Um eco longo do amor
Recupera-te depressa, soluçou a rapariga, olhando fixamente para o rosto pálido do homem.
Beatriz estava sentada numa cadeira de plástico dura junto à cama de hospital, as pernas recolhidas junto ao peito. No quarto, dominava o cheiro a desinfetante e medicamentos. O inverno já tombava para o lado de fora da janela, e na divisão só brilhava o abajur da mesa de cabeceira, atirando reflexos quentes para o rosto do Tiago.
Ele encontrava-se semi-levantado sobre as almofadas, uma perna engessada repousando num suporte. Há meia hora que tentava convencer a esposa de que aquilo não era nada de grave. Dizia que uma fratura compõe-se, que em dois, três meses já estaria a correr maratonas, que não valia a pena angústias. Forçou uns sorrisos pathéticos, mandou umas piadas, chegou mesmo a querer mostrar que se sentia forte, só para a tranquilizar. Mas Beatriz, com o faro infalível das mulheres portuguesas, via bem além daquela bravata: atrás do paleio, havia cansaço e dor e não só a física.
Ela escutava-o em silêncio, observando traço a traço o rosto que já conhecia, cada ruga, cada brilho nos olhos. De repente, percebeu não podia continuar a calar-se. Era tarde para esconder atrás de conversa de circunstância aquilo que lhe pesava no peito.
Inspirou fundo, endireitou-se, olhou-lhe nos olhos e disse, com voz serena e determinada:
Sabes, amo-te.
A palavra escorregou-lhe da boca, cheia de tremores, e logo os olhos daí encheram-se de lágrimas. Quis segurá-las, apertando com força a mão no assento da cadeira, mas era impossível. O olhar dela era tão genuíno, tão terno e inquieto que Tiago ficou de pedra todas aquelas palavras animadoras que vinha a debitar perderam sentido, e aquele embuste de alegria derreteu-se num instante.
Olhou para Beatriz e nos seus olhos acendeu-se uma réstia de esperança misturada com uma ternura que só aparecem quando se fala baixinho. Mas, dentro de si, uma dúvida borbulhava: e se aquela confissão era só fruto do acidente? E se ela diz aquilo só porque vê o marido ali, magro e indefeso? Essas ideias obrigaram-no a engolir em seco, e lá perguntou, roucamente:
Não estás só a calar-me, pois não? Para eu parar de fingir que está tudo ótimo?
Beatriz parou um instante, respirou fundo para domar a voz que teimava em tremer, e fitando-o, disse lenta e claramente:
Eu amo mesmo.
A barreira cedeu e as lágrimas irromperam em força pelas faces, sem que ela sequer tentasse limpá-las.
Pensei tanto nisto, gaguejou entre soluços. Hoje de manhã, quando o telefone do hospital tocou… Senti-me trespassada! Vim a correr, apavorada, achei que era o fim! O médico não dizia nada, mandava fazer exames, esperar… E eu, sentada no corredor, percebi: podia mesmo perder-te! Mesmo sendo só uma fratura, mesmo que digam que recuperas, só me ocorria que podia ficar sem ti, o meu bem mais precioso! E entrou-me um medo, uma dor
Beatriz… sussurrou Tiago.
Tentou pegar-lhe na mão, tanto quanto o gesso deixava, e tocou-lhe os dedos com infinita delicadeza, como a dizer que já podia desabar tudo.
Beatriz encostou a testa ao ombro do marido. O corpo sacudia-se em lágrimas enquanto ele afagava-lhe a mão, deixando-a aliviar a dor sem pressa.
Tiago sentia-a estremecer, sentia as lágrimas na palma da sua mão, e o coração apertava-lhe de ternura e ansiedade. Não valia a pena repetir que estava tudo bem, já não importava. Importava era ela estar ali, bem perto, e o amor dela, esse sim, era resistente a gesso, hospitais e aos seus malabarismos para parecer herói.
No silêncio do quarto, naquele gesto simples, havia mais verdade e afecto do que em qualquer discurso bonito.
Tiago nunca se habituara à sorte que teve. Sempre que olhava para Beatriz, não acreditava bem que ela lhe tivesse dito sim naquele dia. Casaram há cinco anos, ele sentindo que o coração dela não lhe pertencia completamente. Ela aceitou porque não havia saída melhor na altura. Nada disso, porém, conseguiu ensombrar a alegria dele estar ao lado dela era milagre suficiente.
Eram amigos desde crianças, cresceram debaixo do mesmo céu da margem sul, vizinhos de patins e escola primária. A Beatriz, miúda de caracóis desalinhados, corria pelos corredores do prédio a pedir boleia no jogo, colava-se ao Tiaguinho, como lhe chamava, só para ser incluída. Ele, na boa, dava-lhe caramelos quando a encontrava, protegia-a dos bullies lá da praceta, sem imaginar que, anos depois, aquela miúda lhe ia ocupar todos os pensamentos.
O tempo voou com eles por trilhos diferentes Tiago foi estudar, trabalhou, comprou casa e juntou uns trocos. Quando regressou à cidade, ia decidido: ia declarar-se à Beatriz, arranjar coragem, dar-lhe um ramo de rosas a fazer inveja ao jardim da Fundação Gulbenkian. Treinou a fala imensas vezes, ensaiou reações possíveis, decidiu que, pronto, agora ou nunca.
Mas nem tudo correu como nas novelas. Bateu à porta dela e deparou-se com uma Beatriz radiante e um tal de Rodrigo de braço dado com ela, tipo príncipe do Bairro Alto. Com ar encabulado, ela apresentou: Este é o Rodrigo. Vamos casar, acredita?
Tiago ali, com bouquet de rosas, sentiu-se a estátua de sal. O que tanto planeou fugiu-lhe das mãos. Murmurou um cumprimento envergonhado, entregou as flores, virou costas e deixou atrás de si o riso feliz deles
**************
Poderia ter tentado estragar os planos daquele casalinho. Motivos não faltavam, falhas do Rodrigo ele conhecia de sobra. Mas cada vez que surgia aquela tentação de sabotar-lhes o namoro, travava-se.
Beatriz parecia de facto feliz. Tinha outra alegria a sapecar-lhe os olhos, uma confiança que ele nunca conseguiu ver com o próprio reflexo no espelho. Mudara o sorriso, a pose, parecia mais leve, mais colorida, como se por fim tivesse largura para respirar.
E Tiago não teve coragem. Não conseguiu ser o mau da fita, tirar-lhe aquele brilho do olhar. Afinal, não era consigo. Se Beatriz escolheu o Rodrigo, então que assim fosse.
Custou, claro. Um sofrimento que parecia arder sem sinais de cura. Tentou convencer-se de que era só amizade, mas quanto mais se afastava, mais doía. Acabou por mudar outra vez de cidade, regressando às origens à força de calendários e pó de estrada.
Cada visita custava-lhe. Passar pelo café da esquina, onde em miúdos partilhavam torradas, ou revisitar o jardim onde apanhavam caracóis, era penoso. Ainda por cima via-os juntos, felizes, de mãos dadas, a partilhar segredos em risos, com uma naturalidade que o esmagava. Tentava cortar caminho, virar a cara, fingir que não via.
E, claro, ia espreitando as redes sociais dela, meio envergonhado. Sem likes, sem comentários só para saber como estava. Secretamente, torcia para que ela se arrependesse, percebesse a asneira. Mas, a cada novo scroll, só confirmava quão feliz ela parecia ser.
Ainda assim, das primeiras vezes bateu-lhe um alarme. Os posts familiares da Beatriz, antes carinhosos, começaram a sarar em tom amargo. Queixas sobre os pais, picardias, textos mais duros. Os pais não aceitavam o Rodrigo, a mãe achava-lhe um jeito esquisito, o pai queria dar orientações ou assim ela dizia.
A mãe da Beatriz, portuguesa à séria, percebeu cedo que havia ali marosca. O Rodrigo, disfarçado de bom rapaz, tratava de ir colando a filha só a si, afastando-a devagarinho da família. Aos olhos de Beatriz tudo parecia uma simples luta pela felicidade, mas na verdade ia fechando o mundo à sua volta, sem notar.
Tiago, de longe, assistia e só pensava no desastre a acontecer. Podia avisar? Esquece ela nem ouviria. Qualquer crítica parecer-lhe-ia despeito.
Esperou, resignado, à espera que ela caísse na real.
*************************
Beatriz passou a passar horas e horas com as amigas ou, melhor dizendo, ex-amigas. Os encontros estavam cheios de conversa fiada, mas aos poucos, frases que nunca diria começaram a sair-lhe da boca.
Um dia, à mesa do café, comentou:
O meu noivo não quer que eu trabalhe. Diz que me quer bem-disposta, não cansada!
A amiga, a mexer o açúcar, levantou as sobrancelhas, espantada:
Mas sempre gostaste do teu trabalho. Morrias de orgulho pelo salão de beleza
Beatriz encolheu os ombros, fingindo-se despreocupada:
O Rodrigo diz que já cuida de tudo. Para que é que hei de aborrecer-me com horários?
Noutra ocasião, a conversa bateu nos estudos. Uma colega recém-entrada na faculdade descrevia sonhos, cursos e projetos. Beatriz, meio a sorrir, saiu-se com esta:
Estudar é perda de tempo! Ainda bem que ao Rodrigo não lhe apetece aturar mulher estudante.
A interlocutora ficou sem resposta. E Beatriz depressa rematou:
Tempo não há entre a casa e o Rodrigo, sobra pouco.
Entretanto, queixava-se dos pais:
Agora acham-se no direito de dizer onde vou, o que faço. Pareço uma miúda! O Rodrigo diz que já era altura de viver sem amarras.
A amiga ainda tentou defender os progenitores:
Querem apenas o teu melhor
O melhor? atalhou a Beatriz, enervada. Não aceitam a minha felicidade. Só querem controlar.
Com o tempo, ficou quase sozinha. Quem discordava, desaparecia. Os poucos que restavam ouviam litanias sobre a suposta inveja das outras:
Descobri que a verdadeira amizade é ilusão. Mal alguém é feliz, chovem olhares de lado!
Ela não percebia, mas afastava toda a gente restava-lhe o Rodrigo e um grande vazio.
Em três anos, a Beatriz largou o trabalho (fazia-lhe mal acordar cedo), abandonou os estudos (para quê diploma?), e cortou com os pais (têm a mania de saber tudo). Quanto às amigas, acabaram todas por zarpar, fartas de queixas e lamúrias.
Ficou só. Tirando, claro, aquele que prometera casar mas nunca chegou a marcar data. O Rodrigo manteve-se imparável, leve, sem vínculos, ocasionalmente lembrando-lhe que a escolha foi dela. Só que agora, sem família, amigos, nem independência, a Beatriz percebia tarde demais que virou figurante na vida dele.
Tiago tentou, ainda assim, avisá-la. Em mensagens curtas ou telefonemas espaçados, sugeria cautela, perguntava se era aquilo o que queria.
Tens a certeza? Não queres pensar melhor? arriscava ele.
Oh Tiago, não percebes. O Rodrigo sabe cuidar de mim.
Ele tentava explicar que o cuidar não podia ser prisão, mas as palavras batiam no muro intransigente dela. Até que, simplesmente, deixou de responder
*******************
O tempo seguiu: Tiago ficou-se entre o escritório, almoços com amigos, e visitas aos pais em Setúbal. Nunca casou, talvez por mágoa, talvez por medo de embarcar noutra aventura digna de novela das oito.
Chegado o Ano Novo, manteve a tradição: foi jantar com os pais, entre cheiro a bacalhau e bolo-rei. A irmã reclamava que havia comida a mais, mas toda a família repetia doses.
Na véspera, saiu ao supermercado para ir buscar tabaco ao pai e as filhoses para a avó. Frio daquele, só apetecia chá e manta. Ao regressar, gelou. No parapeito do prédio, encolhida, chorava silenciosamente uma mulher de cachecol azul, mala velha aos pés e gato a miar na transportadora era a Beatriz.
Beatriz? O que fazes aqui? perguntou desconcertado.
Não sabia que, há meses, os pais dela tinham vendido o apartamento e ido viver para Viseu, cansados de confusões. Não suspeitava que ela fora despejada naquela manhã pelo Rodrigo com gravidez de três meses, as economias contadas e só a gata por companhia.
O que faço? Espero não congelar. Não tenho para onde ir, resmungou, irónica.
O tom era tão calmo e frio, que Tiago sentiu um aperto no peito digno de fado triste.
Anda, propôs baixinho, mão no ombro, que aqui, além de certo, só apanhas uma gripe.
Ela obedeceu, arrastando a mala e o gato. No elevador, de olhos no chão, a gata miava baixinho na caixa.
Em casa dele, sentada no sofá, Tiago lhe trouxe um chá. Ela nem tocou.
Vá, conta-me tudo.
O Rodrigo abandonara-a, grávida, sem dinheiro nem teto. Até na véspera escolheram nomes para a criança naquele dia, ele arrumou-lhe as coisas, atirou-lhe uns euros para cima da mesa e sentenciou: Foste tu que escolheste esta vida. Desenrasca-te.
Sem contactos para os pais perdidos, as amigas não atendiam mais ou diziam-se ocupadas. Só Tiago, naquele apartamento modesto de paredes finas e cheiro a torradas do pequeno-almoço, ouviu o relato inteiro sem interromper.
Não sei o que fazer, Tiago. Não sei mesmo. Não tenho trabalho, estudo e o Rodrigo ainda ri, diz que fui burra.
Ela chorava, sem sequer se limpar.
Tiago escutava, coração apertado. Quando Beatriz terminou, ele passou a mão pela cara, ajeitou o cabelo e disse, firme:
Casa comigo. Sabes que te amo. Faço de tudo para seres feliz.
Beatriz arregalou os olhos, incrédula, olhos já secos:
Estás a brincar? Percebes o que pedes? Não posso corresponder-te. E ainda este bebé
Há de ser meu, afirmou Tiago. O amor chega para os dois. Não te faltará nada. Palavra de honra.
Não lhe prometeu uma vida de filme, nem amores de novela. Ofereceu segurança, estabilidade, porto seguro.
Ela ficou muito tempo calada, a olhar para a chávena arrefecida e as mãos trémulas. No fundo, uma esperança minúscula reacendia-se.
Por fim, fitou-o. No olhar, mais esperança do que desespero.
Está bem, sussurrou. Aceito.
********************
Desde esse dia, muita coisa mudou. A vida a dois tardou a ganhar ares de romance, mas cedo se encheu de respeito, reconhecimento e uma ternura tranquila. Não começaram com paixão ardente, mas criaram um vínculo forte e pacífico.
Tiago tornou-se um verdadeiro pai babado. Cuidava do pequeno Rafael desde as noites sem dormir, às fraldas, aos passeios pelo Jardim da Estrela. Levava o miúdo a ver o Benfica no estádio e não deixava acabar a semana sem um passeio de mãos dadas na Avenida da Liberdade.
Beatriz foi, aos poucos, largando o medo. Os primeiros meses após o parto custaram-lhe ainda ressentida, com culpa, insegurança e fantasmas do passado. Mas a dedicação de Tiago, o apoio sereno, puxaram-na à tona. Arranjou emprego, com uma ajudinha dele. Depois entrou no ensino superior em horário pós-laboral: queria, enfim, aquele canudo que a vida adiara. Agora que tinha objetivos outra vez, sentia que estava a reconstruir-se.
Foram muitos jantares em família, passeios de domingo, idas à praia do Meco, piqueniques improvisados e muitos, muitos pequenos-almoços de torrada e café com a família reunida.
Nunca pôde dizer que amava Tiago como numa telenovela da SIC mas havia gratidão, carinho e paz, e isso era tão real e quente que bastava.
Depois veio o acidente. Tiago regressava do trabalho e, a meio da rotunda, um piloto de BMW resolveu brincar aos ralis. Batida estrondosa, carro desfeito, mas de danos só uma perna partida e um gesso de três meses com sotaque de Santarém. Os médicos logo disseram: teve sorte, podiam ser bem pior.
No hospital, deito e resignado, era Beatriz quem estava nervosa.
Ora, estraguei-te os planos de fim de semana, perdoas?
Beatriz, de olhos húmidos, sentou-se junto a ele, segurou-lhe as mãos frias de tanto gel hospitalar e respondeu decidida:
Só interessa estar vivo. O resto resolve-se.
E então disse o que ele tantas vezes sonhara ouvir. Num fio de voz, a olhar-lhe de frente:
Amo-te.
Soaram naturalíssimas, tão verdadeiras, que Tiago sentiu o mundo a aquecer por dentro. Não discutiu, não duvidou acreditou simplesmente.
Obrigado, sussurrou, apertando-lhe os dedos. Valeu toda a dor.
E sabia: daqui a pouco era tirar o gesso, voltar à vida e logo a seguir, levaria Beatriz a algum lugar à beira mar, com família, amigos, arroz de marisco e lágrimas, para celebrar o amor. Desta vez, finalmente, de verdade.






