estudante. Pegou nele ao acaso. Leu uns versos. Algo estalou por dentro, subtilmente.
Há vinte anos que não abria poesia. Nunca houve tempo.
***
António ligou passado uma semana. O tom era ligeiramente culpado, mas firme, de quem já decidiu e só está a tratar de detalhes.
Maria do Carmo, precisamos de conversar.
Diz.
Melhor seria encontrarmo-nos.
Muito bem. Quando te convém?
Ficou em silêncio. Talvez esperasse lágrimas, perguntas, acusações. Não lhe ofereceu nada disso.
Amanhã às duas? Vou aí a casa.
Está bem.
Apareceu, como sempre, à hora marcada. António era pontual era uma das suas vaidades. Ela pôs água a ferver, sem pensar no lado do aconchego. Era só para se ocupar.
Estás com bom aspeto, comentou ele ao sentar-se.
Obrigada.
Maria do Carmo, não penses que…
António, interrompeu, vamos ao que interessa. O que queres?
Ele hesitou.
Quero o divórcio, disse, de forma oficial. Somos adultos, não vamos adiar.
Está bem.
Só isso?
Sim. Não vou dificultar.
Maria do Carmo… Olhou para ela de uma forma que antes confundia com carinho; agora, parecia outra coisa. Não te preocupes, deixo-te a casa, continuo a dar dinheiro. Nunca te faltará nada.
Continuo a dar dinheiro, repetiu ela, o eco de novo. Talvez só agora reparasse quanto repetia palavras nestes dias.
Pois. Não trabalhaste, precisas de te manter.
A água borbulhou. Serviu o chá com calma, sem pressa.
António disse, pondo as chávenas à frente deles lembras-te quando a tua mãe esteve doente? Três anos inteiros. Eu ia lá todas as semanas, fazia-lhe as injeções, comprava os remédios, falava com os médicos. Tu estavas ocupado.
Claro que lembro.
E quando a Margarida teve o segundo filho e ficou tão mal disposta? Fiquei em casa dela um mês. Cozinhava, arrumava, levantava-me de noite com o mais velho.
Maria do Carmo, onde queres chegar?
Disseste continuo a dar dinheiro. Como quem faz um favor. Como se eu não tivesse feito nada estes anos todos, sem ganhar um tostão.
Abriu a boca, fechou-a.
Não era isso que queria dizer.
Sei o que querias transmitir. Que és generoso, que pensas em mim. Sentou-se defronte dele. Não estou zangada. A sério. Só não faças de conta que me fazes um favor. Ambos sabemos que não é assim.
Ficou a olhar para ela. O rosto perdeu um pouco da confiança habitual.
Mudaste, disse.
Numa semana?
Ou talvez sim.
Pegou na chávena. Bebeu o chá devagar. Lá fora, uma senhora idosa em gabardina azul dava pão aos pombos, como todos os dias. Nunca soube o nome dela.
Quanto ao dinheiro, disse Maria do Carmo, não abdico da minha parte nos bens. Mas não quero que me dês dinheiro, como uma esmola.
Maria do Carmo…
Deixa-me acabar. Pousou a chávena. Foram vinte e seis anos de dedicação à casa. Nunca te cobrei cenas, nem exigências. Sempre mantive o lar, criei os nossos filhos, recebi os teus sócios, sorri às tuas piadas, mesmo as repetidas. Deixei a minha carreira porque disseste: Maria do Carmo, não é preciso trabalhar, eu trato de tudo. E eu acreditei. Não estou arrependida. Mas não vamos mentir: foi um trabalho, e fiz-lo bem.
A cozinha ficou silenciosa. António olhava para a mesa.
Nunca disse que não fizeste as coisas bem, disse, quase a medo.
Mas disseste que me irias manter. Como a uma criança. Eu não sou criança, António. Tenho cinquenta e oito anos.
Ele levantou-se, foi até à janela, ficou ali. A oliveira estava segura, verde-escura, firme no chão.
Tens razão, murmurou. Tens toda a razão, Maria do Carmo.
Demorou a perceber aquelas palavras.
Falamos com os advogados? Sem guerras?
Concordo.
Pegou no casaco. Já à porta, olhou para trás.
Maria do Carmo. Eu…
Não digas nada, atalhou. Vai.
E saiu. Ela ficou, por fim, a escrever à Amélia: Falámos. Vou divorciar-me. Está tudo bem.
Amélia não tardou: Bravo. Amanhã vem à loja. Mostro-te as linhas novas tu adoravas bordar.
Sorriu. Gostava mesmo. Há muitos anos.
***
As duas semanas seguintes passaram-se num estado estranho. Nem bom nem mau. Só diferente. Como se a tivessem tirado da moldura habitual e colocado na mesa. Sem moldura, sem rumo.
Foi à loja da Amélia Linha a Linha, no rés-do-chão de um prédio antigo. Cheirava a linho, a madeira polida. Prateleiras cheias de novelos, lãs, tecidos, bastidores e linhas. Maria do Carmo perdia-se por entre os materiais. Mohair. Algodão. Linhas de seda para bordado. Algo nela começou a derreter por dentro, devagar.
Vê aqui, Amélia passou-lhe um bastidor com tecido. Para principiantes, mas podes escolher algo mais avançado.
Eu sabia fazê-lo.
Sabias. Há trinta anos.
Isso nunca se esquece.
Vamos ver, sorriu Amélia.
Comprou tecido, linhas e agulhas. Em casa, sentou-se à janela. Observou o esquema durante muito tempo. Depois começou. As primeiras cruzes saíram tortas. Desfez, recomeçou. Mais devagar, mais atenta. Aos poucos, os dedos recordavam.
Bordou três horas sem dar por isso.
Era uma sensação diferente. Boa. Simples.
***
Manuel ligou no final de outubro. Já tinha passado mais de um mês desde o último contacto com António.
Mãe, olá. Como estás?
Estou bem. E tu?
Também. Olha, falei com o pai.
Manuel…
Espera. Não estou de lado nenhum. Só queria saber… Diz que recusaste a ajuda dele. É verdade?
Não é bem assim. Não recusei a minha parte. Só não quero que me dê dinheiro como caridade.
Mas, mãe, é prático. Não trabalhas, precisas de sustento…
Tenho cinquenta e oito anos, não oitenta. Consigo trabalhar.
Mas o que vais fazer?
Boa pergunta. Pensava nisso. O curso de teatro, que tinha deixado no terceiro ano para casar, tinha ficado para trás. Mas gostava de línguas. Em jovem dominava o francês. Nos últimos anos, via de vez em quando filmes franceses. Não percebia tudo, mas percebia.
Não sei ainda, respondeu. Mas arranjo maneira.
Mãe, avisa se precisares.
Aviso. És bom filho, Manuel, mas não me venhas salvar. Não estou a afundar.
Ele calou-se.
Está bem, mãe. Liga-me.
Depois disso, foi procurar os velhos cadernos. No armário, atrás dos casacos de inverno, encontrou um caderno gasto com palavras francesas. De estudante. O letreiro era apressado, jovem, confiante. Estranho como se fosse de outra mulher.
Talvez fosse.
***
O advogado era um senhor de cabelos brancos, Henrique Pinto. Ouvia-a com atenção, fazia perguntas, tomava apontamentos.
Os seus direitos, D. Maria do Carmo, estão salvaguardados. Os bens comuns dividem-se. Casa, contas, terreno. Só falta definir como.
Quero esta casa, afirmou. António está de acordo.
Então ele receberá compensação em dinheiro.
Ou o terreno.
Sim, também é opção. Já discutiram sem desentendimentos?
Sim. Sem dramas.
Henrique Pinto espreitou-lhe por cima dos óculos.
O que é raro, disse.
Sei.
Então avançamos. Demora cerca de um mês.
Saiu. O dia era de novembro, cinzento mas sem chuva aquele tom claro, o ar pesado, céu baixo. Maria do Carmo caminhou ao acaso, pelo bairro, atravessou ruas velhas onde crescera, sabia onde comprar o melhor pão, onde as laranjeiras davam fruto.
Havia qualquer coisa de seu, de autêntico, nessas pequenas pertenças.
Entrou num café. Mesas de madeira. Pediu um café e uma fatia de bolo de maçã. Ficou a olhar a rua, sem pensar em nada, a saborear apenas. Tinha anos que não fazia aquilo: só estar. Sem lista de afazeres, sem o calendário de outro.
Numa mesa ao lado, duas mulheres da sua idade conversavam e riam. Uma em xailes coloridos, a outra com uns óculos vistosos. Olhou para elas e pensou: É isto. É assim que se vive ri-se, usa-se um xaile vibrante.
Bebeu o café, deixou gorjeta e saiu.
***
Em dezembro, Margarida ligou, diferente no tom.
Mãe, vou passar aí o Ano Novo. Sozinha. Sem o Pedro e os miúdos. Posso?
Claro! Eles ficam?
Com os pais do Pedro. Disse que queria a passagem contigo. Pausa. Mãe, estava errada no início. Achei que devíamos unir-vos, resolver tudo. Depois percebi que não era comigo.
Margarida…
Deixa-me acabar. Pensei que ficarias desorientada, que não te safarias sozinha. Sempre nos habituámos a ver o pai a decidir. E tu… como na sombra. Calou-se, à procura das palavras.
Na sombra? ajudou Maria do Carmo.
Sim… mais ou menos isso. Mas tu não perdeste o rumo. Até achava que sim e isso… mudou-me.
Mudou o quê?
Fez-me olhar para mim. Para o que quero. Não o Pedro ou os rapazes eu. Parece egoísmo.
Não é.
A sério?
Chama-se autoconhecimento, Margarida. Não é egoísmo.
Falaram durante uma hora. Dos netos, do trabalho da filha, do desejo de aprender a desenhar. Maria do Carmo sentia qualquer coisa quente não orgulho, mas talvez reconhecimento, como se visse em Margarida uma parte de si.
***
Margarida chegou dia vinte e nove. Trouxe vinho, queijo e chinelos engraçados. Decoraram a árvore ao som das músicas que Maria do Carmo descobriu na internet. Gargalharam com a forma trôpega como a mãe lidava com a aplicação de música. Maria do Carmo ria-se também.
Foi uma noite boa, de verdade.
No Ano Novo, convidaram Amélia. Trouxe rissóis e um frasco enorme de pickles feitos por ela. As três à mesa, vinho, conversa. Sem António. Falava-se de viajar Amélia queria muito ver os Açores, Margarida sonhava com as Caraíbas. Maria do Carmo disse que queria voltar a Paris.
Paris? Amélia surpreendida.
Estudei francês em jovem. Quero ver o que ainda sei.
Vais sozinha?
Talvez. Ou com alguém. Logo se vê.
Margarida ficou a olhar para a mãe. Depois sorriu.
Mudaste, mãe.
Já é a segunda pessoa a dizer-me isso.
A primeira foi o pai?
Sim.
E como soou, dito por ele?
Maria do Carmo pensou.
Como um reparo. Como se eu tivesse estragado o jogo.
E agora?
Agora soa a elogio.
Amélia ergueu o copo.
Às mulheres que preferem mudar as regras, brindou.
Brindaram. Os foguetes começaram lá fora. Maria do Carmo viu as luzes flutuar e, pela primeira vez em muitos anos, sentiu que aquele começo era só seu.
***
Em janeiro, inscreveu-se num curso de francês numa escola perto de casa. A turma tinha jovens estudantes, uma mulher de quarenta a preparar-se para emigrar, e um senhor idoso que queria ler Victor Hugo no original.
Isso é de valor, comentou o professor, Rui, um jovem surpreso com o grupo.
Tudo é de valor quando é por nós, retorquiu o senhor idoso.
Maria do Carmo concordou, em silêncio.
O francês custava-lhe. Lembrava-se de mais do que esperava, mas trocava artigos, errava tempos. Tinha anos que não fazia nada novo, onde a possibilidade de errar era real.
Depois da terceira aula, Rui abordou-a:
Maria do Carmo, tens bom sotaque. De onde vem?
Estudei em jovem.
Continue. Mais importante do que parece.
Na rua, ia pensando nisso bom sotaque, ainda estava dela. Sempre tinha estado.
***
Assinaram o divórcio em fevereiro, no escritório do advogado. António estava cansado. Ela, de acordo com o seu olhar, diferente.
E tu? Estás bem? perguntou, no corredor.
Estou.
A sério?
Sim.
Olhou para ela. No olhar dele, não havia remorso, nem pena. Só uma estranheza, de quem esperava outra coisa.
Inscreveste-te em alguma coisa? A Amélia falou.
Francês. E aguarelas.
Aguarelas? Nunca pintaste.
Não sorriu mas agora pinto.
Ele acenou. Vestiu o sobretudo. À porta, hesitou.
Maria do Carmo… eu…
És boa pessoa, António. Só seguimos caminhos diferentes. Vive da melhor maneira possível.
Olhou para ela um longo momento. Depois saiu.
Ela foi até ao átrio, olhou as pessoas na rua. Um dia igual a tantos. Divorciada após vinte e seis anos. Devia ser dramático. Não era. Só silêncio.
Saiu. Sentiu o cheiro fresco do inverno. Levantou a cara ao céu. A chuva fina desfazia-se logo que tocava na pele.
Seguiu devagar, atravessando o parque.
***
A aguarela era mais difícil que o francês. As tintas fugiam, as cores misturavam-se, o papel encolhia com a água. A professora, D. Teresa, uns cinquenta anos, sempre com as mãos pintadas, olhava as tentativas com calma.
Está a tentar controlar a tinta. Ela não gosta disso.
E gosta de quê?
De confiança. Ponha água, cor, e deixe acontecer.
Maria do Carmo tentava. Saía mal. Depois um pouco melhor. Guardava as folhas numa pasta. Eram imperfeitas, tortas, mas suas. As suas nódoas azuis. Os seus pinheiros desengonçados.
Um dia, D. Teresa olhou um esboço a oliveira à janela, azeitonas escuras, céu cinza.
Isto é verdadeiro, disse.
Está torto.
O torto pode ser verdadeiro.
Maria do Carmo olhou a folha. Na pintura, a árvore era outra, mas sua. Não aquilo que via, mas aquilo que sentia.
Era uma distinção importante.
***
Na primavera, Margarida veio com marido e filhos. Ficaram uma semana. À noite, mãe e filha conversavam na cozinha.
És feliz? perguntou Margarida.
Pergunta difícil.
Porquê?
Pensei que sabia o que era felicidade. Família, casa, tudo arrumado. Agora… não sei. Sinto-me bem. Não é o mesmo.
Então o que é?
Maria do Carmo pensou.
É acordar e o dia ser só meu. Não refém das necessidades de outro. Só meu. Estranho?
Não, sorriu Margarida.
E tu, pensas mais em ti?
Sim. Inscrevi-me em desenho também, como tu.
A sério?
Aguarela. Aos domingos. O Pedro torceu o nariz. Depois aceitou.
Observou a filha trinta e quatro anos, inteligente, um pouco reservada, sempre atrás do prático Pedro, como ela estivera atrás de António.
Margarida, não precisas repetir a minha história.
Não repito. Aprendo contigo.
Comigo? Maria do Carmo estranhou.
Fizeste o que nunca imaginei possível. Não te quebraste. Nem te tornaste amarga. Nem vieste viver connosco como uma dependente. Simplesmente… começas-te a viver. De novo. Aos cinquenta e oito.
Ficou calada.
Não sabia que parecia assim vista de fora.
Parece.
Sabes como é por dentro? Dá medo. Sobretudo quando percebes que não sabes metade de ti própria, nem tens resposta para qual é a tua cor favorita.
Agora sabes?
Agora sim. Azul. O das minhas aguarelas.
Sorriram. Depois Margarida levantou-se e abraçou a mãe. Forte como Amélia no início.
Mãe, és um exemplo.
E tu também.
***
No verão, Amélia sugeriu uma viagem ao Gerês. Dez dias, num grupo pequeno, com alojamento simples.
Nunca viajei sem António, admitiu.
Sei. Por isso mesmo!
Não estou habituada a mochilas e a dormir em cabanas.
São bungalows confortáveis, nada de acampamentos. Vamos?
Demorou três dias a decidir. Depois aceitou.
O Gerês foi outro mundo lagos com o céu espelhado, pinheiros altíssimos, o silêncio recheado de sons do mato.
Levou aguarelas.
Passava manhãs a pintar junto à água, enquanto os outros dormiam. Quadros imperfeitos, mas autênticos. Sentia isso. Não com a cabeça mas com o coração.
Ao quarto dia, sentada à beira do rio, percebeu algo fundamental.
Já não pensava em António. Nada. Não era por esforço, era porque não havia mais que pensar. Acabou. Como um livro. Fecha-se e começa outro.
Era novo. Era bom.
Amélia espreitou o caderno.
Está bonito.
Achas?
Penduria-o na minha sala.
Olhou para o papel. O lago, os pinheiros, o nevoeiro. Ainda torto, mas vivo.
Talvez pendure, respondeu.
***
Em setembro, fez cinquenta e nove anos. Juntou-se com Amélia, a vizinha Isabel com quem criara amizade, e dois colegas do curso de pintura. Margarida ligou por videochamada durante o jantar. Mostrava os netos a gritar Parabéns, avó!, com desenhos nas mãos.
Maria do Carmo olhava o ecrã, via a filha feliz, os netos alegres, e pensava: É isto. Não arrumado e calmo, mas com barulho e vida.
Manuel enviou uma transferência e uma mensagem: Mãe, parabéns. Vou aí brevemente. Sorriu. Era mesmo o filho dela.
Amélia ergueu o copo.
Pela Maria do Carmo. Pela mulher que se tornou ela própria num só ano.
Sempre fui eu, rebateu Maria do Carmo.
Nem sempre, sorriu Amélia. Agora sim.
Não respondeu. Talvez Amélia tivesse razão.
***
Em outubro, pendurou na sala o quadro do Gerês. Na moldura, acima do sofá.
Antes estava ali uma gravura escolhida por António. Bonita, neutra, sem alma. Retirou-a e arrumou-a. Depois pôs a aguarela.
Ficou a olhar o quadro: imperfeito, mas era seu. Fora ela a pintar. Foi ela quem viu. Quem sentiu.
E isso, percebeu então, era o verdadeiro valor. Não ser bonito, mas ser nosso.
Ficou ali a admirar. O telefone tocou. Número desconhecido.
Estou?
D. Maria do Carmo? Aqui é o Rui, da escola de línguas. Deixou contacto para actividades. Vamos abrir um clube de conversação em francês às quartas. Só prática, nada de gramática. Interessa-lhe?
Olhou para o quadro. O lago azul, o nevoeiro.
Interessa muito. Inscreva-me, por favor.
O novembro chegou manso. Maria do Carmo saía da aula de francês com um pequeno saco na mão. Fora comprar à sorte um romance francês, guiada só pela capa ou pelo impulso.
À porta do prédio estava António.
Só o viu quando já estava perto. Estava de lado, gola levantada, esperando. Já ali há muito, ansioso.
Olá, disse ele.
Olá, respondeu, sem surpresa nem medo.
Eu… posso falar contigo?
Ficou um segundo em silêncio. Depois concordou:
Podes. Sobe.
Entraram. Ela pendurou o casaco, ofereceu chá. Ele recusou. Sentou-se no sofá, debaixo do quadro.
Foste tu que pintaste?
Fui.
Está bonito.
Obrigada.
Ele ficou a olhar o quadro, calado. Depois:
Maria do Carmo, as coisas não me correram como esperava.
Ela deixou-o falar. Não lhe facilitou.
A Andreia… é mais nova, diferente. Achei que precisava disso, de uma nova vida. Mas descobri que estava só cansado. Não de ti, mas de mim mesmo, da minha idade. Nunca perguntaste o que se passou. Nem perguntas nada.
Não é da minha conta.
Talvez não. Olhou-lhe nos olhos. Mudaste tanto.
Tenho mudado.
Não sei explicar. Sempre achei que estarias ali, pronta. Que nunca trocarias o teu lugar ao lado.
António, disse, gentil mas sem doçura, o que esperas desta conversa?
Olhou para ela, depois baixou os olhos.
Não sei, sinceramente. Queria só pedir desculpa. E dizer que não sabia o que tinha contigo.
Silêncio.
Lá fora, outono. A oliveira sem frutos, galhos negros, despidos. Mas erguida, direita.
Ouvi-te, disse ela. Obrigada por dizeres.
Só isso?
Olhou para ele, o homem grande e cansado, antes tão próximo, agora tão estranho.
António, pegou no romance em francês, seguramente nas suas mãos leio em francês agora. Devagar, mas leio. Pinto. Viajo. Faço parte de um clube de conversação. Durmo com a janela aberta porque gosto. Como o que me apetece. Pausa. Não estou zangada contigo. Deste-me muito: casa, filhos, anos. E ensinaste-me outra coisa que vivi demasiado tempo a vida de outra pessoa. Isso também é importante.
Achas que é possível recomeçar? perguntou, em voz baixa, quase estranha.
Maria do Carmo olhou para ele, depois para o quadro. O seu lago azul, a sua oliveira, o seu nevoeiro.
António, tenho cinquenta e nove anos e, pela primeira vez em muitos, sinto que vivo mesmo. Pausa. Põe o chá se quiseres. Vou à cozinha.
Foi. Pôs a água a ferver, olhou o quintal, a oliveira e a vizinha velha a alimentar os pombos.
Atrás dela, silêncio. Depois o sofá a ranger. Depois passos.
António levantou-se à porta.
Maria do Carmo.
Ela virou-se.
Diz-me só uma coisa. És feliz?
A água começava a ferver, um sussurro crescente. A oliveira erguia-se lá fora, direita e tranquila.
Estou a aprender, disse. Aprender a ser feliz. Leva tempo, sabes? Mas estou a aprender.
Ele olhou-a. Ela olhou-o. Dois adultos já sem juventude, numa cozinha que já fora de ambos mas agora era só dela.
Isso é bom, disse por fim. Isso é muito bom.
A água começou a ferver.






