A Ilusão da Traição

Ilusão da Traição

Lisboa, domingo, 12 de outubro

Nunca imaginei que apresentar um namorado à família pudesse ser assim tão angustiante. Ontem, enquanto caminhávamos pelo bairro de Campo de Ourique, o Tomás olhou para mim e perguntou, com aquela expressão dele sempre meio curiosa:

Então, tens mesmo a certeza que queres que eu vá contigo? Ele sorriu de lado, com aquele jeito descontraído, os olhos a brilhar. Eu até estou entusiasmado por conhecer os teus pais, mas…

Claro que quero, respondi, mexendo numa madeixa de cabelo e sentindo as minhas bochechas ficarem quentes. Agarro-lhe então na mão, entrelaçando os dedos delicadamente. Falei tanto sobre ti, Mariana já te trata como parte da família! Ontem até me perguntou qual era o teu prato preferido! Conseguiste imaginar?

Tomás soltou uma risada baixa, um sorriso genuíno que me aqueceu o coração. É estranho, mas fico feliz que ele note como estou orgulhosa dele. Com vinte anos, a vida a explodir de sonhos, sorrisos nervosos e piadas francesas, Tomás entrou no meu mundo como um sopro de primavera. Sempre quis estar perto dele, partilhar pequenas aventuras e acreditar que tudo é possível.

Estava um domingo solarengo, mas fresco o céu limpo, o vento já com cheiro a outono. Vesti o meu vestido favorito, um azul com pequenas flores, simples mas jovial. Tudo o que queria era mostrar o melhor de mim. Tomás, t-shirt clara e umas calças de ganga, nem formal, nem casual, simplesmente ele. Ao longo do caminho, olhei várias vezes para ele queria ter a certeza de que estava mesmo comigo, que não ia mudar de ideias no último momento. Sentia-me inquieta e as minhas mãos não paravam quietas.

Estás nervosa? perguntou Tomás, apertando suavemente os meus dedos.

Um bocadinho confessei, com os olhos presos ao chão. Não é todos os dias que apresento alguém especial à família. Quero tanto que tudo corra bem. Acho que os meus pais vão gostar de ti, mas há a minha irmã, Matilde… Ela anda sempre a comparar tudo! E não gostou nada que não tivesse namorado…

A Matilde, cinco anos a mais do que eu, alta, magra, cabelos escuros sempre impecavelmente apanhados. Entre o último ano na faculdade e um estágio num escritório em Picoas, parecia sempre mais madura, mais composta. E, sem que eu quisesse, o pensamento surgiu: e se o Tomás gostasse dela? Nem queria pensar nisso.

Ao chegar a casa, percebi logo que Matilde estava estranhamente elegante: vestido novo, saltos altos, um batom de cor forte. Retocava os brincos em frente ao espelho no corredor. Ficou surpreendida, por uns segundos, ao ouvir a porta.

Ah, chegaram cedo comentou, com o seu tom sempre controlado. Pensei que vinham só daqui a uma hora.

Saímos mais cedo, respondi, tentando soar natural. Vais sair?

Vou jantar fora com amigas, disse ela, olhando de relance para Tomás e voltando a ajeitar o cabelo. Sem dúvida, a Matilde sabia causar impressão.

Tomás, até aí silencioso, tentou aliviar o ambiente:

Estás muito elegante.

Por dentro, senti um nó no estômago. Conheço aquele tom. E sabia como a Matilde adora ser o centro das atenções. O coração acelerou e percebi as mãos húmidas.

Pois claro, não consegui evitar que a minha voz soasse ríspida. Nunca resistes a mostrar-te. Mesmo quando sou eu que apresento o namorado novo. Não consegues evitar fazer disto uma competição.

Francisca, suspirou Matilde, já sem paciência. Nem pensava estar cá. Ia sair antes de chegares. Fazes sempre disto uma tragédia.

E esse vestido para ir jantar só com amigas? avancei, já sem conseguir controlar o ciúme. Não mintas. És sempre assim quando estou feliz com alguém. Só porque tu não tens namorado!

Estou sempre igual, ela levantou as mãos num gesto de exasperação. Não inventes. O mundo não gira à tua volta.

Tomás olhava de uma para a outra, sem saber o que dizer. Senti tanta raiva e nem sabia bem do quê. Ter-se-á realmente impressionado com ela? O ciúme apertou ainda mais.

Tentei respirar fundo, mas acabei por elevar a voz. O meu pai, Sr. António, apareceu no corredor, jornal na mão, sobrancelhas franzidas. A mãe, D. Rosa, vinha da cozinha, já com olhar cansado.

O que se passa aqui? perguntou o meu pai, de forma automática, como quem já antecipava mais uma discussão.

Vejam bem! acusei, com mágoa na voz. A Matilde faz isto de propósito, veste-se assim só para chamar a atenção do Tomás!

Matilde, que exagero, censurou a mãe, lançando-lhe um olhar reprovador. A Francisca avisou-te que trazia o Tomás. Podias ser mais discreta.

Só queria sair, mãe! retorquiu Matilde, cruzando os braços e segurando a irritação. É sempre a mesma história, tudo termina nisto.

Estão a ver? gritei. Ainda por cima a culpa é minha. Diz sempre que eu é que sou dramática.

Tomás tentou controlar a situação, com voz calma:

Se calhar devíamos respirar fundo e conversar mais serenamente… Isso não faz sentido nenhum.

Mas eu estava cega. O ciúme, a tristeza, o medo de perder, tomaram conta de mim. Avancei e puxei o vestido da Matilde, que se rasgou no ombro. Fiquei a olhar, sem saber o que fazer, aos soluços.

Estás maluca? perguntou ela, ferida, tentando parecer acima de tudo. O que é que te passou pela cabeça?

Não vou fingir que não vejo como olhas para ele! gritei. Achas que não percebo? Queres roubar-me tudo!

Não quero nada do teu namorado. Só vejo ciúmes onde eles não existem.

Os meus pais limitaram-se a ficar à parte, como se fossem espectadores. O meu pai continuou a folhear o jornal, a mãe levantou as mãos, resignada:

Matilde, devias ser mais compreensiva. Francisca é sensível, devias perceber-lhe os sentimentos.

Não posso ser sempre eu, mãe! a Matilde, em voz trémula, já farta. Estou cansada de ser o bode expiatório!

Já nem as palavras interessavam. Peguei no Tomás pelo braço, queria que me defendesse.

Tomás, diz-lhe tu! Diz-lhe que ela está errada!

Ele suspirou, fugindo-me ao olhar:

Sinceramente, Francisca, parece-me um grande mal-entendido. Não vejo nada do que dizes. E não é justo isto se transformar em guerra.

De repente vi tudo desabar. Senti-me traída, sozinha, ridícula.

Quando a Matilde se foi embora, nada ficou igual. O Tomás ficou a morar comigo estava com obras na casa dele, ainda por cima os vizinhos tinham inundado a sala e os meus pais fizeram questão de o receber. Mas o ambiente com a Matilde, que ficou no quarto dela, gelou. Tudo o que se dizia parecia atravessar uma barreira invisível. O silêncio pesava.

Uma manhã, entrei na cozinha e encontrei a Matilde a preparar chá, rodeada dos livros da faculdade. Ia ter exame importante. Não consegui evitar:

Fazes isto de propósito, não fazes? Só para o Tomás te notar. Sempre de olhar ensonado, mas pronta a mostrar que estudas imenso…

Ela pousou a chávena, olhou-me e vi-lhe as olheiras fundas, o cabelo já com fios brancos.

Francisca, só quero beber chá antes do exame. Isto pode ditar o meu futuro.

Exame? Ou mais um pretexto para te exibir à minha frente? não consegui calar o ressentimento.

Chega! tremendo, ela olhou-me firme. Porque fazes disto sempre um drama? Nunca ficas feliz por ninguém. Nem por ti.

Nunca fui suficiente! gritei. Sempre foste melhor em tudo! E agora queres o único rapaz que me ama!

Ela hesitou. Percebi que a magoei vi-lhe a dor breve nos olhos, logo substituída pelo distanciamento de sempre.

Se é assim que pensas, não tenho mais nada para fazer aqui.

Pouco depois, fez as malas e saiu. Foi ter com a melhor amiga, a Marta, e ficou a dormir na casa dela. Dias difíceis para ambas. A Matilde sentiu falta do cheiro da torrada de domingo, dos conselhos da mãe, até das discussões. Mas libertou-se do fardo, da tensão constante, da obrigação de ser sempre o muro da serenidade.

Os meus pais tentaram ligar-lhe, mas as tentativas foram em vão. Nunca admitiriam, mas sentiram a falta dela da sua organização, do seu rigor, do equilíbrio que trazia à casa.

Dois meses mais tarde, já quase não aguentava o Tomás. Sempre a testar limites, acusava-me de suspeitas e ciúmes ridículos. Ele bem me explicou: Francisca, o problema não é a Matilde, é o teu receio, a tua insegurança.

Não quis ouvir. Via traição até nos gestos gentis.

Uma noite, fez as malas.

Não tenho mais força, disse, voz cansada, sem mágoa, só tristeza. Sufocas-me com as tuas dúvidas. Cansei de justificar-me.

Vais embora… por causa dela? Por causa da Matilde?

Não. Por tua causa. Não distingues a realidade do teu medo. E és tu que constróis este muro entre nós.

Saiu e, quando a porta se fechou, senti que perdi o Tomás por minha culpa. Chorei até as lágrimas me cegarem e só nessa noite percebi afinal, foi sempre comigo que lutei, não com ela.

Os meus pais tentaram motivar-me, mas tudo me parecia sem sentido. Deixei de ajudar em casa, passava os dias perdida em redes sociais, séries e lençóis. Uma montanha de roupa para passar, refeições improvisadas e um silêncio ensurdecedor na sala. A ausência da Matilde sentia-se nos detalhes: agora a casa estava desorganizada, vazia, sem a sua pontualidade e eficiência.

Certo dia, a mãe perdeu a paciência:

Francisca, tens de sair desse poço. Não vamos poder cuidar de ti para sempre.

E o que faço? olhei-a, olhos encovados, voz abafada. Perdi tudo. Nem tu nem o pai me entendem. Sempre do lado dela…

O meu pai, numa das poucas vezes que falou com firmeza, sentou-se ao meu lado:

Não podes continuar a culpar a Matilde pelos teus erros. Foste tu que empurraste toda a gente para longe. Só tu podes desfazer essa parede.

Calei-me, rendida. Pela primeira vez, reparei como o cabelo de ambos ficou grisalho, como a postura deles combalida pelo cansaço.

Tenta a pouco e pouco, sugeriu a mãe, suavemente. Ajuda-me amanhã com a arrumação. Depois liga à tua irmã, pede desculpa. Tenta. Nem que seja só isso.

Não vou pedir desculpa! Eu não tenho culpa de nada!

Ela suspirou, triste, abanando a cabeça.

Enquanto escrevo, não consigo evitar pensar na Matilde, algures na Baixa, a beber um café com a Marta ou talvez o novo amigo (já ouvi a mãe a sussurrar esse boato ao telefone). E do outro lado, um domingo em silêncio em Campo de Ourique, onde tudo podia ter sido diferente só se eu tivesse sabido confiar.

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