O ex decidiu ser pai
Ela percebeu a presença dele antes mesmo que pudesse dizer qualquer coisa.
Sete anos. Durante sete anos, Mafalda pensou, de tempos em tempos, em como seria um reencontro, se é que aconteceria. Imaginava vários cenários: em alguns, chorava; em outros, falava algo certeiro que o magoasse. Mas agora, com Tiago Alves sentado a um canto do restaurante dela, com aquele olhar de quem ensaiou o momento vezes sem conta, tudo que sentiu foi um leve incómodo, como quando uma mosca entra pela janela num fim de tarde.
Mafalda aproximou-se da mesa. Não era porque queria. O restaurante era dela: o seu projecto, o seu trabalho, o seu nome escrito no letreiro Severina & Sócios. Não fazia sentido recuar, não naquele espaço.
Mafalda, disse ele, levantando-se. A voz soava um pouco rouca, com aquela entoação que os homens usam quando querem parecer vulneráveis. Estás… incrível.
Tiago, respondeu ela, serena. Já fizeste o pedido?
Vim para te falar.
Os nossos empregados só têm autorização para começar aos dezoito, respondeu Tens tempo de sobra antes de te trazerem o menu.
Sentou-se, não porque desejasse ouvir. Ficar de pé teria sido demasiado teatral, e o teatro já não a seduzia há muito tempo.
Foi assim que tudo começou. Ou melhor, terminou. Mas para perceber porque é que naquela noite Mafalda Severina olhava para o ex como para reboco velho de uma parede, é preciso recuar. Sete anos e três meses.
Então, ainda era Mafalda Silva, tinha vinte e seis anos, semi-autodidata no universo do design de interiores, a recibos verdes para uma pequena empresa em Lisboa. Desenhava plantas de apartamentos que colegas mais experientes depois refaziam. Recebia o suficiente para alugar um quarto na Penha de França, pagava as contas e comia sem luxos. Mas tinha Tiago. Tiago Alves, trinta e um, gestor numa promotora imobiliária, bonito com aquela confiança que pode ser traço ou vazio, consoante a passagem do tempo. Mafalda acreditara no melhor.
Namoravam há dois anos. Ela pensava que era sério.
Naquela noite de outubro, ligou-lhe, ansiosa por uma boa notícia. Tremia ao telemóvel, colada à janela, a espreitar a rua molhada pelo outono lisboeta.
Tiago, tenho uma coisa para te dizer.
Diz.
Estou grávida.
Pausa. Não daquelas de quem fica feliz. Uma outra. Um silêncio em que a pessoa pensa em como sair dali.
Mafalda, não sei… preciso de pensar.
Tudo bem, murmurou. Já sentira algo apertar-lhe o estômago, mas empurrou o sentimento para longe.
Pensou dois dias. No terceiro apareceu com um saco. Não trouxe tudo, só o que ficava em casa dela. Largou o saco à porta e, sem pisar a sala, disse:
Não estou pronto. Sabes, estou numa fase difícil. Não consigo assumir isto agora.
Que fase difícil, Tiago? perguntou em voz baixa.
Por favor. Não compliques mais.
Ela já não respondeu. Olhou-o, intuindo que nunca amara alguém verdadeiramente. Havia ali um rosto conhecido, mas por dentro apenas ecoava o vazio. Era um cenário, apenas.
Um mês depois, colegas em comum diziam-lhe que Tiago andava com a Carla Esteves. Carla Esteves, trinta e cinco, dona de salões de beleza, casa em Campo de Ourique, carro alemão e gosto por restaurantes elegantes. Mafalda soube ao almoço, sozinha, diante de um prato de massa no micro-ondas, e sentiu… nada. Já não havia forças para sentir.
O inverno foi duro. O trabalho rareou; a empresa cortou-lhe o horário a um quarto tempo. Os poucos clientes independentes pouco davam. Cortou em tudo. Só comia o mais barato. Cancelou subscrições, mudou-se para um quarto ainda menor. A gravidez avançava a custo. O médico falava em riscos, pedia-lhe descanso, mas o descanso exigia dinheiro que não havia.
Em fevereiro, à trigésima segunda semana, foi levada de ambulância. Correu mal. Lembrava-se mal dessas horas: só tetos brancos do hospital de São José e a sensação de perder o chão. António nasceu prematuro, pesando pouco mais de um quilo e meio. Levaram-no logo. Não ouviu o choro.
Durante duas semanas, visitou a neonatologia, olhando através do vidro aquele ser minúsculo, entubado. Foram, talvez, os dias mais longos da vida dela não por serem maus, mas por cada dia ser uma promessa repetida ao espelho: se ele sobreviver, serei outra pessoa. Não melhor, não pior. Outra. Aprenderei a aguentar-me.
António sobreviveu.
Quando finalmente lho trouxeram, embrulhado numa manta do hospital, ela segurou-o, minúsculo, morno, de olhos fechados. Não chorou. Pensou apenas: agora, começa o resto.
O primeiro ano lembra mal. Era uma sequência de ações: dar de mamar. Mudar fraldas. Embalar. Dormir três horas. Acordar. Ligar o portátil. Fazer mais um esboço. Enviar proposta comercial. Receber não. Enviar outra. Alimentar. Embalar. Dormir.
António só adormecia ao colo. Aprendeu a desenhar com uma mão.
Pegava todos os trabalhos. Remodelação de casas de banho por cem euros. Combinações de cores para cozinhas. Disposição de móveis por fotografia. Um pouco de tudo. No início achou degradante. Depois deixou de pensar nisso. Só pensava em fazer bem, para que voltassem ou a recomendassem.
No fim do primeiro ano do António, já tinha cerca de vinte clientes fiéis. Pequenos, mas regulares. Começou a perceber o que as pessoas queriam. Não tanto o que diziam, mas o que realmente pretendiam. Se um cliente dizia moderno, normalmente queria mostrar sucesso aos vizinhos. Se dizia funcional, era porque não podia gastar mais, mas não sabia como dizer. Aprendeu a ler vidas pelos pedidos de obra. Tornou-se valioso.
No segundo ano do António, alugou um lugar num cowork em Arroios. Não porque pudesse pagar, mas percebendo que trabalhar em casa com uma criança e apresentar-se como profissional era impossível. No cowork conheceu Pedro Gomes e Sousa. Mais de cinquenta anos, fazia pequenas recuperações de edifícios no centro de Lisboa, dava-lhes nova utilidade. Homem seco, observador, com tendência a fixar o olhar mais que o habitual.
Tropeçaram por acaso. Ela lutava com a impressora, meia hora, paciente, sem um único impropério. Pedro Gomes observava.
Tem paciência, comentou quando saiu a folha.
Não, respondeu ela, sei é que o drama não resolve nada.
Ele sorriu, estendeu a mão.
Gomes e Sousa. Pedro.
Silva. Mafalda.
O que está a desenhar?
Mostrou-lhe. Um T2 num prédio antigo, remodelação complicada, tetos diferentes. Ele observou em silêncio.
Aqui mexeram nas paredes mestas sem engenheiro, percebe?
Não sabia que haveria peritagem. É um projeto alheio, refaço para entregar.
Trabalha a solo?
Sim.
Há quanto tempo?
Desde o nascimento do meu filho.
E antes?
Pouco numa constructora. O resto por conta própria.
Formação?
Faculdade de Lisboa. Arquitectura. Não terminei.
Ele não perguntou porquê.
Tenho um projeto, disse ele. Pequeno. Uma casa senhorial em Alfama, vai ser partilhada, co-work, cafézinho… Os meus desenharam muito certinho, mas sempre igual aos outros.
Posso dar um olho.
Passe cá sexta. Digo-lhe o endereço.
Ela foi. Viu o espaço. O desafio era enorme: tectos desiguais, paredes tortas, vigas expostas. Ninguém ali respeitara as particularidades; tentaram encaixar o padrão no singular.
Esteve duas horas entre medições e fotos. Observou a luz em várias horas. Pedro ficou calado, a vê-la.
Não dá para fazer o mesmo de sempre, disse ela por fim.
Eu sei.
Se for fiel ao espaço, tem de mostrar o que é. As imperfeições, as vigas, as janelas antigas. Não esconder assumir.
Isso não sai mais caro?
Não necessariamente. Sai diferente.
Faça uma proposta.
Quanto tempo?
O que precisar.
Fez em uma semana. Não por pressa, mas por clareza: quando um projeto se revela, só não atrapalhar.
Ele viu o projeto, demorou-se. Olhou para ela.
De onde veio isto?
Isto o quê?
Isto, apontou o dedo ao desenho, o conservar o tijolo na zona do café. Nenhum dos meus pensou nisso.
É bonito. Porquê tapar o que é bonito?
Acenou, devagar, como quem toma uma decisão.
Fica com este projeto. Contrato e tudo. Se me agradar, há mais.
E agradou.
Três anos depois, trabalharam juntos em cinco projetos. Manteve clientes próprios, António crescia. Contratou uma ama por horas, depois ele entrou na pré-primária. Mudou de quarto, para um T0, depois para um T1. Comprou finalmente uma secretária a sério.
Pedro Gomes nunca dava conselhos sem ser chamado. Mas se Mafalda perguntava, respondia certeiro. Conhecia o sector, os clientes, os fornecedores. Pelas conversas percebeu não só o projeto, mas o funcionamento do mercado.
Pedro, perguntou enquanto tomavam café após uma entrega. Porque me deu uma oportunidade? Eu não era ninguém.
Não era ninguém? Era quem não desistiu de uma impressora durante meia hora. E mostrou um projeto de quem pensa, não de quem cumpre ordens.
E isso chega?
Para mim, chega.
Pensou muito nisto. Não mudou a trajetória, mas consolidou a percepção da própria valia. Não orgulho, mas sensatez.
Ao quinto aniversário do António, legalizou o seu gabinete. Severina & Sócios, porque parceiros não tinha, só ela. Pegou nos nomes de família: Silva virou Severina, mais português, menos passado.
O primeiro ano da Severina foi difícil. Contratou, despediu, enganou-se, corrigiu e seguiu. Pedro dava dicas de gestão só se pedisse. Nunca impunha nada.
Entre eles algo mudava, lento, sem grandiloquência de filme romântico. Começou a apetecer-lhe as reuniões. Fez-se importante o parecer dele, mesmo fora do ofício. Quando António adoecia e ela não ia ao gabinete, Pedro surgia em casa, nunca reclamava.
Numa noite, ainda em reuniões, António já a dormir, entre papéis e chávenas de bica, sentiu paz que há muito não conhecia.
Não tem medo de se aborrecer? perguntou.
Consigo?
Na vida. É sempre tão… calmo.
Quem tem trabalho, não se aborrece. Tenho sempre.
Não digo só trabalho.
Sei o que diz. E não, não me aborreço.
Não insistiu, nem ele. Depois disso, tudo ficou mais óbvio, sem pressa.
Quando António fez seis, recebeu o desafio de um restaurante numa casa histórica no Chiado. O dono, um chef novo, queria uma coisa especial, diferente de português tradicional ou minimalismo a la moda. Ela percebeu logo. Várias reuniões, mostrou-lhe a proposta.
Perfeito, disse ele. É isto.
O projeto levou oito meses. Exigente. Condicionantes patrimoniais, ventilação, acústica. Acompanhava quase diariamente, via a obra ganhar vida, o prédio velho a reinventar-se sem perder identidade.
Na abertura, foi como cliente. Sentou-se, pediu água, admirou a sala. Ninguém sabia que aquele arco foi corrigido três vezes por causa da acústica, que aquele tom da madeira no soalho levou meses a encontrar. E a parede de tijolo, evocava-lhe o primeiro projeto com Pedro.
Sentiu uma satisfação tranquila. Aquela de quem faz algo verdadeiro.
Foi ali, três meses depois, que reencontrou Tiago Alves.
Sabes como se chama o restaurante? perguntou, quando o empregado recolheu o pedido.
Severina, respondeu ele.
Precisamente.
Ele olhava para ela como alguém que, noutros tempos, tivesse julgado impressionante: cansaço, arrependimento, algo que queria ser ternura. Hoje via apenas o que estava por detrás disso: o nada.
Mafalda, pensei muito. Estes anos todos.
Tiago, interrompeu queres conversar ou fazer um discurso ensaiado?
Ele hesitou.
Estou a ouvir insistiu.
Errei. Fugi. Fui cobarde. Deixei-te na pior altura.
Continua.
Nada ficou como pensei. Acabei com a Carla há três anos. O negócio não correu. Estou noutra área, mas não é isto. Pensei em ti. No nosso filho.
No filho, corrigiu. O António. Tem sete anos.
O rosto dele sofreu um espasmo. Parecia mágoa. Ela via vaidade ferida.
Quero conhecê-lo.
Não.
Mafalda…
Decidiste há sete anos. Eu entendi. Agora o António tem vida própria, estável, com adultos de verdade à volta. Não fazes parte disso.
Mas sou o pai.
Biológico. É o único papel.
Não podes… apagar uma pessoa.
Ela olhou-o tranquila, como quem corrige um erro no projeto.
Não apaguei. Continuei. São coisas diferentes.
O empregado trouxe água. Tiago pegou, pousou.
Quero pedir-te uma oportunidade, disse. Não pelo passado. Pelos ses da vida.
Tiago, cortou calma. Vou casar.
Silenciou-se. Olhou-a.
Com quem?
Alguém que ficou quando não estavas. Que nunca perguntou porque eu faço isto. Que trouxe papéis quando o António estava doente. Que me via pessoa, não problema.
Mafalda…
Por favor, não fales de amor. Não por falta de respeito. Simplesmente não interessa para esta conversa.
Ele baixou os olhos.
Ela retirou da carteira algumas notas de vinte euros e largou no canto da mesa mais que suficientes para o jantar dele.
Para a conta, disse, erguendo-se. Obrigada pela conversa.
Deixas-me dinheiro? no tom, um misto de ferido e perplexo.
Deixo. Pelo visto, estás na tal fase difícil. Considera uma ajuda sem compromisso. A comida aqui é boa.
Vestiu o sobretudo, cinzento-claro, lã grossa, feito num ateliê pequeno perto do Rossio. Um ano antes não podia pagar. Agora podia.
Mafalda.
Olhou de volta.
Não me perdoaste.
Não. Mas não importa. O perdão é para quem ocupa espaço em nós. Tu não ocupas.
Caminhou entre as mesas. Dois homens seguiram-na com o olhar. Nem notou. Pensava noutra coisa.
Lá fora, já noite feita. Final de setembro, ar frio, cheiro a chuva e calçada molhada. Gostava de Lisboa assim. Sem ornamentos, sem turistas, pura.
Pedro esperava junto ao carro. Não fora para o exterior, não estava ao telefone. Apenas estava, recostado no capô, de olhos nela. O casaco azul-escuro, sem gravata, como sempre. Um dia dissera que gravatas faziam as pessoas parecer estar sempre à espera de cerimónia.
Demoraste, comentou.
Não muito devolveu. Uns vinte minutos.
Estás bem?
Parou. Pensou. Verdadeiramente.
Estou. Estranhamente bem. Como se tudo tivesse encontrado lugar.
Tens frio?
Não.
Pegou-lhe na mão. Simples, sem palavra. Seguiram juntos para o carro.
O António perguntou quando voltamos disse ele.
Ligou há muito?
Há uma hora. Disse à ama que logo chegamos.
Vou vê-lo quando chegarmos. Só espreitar.
Claro.
Entraram. Pedro ligou o motor, mas não arrancou logo. Olhou-a.
Ele esteve lá?
Esteve.
E?
Nada. Disse o habitual. Respondi o que devia ser dito.
Estás bem?
Ela voltou-se para ele, reparando nos traços cansados, familiares.
Pedro… sabes que agradecer de verdade nunca me saiu naturalmente?
Sei.
Então não digo nada bonito. Mas tu sabes.
Ele anuiu, pôs o carro em marcha.
Seguiram pela marginal. Os candeeiros reflectiam-se no Tejo. Em setembro o Tejo fica denso, quase negro. Mafalda via o reflexo das luzes e pensava que algures havia um homem, sozinho na mesa, a olhar para nada. E não lhe pesava. O passado não é para perdoar ou esquecer. É para conhecer, detectar os erros e não os repetir.
O António dormia quando chegaram. Foi ao quarto, ficou à porta. Sete anos. Dormia de lado, orelha colada à almofada, a boca entreaberta. Tão vivo, tão real.
Recordou o vidro da neonatologia. Uma promessa feita ali, ela manteve. Essa promessa resistira a tudo.
Ajeitou-lhe o cobertor, saiu.
Pedro estava na cozinha com chá. Pousou o telemóvel ao vê-la.
Está a dormir.
Eu sei. Bem?
Como sempre.
Encheu um copo de água, sentou-se.
Pedro perguntou não te arrependes?
De quê?
De tudo. De nós. De já não sermos só colegas.
Olhou-a, demoradamente.
Mafalda respondeu só me arrependi uma vez. De ter demorado a olhar para ti fora do trabalho. De resto, não me arrependo de nada.
Ela assentiu, entrelaçou os dedos nos dele.
Chovia lá fora. Uma chuva portuguesa, constante, mansa. No restaurante do Chiado serviam ainda pratos quentes. Os clientes conversavam, admiravam a parede de tijolo exposta, a luz pensada para criar um aconchego miúdo. Uma mesa no canto, talvez, já estivesse vazia.
Não pensava nisso. Pensava no António, que no dia seguinte tinha aula de desenho a preferida. Que a Severina & Sócios teria uma reunião importante com um novo cliente. Que a chuva, aquela noite, ia durar, e era bom assim.
Que tudo aquilo, aula, cliente, apartamento, mão dada, foi ela que construiu. Tijolo a tijolo. Às três da manhã, com António ao colo, sobre um esboço de casa de banho alheia.
Era a vida dela. Não a que sonhara aos vinte e seis. Outra, muito melhor.
Pedro…
Sim?
Está tudo bem.
Apertou-lhe a mão.
Eu sei.
Chovia. António dormia. O restaurante continuava aberto até à meia-noite. E, algures, repousava um copo de água intacto e notas no limite da mesa.
Sobrava para o jantar.
***
Mas para ser fiel, falta dizer ainda mais. O que ficou nas entrelinhas.
Nos dois primeiros anos, Mafalda várias vezes pensou em ligar a Tiago. Não para pedir volta. Para dizer só: está a ver o que fez? Vê como sobrevivemos? Não ligou. Não por orgulho. Porque sabia que o telefonema era para ela, não para ele. E aprendeu a conseguir o que precisa de outros jeitos.
Houve uma noite, António com oito meses, que não aguentou. Deitou-o, abriu o portátil, ficou a olhar para o ecrã e não conseguiu. As mãos não obedeciam, a cabeça não pensava. Ficou sentada no escuro dez minutos. Não chorou. Só esteve ali.
E depois abriu o portátil outra vez.
Foi essa a escolha. Não um grande momento, um voto solene de resiliência. Pequenas decisões, no escuro, dia após dia.
Quando o gabinete deu lucro, permitiu-se um luxo. Não roupa nem carro. Inscreveu-se num curso de estruturas, o que nunca concluíra na faculdade. Porque queria saber o que projectava, até ao último pormenor. O professor estranhou aula cheia de miúdos de vinte anos.
Já trabalha nisto?
Sim.
Há quanto?
Uns anos.
Mas então porque este curso básico?
Porque quero saber, não fingir que sei.
O professor acatou. Nunca mais perguntou.
Essa verdade, o limite do saber e a vontade de aprender, tornou-se vital. Os clientes sentem isso. Não pelas palavras, mas pelo que se lê nas entrelinhas. E confiam mais do que em exibições.
Pedro disse-lhe um dia:
Mafalda, conheço gente que aceita tudo, diz ao cliente o que ele quer ouvir. Tu recusas um terço dos pedidos, por honestidade.
E?
E tens clientes em lista de espera.
As pessoas cansaram-se de ouvir só o que querem. Precisam de quem diga a verdade.
Sem dúvida.
Ali percebeu que já não eram cliente e prestadora. Havia ali outra coisa, equilibrada. Respeitavam o trabalho do outro. Bom alicerce para tudo.
Notou que Pedro era mais que gestor. Lia muito. Não manuais, literatura mesmo. Um dia viu um livro dele era o que ela amava desde miúda, surpreendeu-se.
Isso?
Comprei há anos, releio. Leu?
Muitas vezes.
O que acha do final?
Conversaram uma hora não sobre obra, mas sobre livros, a idade, as mudanças de perspectiva. Foi a primeira vez que se sentiu realmente ouvida. Com Tiago, percebeu de repente, nunca falaram assim. Era só estar, nunca realmente partilhar.
Quando António já estava em idade escolar, levou-o a um dos edifícios que projectou. Para mostrar onde a mãe trabalhava. O miúdo, olhos enormes, tocava nas paredes.
Foste tu que inventaste isto, mãe? apontou as vigas.
Imaginei como ia ficar. Quem construiu foram os pedreiros.
Mas o pensamento foi teu?
Meu, sim.
Refletiu.
Então é um pouco teu.
Sim, um pouco meu.
Depois perguntou:
As mães todas têm o seu canto?
Ela hesitou. Respondeu:
Cada uma à sua maneira. Mas é bom quando têm.
O António assentiu com ar sério, como quem finge entender. Ela pegou-lhe na mão e foram ver o pátio interior, quase igual ao de há cem anos. Quase.
Surgiam contratempos: clientes que desapareciam, empreiteiros a teimar, concorrentes a copiar-lhe ideias. Uns resolvia com diálogo, outro com advogado, às vezes de frente, in loco, com o projeto na mão. Exigia razoavelmente, com firmeza.
Nunca foi boazinha, no sentido piegas. Foi justa. Sabia a diferença.
Quando Pedro sugeriu jantar, sem negócios, questionou:
Tem a certeza?
Em quê?
Em ser boa ideia. Trabalhamos juntos, pode complicar.
Pode.
E?
Mesmo assim prefiro arriscar. Quem não arrisca é cobarde.
Ela apreciou a clareza. Cobarde, não errado. Ele entendia.
Concordo. Mas, mal corra, voltamos ao trabalho.
Combinado.
Jantaram, de novo e de novo, até não ser preciso voltar atrás porque nunca saíram dali. A vida seguiu, com trabalho e mais.
O António aceitou. Crianças entendem mudanças, se há verdade. A mãe explicou, sem rodeios:
O Pedro Gomes e Sousa é importante para mim. Vai passar a estar mais. Que achas?
Pensou.
É o que trouxe bolo no meu aniversário?
Sim.
É fixe. Pode vir.
Meses mais tarde, já habituados ao quotidiano a três, o António desafiou Pedro:
Sabe jogar xadrez?
Sei.
Ensina-me?
Se a mãe deixar.
Deixas?
Claro.
Jogavam ao serão. António aprendia depressa. Pedro jogava a sério, mas com paciência. Explicava cada jogada e dava espaço ao raciocínio.
Ao fundo Mafalda via-os, enquanto mexia num arroz-doce. Dois homens, tabuleiro de madeira, sossego, sem pressas.
Via ali o que faltava antes com Tiago, e antes disso: a serenidade simples de querer estar, não só estar porque calhou ou convém.
O pedido de casamento chegou também sem teatro. Cozinha, noite, António na cama, chuva miúda do lado de fora.
Mafalda…
Sim?
Quero casar contigo.
Olhou-o. Pensou.
Porquê?
Porque quero ficar. Não às vezes. Sempre.
Não é a explicação mais poética.
Mas é a mais honesta.
Sorriu, sem espalhafato, mas verdadeiro.
Aceito.
O anel foi no bolso do casaco, no dia a seguir. Sem caixa, sem joelhada. Um aro simples, com uma pedra cinzenta pequena. Pôs logo.
Foi esse enredo que, naquela noite, lhe conferiu a firmeza de sair do restaurante.
Agora, o que ninguém sabe, nem Tiago e nunca ficará dito.
Foi numa noite, António bebé de meses, ela à janela, no escuro, a questionar se a vida é justa. Não em termos abstratos, destino ou carma só literalmente. E percebeu que não. A vida só é; o que conta é como se caminha por ela.
Não foi uma epifania. Foi só uma ideia que assentou.
A dor foi real, não diminuiu em sete anos. Apenas perdeu prioridade. Foi ocupada por outras coisas criadas por ela, por quem se tornou, por quem ficou.
Não foi a traição que lhe trouxe força. Isso seria simplista. Foi a sucessão de pequenos actos diários no escuro quando abria o portátil em vez de desistir; quando aceitava pouco para não parar; quando visitava o António nas incubadoras e aguentava.
A solidão foi real, nunca cem por cento superada. Mas distinguiu entre solidão-dor e solidão-espaço, esta última chegou a gostar. O silêncio com António a dormir, ela a trabalhar, esse silêncio era só dela.
A segunda oportunidade não veio do passado, nem de Tiago. Veio dela própria. Dia após dia.
Quando iam para casa naquele fim de setembro, Mafalda olhava os candeeiros molhados e pensava não em Tiago. Pensava na Severina, que precisava de crescer, nos novos projectistas a quem dava asas, que António ia para a escola e era preciso escolher. Que ela e Pedro ainda não tinham casa comum, mas arranjariam solução.
A vida cheia, comum, boa.
No restaurante do Chiado, alguém recolhera a mesa do canto. O empregado levara as notas. Conta paga.
As histórias fecham-se. Não por decisão. Por, subitamente, percebermos que já falamos não do passado, mas de manhãs futuras. De aulas, expansões, filhos e clientes.
Talvez seja isto, no fundo.
No carro, Pedro pôs música suave, só piano. Mafalda recostou-se, fechou os olhos.
Estás cansada?
Não. Está simplesmente tudo bem.
Ele não falou. Só guiou.
A chuva continuava.
E isso, sim, estava certo.






