A Fissura da Confiança

Fissura de confiança

Dona Amélia, está em casa? Sou eu, Geni do terceiro andar! Trouxe uns pasteizinhos de carne e couve, bem quentinhos! E surgiu aqui um assunto para dividir… Não abre não?

Dona Amélia parou junto à janela, uma chávena de chá frio entre as mãos. Lá fora, o pátio de novembro exibia o céu cinzento de Lisboa, o vento rodopiava folhas amarelas entre os prédios, poucos passantes atravessavam apressados, envolvendo-se nos casacos. Dona Amélia já se habituara ao silêncio; ao tique-taque do relógio de parede, ao barulho do frigorífico, ao ranger do soalho de madeira abaixo dos pés. E a ninguém mais a bater à porta.

Dona Amélia, eu vejo a luz acesa! Não se esconda, eu sou de paz!

A voz do outro lado era forte, animada, com aquela alegria que não aceita um não como resposta. Amélia pousou a chávena no parapeito e foi devagar até ao hall. Olhou pelo óculo da porta. Lá estava Geni, de saco na mão, sorrindo largo, o cabelo cor de fogo apanhado às três pancadas, batom intenso, casaco rosa-choque.

Mas então, está numa fortaleza? continuava Geni. Venha, senão eu apanho um resfriado!

Amélia tirou a corrente e abriu a porta. Geni entrou como uma brisa forte de primavera, trazendo cheiro a perfume, frio da rua e fritos acabados.

Fiz hoje de manhã, pensei logo, tinha de trazer para a vizinha disse Geni, enfiando o saco nas mãos de Amélia. Tem de comer, não está a ver que está cada vez mais magra?

Obrigada, Geni, não precisava…

Ora, qual quê! Para mim tanto faz, eu gosto é de ajudar. Coma, vá. E faça um chá forte, está com uma cor…

Geni seguiu até à cozinha como se também fosse dela, ligou a chaleira, tirou duas chávenas do armário. Amélia olhava, sem saber o que fazer. Estava sozinha há tanto tempo, que a presença de alguém ali parecia surreal, quase invasiva.

Sente-se, sente-se aí comandou Geni. Vamos conversar um bocadinho. Mulher, eu sei bem o que é ficar sozinha. Quando o meu marido se foi, os miúdos já longe, parece que a casa inteira era um nevoeiro. A minha tia passou o mesmo depois do tio Alfredo.

Amélia sentou-se à mesa. Os pastéis cheiravam mesmo bem. Não cozinhava para si própria há muito tempo, contentava-se com sopa de pacote e os pratos do supermercado.

Não pense que sou metediça Geni deitou o chá e pôs quatro colheres de açúcar para si. Mas não consigo ver uma vizinha a sofrer sem mexer uma palha. É da minha maneira, sempre tive pena das pessoas, preocupo-me com todos. O meu Orlando diz sempre: “Geni, salvas toda a gente e esqueces-te de ti.” Ora, se calhar é mesmo assim.

Geni falava num ritmo rápido, cheio de gestos e gargalhadas. Amélia ia ouvindo, devagar, sentindo por dentro um degelo lento, tímido. Há quanto tempo não tinha uma conversa destas, à mesa da cozinha, chá e pão? O filho, Miguel, telefonava uma vez por semana, mas era sempre aquilo: “Está tudo, mãe?”, “Comeste?”, “Precisas de algo?”, “Não, está tudo bem.” E silêncio, outra vez, por mais sete dias.

Sabe, Dona Amélia, queria já há muito dizer-lhe Geni aproximou-se, um olhar cúmplice. De vez em quando reunimo-nos lá em baixo, no “Sabores do Bairro”, conhece? Cá no cafézinho da esquina. Tomamos café, conversamos sobre tudo. Devia vir connosco um dia, para animar!

Não sei, Geni… Não sou dessas coisas…

Vá lá! Eu venho buscá-la, não foge! O pior erro é fechar-se em quatro paredes. Faz mal, acredite. É do isolamento que vêm as doenças.

Amélia acenou que sim, sem saber como recusar. Geni bebeu o seu chá de um trago, olhou à volta.

Ai, que coisa linda! E este serviço de chá! foi até ao louceiro, onde brilhava um velho serviço de porcelana branca com risca dourada. Isto é antiguidades, não é?

Foi o Joaquim que trouxe, murmurou Amélia. Quando fizemos os trinta anos de casados.

Tão bonito! Guarde bem isso. Olhe, tenho que ir. Fique com os pasteis, coma à vontade. Amanhã venho buscá-la, está bem? Às três, combinado?

Foi embora como entrou, de rompante. Amélia ficou a olhar para o saco dos pastéis, para as chávenas, para a marca de batom numa delas, e sentiu um silêncio diferente: menos vazio.

***

Assim começou. Geni passou a vir todos os dias, ora de manhã, ora ao fim da tarde, sempre com um motivo. Faltava sal, precisava de um conselho, vinha simplesmente conversar. Levava Amélia nas saídas ao supermercado, para os encontros no “Sabores do Bairro” com mais três senhoras, barulhentas, despachadas, dispostas a discutir vizinhos, preços, telenovelas.

Ao início, Amélia sentia-se deslocada. Aquelas mulheres riam de tudo, usavam palavras e brincadeiras que a deixavam desconfortável. Mas Geni sentava-se ao seu lado, orgulhosa: “É minha amiga, Dona Amélia, professora reformada”. E aquilo tinha o peso de uma medalha.

Com o tempo, Amélia habituou-se. Começou a esperar por Geni, a preparar-se para os encontros, sentia-se de novo viva. Não era o círculo de antes, quando Joaquim era vivo, quando iam juntos ao teatro, à Gulbenkian, quando recebiam amigos em casa. Esse mundo foi-se com ele; restaram-lhe as saídas ao café modesto, chá em copo de plástico e conversas sobre nada de especial. Mas era melhor que o silêncio.

Dona Amélia, ainda tem aquele broche que levou no outro dia? perguntou Geni uma tarde, amassando um bolo seco. Fiquei tão apaixonada, parece âmbar, não?

É, sim respondeu Amélia. Ficou da minha mãe.

Posso ver? Sou doida por coisas antigas, dão-me alegria.

Amélia foi buscar a caixinha, tirou o broche e entregou-lho. Geni olhou, virou ao sol.

Que lindo! Olhe, posso mostrar à minha filha, à Benedita? Tem o baile de final de curso dela para o mês que vem, adora coisas vintage… Mostro-lhe, ela vê e devolvo logo, prometo!

Amélia hesitou. O broche era uma lembrança forte da mãe, mas Geni parecia tão cheia de esperança, tão agradecida… Seria rude recusar.

Bem… Está bem. Mas tenha cuidado, sim?

Juro, fica comigo debaixo de olho! Obrigada, é mesmo um anjo!

Passou uma semana. Nada do broche. Amélia questionou, mas Geni respondia: “A Benedita ainda está a experimentar, adorou, imagina!”. E assim se passou outra semana. Depois, Geni contou que a filha, por engano, perdera o broche, mas que estava a procurar.

Amélia não dormia, remoía, culpava-se por ter confiado. Tentou abordar o assunto seriamente, mas Geni levantou a voz:

Acha que a estou a enganar? Eu, que fui o seu apoio, que a visitei todos os dias? Se não confia em mim, não precisamos mais de falar!

Não, Geni, não foi isso… Só que… é importante para mim…

Já disse que vou procurar. A Benedita revira a casa toda. Não se aflige.

Amélia tentava acalmar-se. Geni continuava a visitar, a trazer pastel de nata, a convidar para passear. Agora, porém, fazia outros pedidos.

Dona Amélia, empresta-me mais uns euritos até à reforma? O miúdo está doente, preciso remédios, juro que pago na sexta-feira.

Amélia emprestava. Geni era a sua amiga, a única visita, a única interessada na sua vida. Cem euros. Duzentos. O dinheiro nunca mais voltava. E quando Amélia pedia devolução, Geni indignava-se:

Achei que éramos amigas! Por meia dúzia de euros faz questão? Entre amigas não há dívidas. Eu dava-lhe o que fosse preciso!

***

Miguel ligou numa quarta à noite. Amélia, de robe velho, ia deitar-se; a televisão passava um daqueles programas sobre casas remodeladas, mas ela só via as imagens, não prestava atenção.

Olá, mãe a voz de Miguel vinha cansada. Como está?

Bem, filho. E tu?

Trabalhando muito, como sempre. Olhe, pensei… quer vir passar o fim de semana cá em casa? A Sofia adorava comer a tua sopa, e os miúdos têm saudades.

Não sei, Miguel… tenho de ver.

Ver o quê? Tens estado em casa…

Não estou, não. Tenho uma amiga, saímos, vamos ao café, ao supermercado. Não estou assim tão isolada, como tu pensas.

Amiga? Quem?

A Geni, do terceiro andar. Uma boa pessoa, cuida de mim, vem todos os dias.

Mãe, tens a certeza que conheces bem essa senhora?

Claro que sim. Já nos damos há meses. Foi por causa dela que voltei a sair, senão tinha secado aqui.

Miguel calou-se. Amélia sentiu o seu suspiro.

Tudo bem, mãe. Fico contente por a ver animada. Só… tenha juízo. Nem toda a gente é digna de confiança.

Que dizes tu? Amélia ofendeu-se. A Geni é quase uma irmã! E tu nem a conheces.

Não estou a julgar. Mas pronto, esqueça. Beijinho, durma bem.

Desligou. Amélia ficou com o telefone nas mãos, sentindo crescer uma mágoa surda. Vêem? Nem o filho gosta que ela tenha companhia, os filhos preferiam-na só, não incomodava. Agora que ela tinha vida, incomodava-lhes. Egoísmo, só pode.

Na manhã seguinte Geni surgiu animada.

Dona Amélia, e se fôssemos juntas ao Algarve em abril? A minha comadre trabalha num hotel, conseguimos preços ótimos. Duas semanas de águas termais, tratamentos, ar do campo… Só 500 euros cada, com desconto! Se juntar as suas poupanças, consegue…

Não sei, Geni… A minha reforma é fraquinha, são só quatrocentos por mês.

Oh, mas deve ter algum de lado! Toda a vida trabalhou, tem aquele dinheiro guardado… Olhe, junta e depois a viagem paga-se. Vai ver, ainda vamos recordar!

Amélia pensou nas poupanças, aquelas duzentos que Joaquim lhe deixara para “dias maus”. Guardava, nunca tocava. Mas um tratamento, pela saúde, não era luxo. E com Geni seria mais fácil.

Pode ser, Geni.

Boa! Amanhã vou ao banco consigo, ajudo a levantar, essa coisa dos cartões é sempre uma chatice.

No outro dia foram ao banco mesmo ali no bairro. Geni sorria, planeava cada detalhe da viagem. Amélia levantou os quinhentos euros, entregou-lhos.

Pronto, assim já posso adiantar o depósito à minha comadre, trago o recibo esta semana.

O recibo nunca apareceu. Primeiro, a tal comadre ficou doente, depois houve confusão com os papéis. Amélia tentava não pensar nisso. Geni continuava atenciosa mas os pedidos multiplicavam-se.

Amélia, empresta só o serviço de chá para a boda da Benedita, ela queria uma mesa bonita. Devolvo e lavo tudo, prometo.

O serviço, presente do marido. Era sagrado.

Geni, faça favor de perceber… É a coisa mais importante que me resta.

Lá está você, Dona Amélia! Só porque sou eu… Olhe, nem falo mais, afinal você não confia, não precisa de mim, eu é que perdi tempo!

Amélia bloqueou por dentro.

Pronto… então… leve o serviço. Mas, por favor, cuidado.

Geni sorriu radiante.

Entre amigas não há reservas, Dona Amélia. Confie em mim.

***

Três semanas depois, a nora, Helena, telefonou, tensa.

Olá, senhora Amélia. Olhe, Miguel viu que mexeu na poupança. Está tudo?

Sim, retirei dinheiro. Algum problema?

Não, claro. Mas usou para quê?

Para algo meu. No que é que isso lhe diz respeito?

Desculpe, preocupamo-nos consigo. Falou-nos de uma senhora que a visita. Tememos que alguém…

Que me engane? Que sou velha e ingénua? Olhe, Helena, obrigada, mas quem olha por mim todos os dias é a Geni, não vocês.

Não é justo, nós trabalhamos, temos filhos pequenos, estamos longe. Não conseguimos ir todos os dias…

Se quisessem, arranjavam tempo. Mas obrigado pela preocupação.

Desligou, as mãos a tremer. Sabia que era injusta; mas doía. Os filhos não entendiam Geni, duvidavam. Tratavam-na como se fosse tola.

Geni continuou a visitar, mas já menos frequente. Umas vezes dizia que a filha estava atolada com a boda, outras que andava doente. O serviço de chá não aparecia; o dinheiro não vinha. Amélia sentia-se inquieta, dormia mal, mas não tinha coragem de insistir.

Numa sexta-feira, Geni apareceu excitada:

Amélia, ajude-me a escolher um serviço bonito para oferecer à Benedita. Vi um na loja do centro comercial, belíssimo, em promoção por 200 euros. Pagamos metade-metade, eu depois dou a minha parte quando receber.

Mas eu não tenho agora…

Ora usa o cartão, pagamos em prestações. Hoje em dia toda a gente faz assim!

No dia seguinte, levaram-na até ao centro. Geni escolheu, indicou à funcionária, Amélia assinou papéis sem ler, cheia de confusão com a pressa e o movimento.

Quando iam a sair, Helena surgiu na loja.

Mãe, fala comigo por um momento? A sós?

Geni afastou-se, de imediato.

O que comprou?

Serviço novo, para a filha da Geni.

Pagou? Ou assinou crédito?

Assinei. Mas Geni vai pagar depois…

Mãe, essa mulher já se aproveitou de outros idosos aqui da zona. Usa sempre a mesma estratégia. O papá falou com a polícia e os vizinhos.

Não! Isso é inveja. Ela é minha amiga!

Mãe, acorda. Já levou a jóia, o serviço, o dinheiro. Usa-a e vai desaparecer.

Essas palavras, duríssimas, abalaram Amélia. Por dentro sabia que era verdade. Mas admiti-lo seria reconhecer a própria ingenuidade uma dor quase física.

Vai-te embora, Helena. Não me digas mais nada.

Helena saiu abalada. Amélia voltou para casa, de mãos dormentes.

***

Nas semanas seguintes, ignorou as chamadas de casa. Sentia-se traída, só. Geni passou a aparecer muito menos vezes. O serviço de chá nunca mais foi mencionado. O broche, perdido. O dinheiro, sem retorno.

Numa manhã de domingo, toca a campainha. Geni, com uma caixa na mão, ar carrancudo.

Tenha lá o seu serviço, está aqui. Já não lhe vale pedir mais nada.

Deu-lhe a caixa, foi-se embora. Amélia abriu: quase tudo partido, cheiro a bolor. Segurou numa chávena rachada aquela que Joaquim trouxera. Longamente ficou ali sentada.

Ligou para Miguel:

Filho… podes cá vir?

Já vou, mãe. Aguente.

Chegaram ele e Helena uma hora depois. Encontraram-na na cozinha, diante dos cacos.

Desculpa… Desculpa chorou, baixinho.

Importa é que estás aqui disse Miguel, abraçando-a.

Podemos colar isto… murmurou Helena Vai ficar com cicatriz, mas ainda assim, pode servir.

Amélia olhou para os pedaços. Também ela era feita de colagens, de fissuras. Mas a família estava ali, e a solidão era menos pesada.

Pensámos em trazer-te para nossa casa. Ou pelo menos, vires mais vezes. As miúdas têm saudades sugeriu Miguel.

Vou pensar.

No silêncio da noite, Amélia colava devagar a chávena partida. Nunca mais serviria chá mas, apesar da racha, estava inteira. Ou quase.

O telefone tocou. Miguel:

Amanhã vamos aí, mãe. Faz o teu caldo de sempre, juntas à mesa.

E, olhando para o objeto nas mãos, Amélia pensou que, mesmo com fendas, havia sempre forma de voltar a juntar o que parecia ter-se perdido.

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