E logo de início, não me agradou nada

Ah, então já anda à me ameaçar? disse a mãe, com a voz a tremer como tábuas de velho cais do Tejo. Será que viu-me? Ou foi só um capricho do vento?
Mãe, aqui não tem pareceu. Já imaginei que o Vítor ficaria órfão O Rui é muito mais alto que eu!
Olha, os homens não levantam a mão à toa Tu és explosiva desde menina. Se algo correr mal, vais ao ponto de brilhar como o sol da Alfama.

Inês ficou pasmada com aquelas palavras. Esperava da mãe proteção, indignação, ao menos compaixão, mas recebeu culpas que não lhe cabiam. Como se fosse ela a culpada, e se, por obra de Deus, chegasse ao fim, a mãe também a apontaria o dedo.

Como posso ser explosiva quando ele tem coelhinhos e gatinhos? Nem ouvi essas palavras há três anos! explodiu Inês.
Já gritas na mãe, admitiu Lurdes Alves com leve irritação. O gesto de ameaçar ainda não é bater. Ele nem bebe, nem festeja, trabalha. Só tem carácter. Todos têm carácter, e tu também. Já tiveste homens melhores? Pensa bem antes de fazer loucuras de calor…
Mãe, basta, obrigada pelo apoio, disse Inês, desligando o telefone.

Violência, traição e mentira eram coisas que Inês não podia aceitar, sobretudo no casamento. Rui juntou tudo num combo. Inês já tinha tomado a decisão e não pretendia recuar, mas a reação da mãe a deixava estranha, como se reclamasse de um pão passado. Não se encaixava na sua cabeça; antes, simplesmente não percebera muitas coisas.

Lurdes Alves tinha o hábito insólito de trocar de sapato enquanto saltava, e de dizer uma coisa aos olhos e outra pelas costas. O sorriso era doce e maroto, mas o olhar permanecia frio e avaliador.

Oh! Que vestido fofinho. Como encaixa em ti, dizia ela quando a pequena filha experimentava roupas numa loja da Baixa.

Depois, ao ver o preço, arqueava as sobrancelhas e mudava de opinião.

Mas, sabes, com as tuas pernas parecem curtas ali, afirmava com tom categórico. Não, vamos ver outra coisa.

Acabavam por comprar um tecido barato, cinzapúrpura, fora de tamanho, mas com desconto, e a mãe vangloriavase entre as amigas do bom negócio.

Algumas mães costuram vestidos sob medida para o baile de formatura. E isso já no 4.º ano! reclamava Lurdes ao telefone de uma conhecida. Gastaram dinheiro à toa. Eu comprei numa liquidação, não me importo, pode até usar depois.

Os amigos de Inês eram parecidos. Ela foi a um aniversário de amiga e trouxe um pedaço de bolo. Oh, a Lia é uma menina boa, pais bemeducados. Lia queria ir à casa? Lurdes trocase de postura num instante.

Por que a queres aqui? Lembra-te: ninguém entra na casa sem permissão! advertia a mãe. Desde pequena acostumate a isso. As amigas são assim, primeiro fingem ser coelhinhas, depois falam pelas costas ou levam o marido.

Com Rui foi idem. No início, a mãe não aprovou a escolha da filha.

Para que serve? Aparece e desaparece Um homem normal não se comporta assim. Sinto que não és a única dele, alertava Lurdes.

E Inês acreditou. Não tinha experiência, e a opinião autoritária da mãe abafava a voz interior.

Inês tentou separarse de Rui, mas isso apenas o incentivou a cortejarla ainda mais. Encomendou flores para entrega em casa, sushi, e Lurdes derreteu.

Não largues esse homem! dizia, tentando pegar um sushi com o garfo. Pode não ser perfeito, mas quem tem um marido perfeito? Não queres ficar sozinha com trinta gatos? Agarra o touro pelos chifres e casate com ele.

Inês seguia a mãe como filha obediente; a mãe nunca aconselharia algo mau.

Os sinais de alerta já estavam lá, mesmo sem contar os desaparecimentos repentinos. Rui mudava de humor com frequência: podia ser carinhoso e, cinco minutos depois, sombrio e rude. Ciúmes de Inês, até das amigas, criticava a roupa e dizia que gostava de saias curtas e saltos altos.

Mas Inês ouviu a mãe e, seis meses depois, já tinha o selo no passaporte. Os primeiros meses foram mel, jantares românticos, selfies bonitas, surpresas diárias até que algo mudou.

Rui deixou de perguntar o que Inês queria. Verificava listas de compras e repreendia cada item extra, até tintura de cabelo. Quase proibiu Inês de usar batom vermelho, dizendo que parecia uma menina fácil.

Ambos trabalhavam, mas a casa ficava a cargo de Inês. Rui chegava cedo, mas sempre encontrava a esposa na porta a perguntar o jantar. Depois do jantar, voltava ao computador, deixando uma montanha de louça.

Rui, podes ao menos lavar o teu prato? perguntou Inês, reunindo coragem.
E tu, não gostas de cuidar de mim?
Gosto, mas estou exausta.
Eu também estou cansado. Eu realmente trabalhei hoje.

Inês ficou perdida. Ela também se esforçava, mas Rui não se importava. Encolhia os ombros, dizendo que a mãe dele conseguia tudo, mesmo tendo filhos.

O que querias quando casaste? perguntava a mãe, quando Inês se queixava do marido. A mulher tem de estar em todas as frentes. As famílias dependem de nós.

Inês discordava, mas quando todos ao seu redor concordavam, começava a pensar que algo estava errado em si.

O tempo corria. Inês deu à luz e tudo piorou. Entre amigos eram o casal perfeito; a sós, brigavam por detalhes. Rui não ajudava com o bebé, acreditando que até um ano o pai não devia fazer nada. Dormia em outro quarto, alegando que o bebé chorava e ele precisava acordar para o trabalho. Quando Inês acordava ao meionoite, às vezes via Rui acordado, preso ao telemóvel.

Inês tentou conversar, mas ele recusava contato, dizendo que as emoções eram problema dela, que a porta estava fechada.

Tens exigências exageradas, dizia a mãe. O que mais precisas? Ele trabalha, sustenta vocês, vivem no apartamento dele

Inês ainda tentava convencerse de que tudo estava bem; discussões ocorrem a todos.

Então encontrou, no telemóvel de Rui, conversas cheias de coelhinhos, solzinhos, gatinhos. Um zoológico inteiro desejando-lhe bom dia e boa noite num tom exagerado. Não havia provas físicas de traição, mas para Inês já era traição.

Com isso, não aguentou mais e, no mesmo dia, confrontou Rui.

São só mensagens nas nuvens, justificou ele. Colegas, conhecidos É para agradar as pessoas. E depois fica mais fácil negociar. Por que te irritas? Deves confiar em mim.

Mas confiar num marido com um harém virtual era difícil. O duelo virou discussão; Rui apontou a porta e, num momento, chegou a ameaçar. Inês não podia aceitar, mas não podia fugir naquele instante. Contava com a mãe, mas

Ah, só são mensagens são letras. O marido precisa de atenção, tu estás a cuidar do Vítor o dia todo. Ele compensa assim, tentou acalmar a mãe, em tom cotidiano.

Lurdes não mudou de ideia, mesmo quando Inês contou que quase teve um acidente.

Inês teve de se virar sozinha. Quando as amigas souberam que ela queria o divórcio, ficaram perplexas: nunca se queixara. Contudo, o mundo ainda guardava gente boa.

Uma amiga deulhe as chaves do apartamento; tinha acabado de mudar para o namorado e o espaço estava vazio. Outra emprestou dinheiro. Uma terceira ajudou na mudança.

Algumas semanas depois, Inês entrou com o divórcio e fugiu do marido. A reação da mãe surpreendeua.

Bem, era mesmo um tirano, exclamou Lurdes. Não gostei dele desde o início. Lembraste que eu te disse que homens normais não agem assim?

Inês piscou, confusa. A mãe antes dizia que não se devia perder um homem assim, que era cuidadoso e atencioso. Falava muito.

Mãe não foste tu que me dissuadiu do divórcio?
Eu não sabia que tinhas quem te ajudasse! Para onde irias? rebateu, depois arrependendose. Tensme, claro Mas não tenho muito espaço, sou já uma senhora, não consigo ajudar muito. Ser mãe solteira é difícil, já sei.

Então Inês percebeu. A mãe mudava de sapato não por conveniência, mas para o que fosse mais fácil para ela mesma: comprava roupas baratas, não deixava amigos em casa, aconselhava a não se divorciar para que não voltasse ao pai do filho.

Dois anos passaram. Inês ainda falava com a mãe, mas não lhe contava a vida, nem pedia conselhos. Não a visitava, nem a deixava entrar. Foi difícil financeiramente, mas a alma ficou mais leve.

Um dia, o telefone tocou.

Inês estou completamente fora de mim, apanhei um vírus. Não há remédios nem comida aqui. Gostava de comer uma sopa talvez vires só por uma hora?

Inês ergueu as sobrancelhas. Ir ao quarto de alguém doente, com um filho? Um prazer duvidoso.

Dizme quais os remédios e mandote.

Houve silêncio. A mãe esperava outra resposta.

Não preciso de entregas, respondeu levemente irritada. Queria verte. Talvez sejam meus últimos dias.
Mãe adoraria ajudar, mas sabes que ser mãe solteira é duro. Ajudar com remédios e comida é meu dever sagrado, mas estar ao teu lado exige confiança, e eu não confio em ti. És a mestre do mudarsapato.

A mãe suspirou, tentou protestar, mas não conseguiu mudar a filha. Desde então, Inês escolhe com cautela quem pode confiar, e esforçase para não ser enganada, ainda que o desejo seja grande.

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