Vingança nas Sombras da Riqueza: Larissa e Helena…

Vingança à sombra da riqueza: Letícia e Eulália

Letícia fica junto à janela na sua espaçosa casa em Lisboa, os olhos perdidos nas luzes infinitas da cidade à noite. O sol desaparece por trás dos telhados antigos, mas no rosto dela só se vê a frieza a que se habituou a enfrentar ao longo dos últimos anos. Sempre construiu a própria felicidade, sem depender de ninguém; e, agora, neste lar elegante, sente-se prisioneira. Não da riqueza, mas das pessoas que constantemente lhe pedem ajuda sem nunca lhe agradecerem. Já não consegue suportar mais esta situação. Encontrou-se, assim, na sua própria casa, lutando não contra o mundo, mas contra aqueles que fazem parte dele.

Na porta surge Eulália Soares, a sogra alta e imponente, vestida num fato bege e de chapéu caro, um acessório que nunca deixa de mostrar o seu estatuto. Eulália sempre sustentou que Letícia tinha obrigação de ajudar todos à sua volta. Hoje, o rosto dela está carregado de mágoa e superioridade. Nem tenta esconder que veio pedir algo e é mais do que um simples favor. Não passa de mais uma manobra manipuladora para obrigar Letícia a sacrificar-se pelos outros.

Letícia, o meu irmão precisa de obras na casa. O teu dinheiro vai-nos salvar, diz ela com um sorriso forçado, estendendo a mão como quem espera receber euros de imediato.

Letícia paralisa. O coração começa a bater descompassado diante daquela petição descarada, ali, no seu próprio lar. Não aceita mais esta humilhação.

Eu não sou um banco, Eulália Soares. Já sustento esta família há um ano! responde Letícia, a voz a tremer de indignação. Sente que todo o seu esforço, todo o trabalho árduo, está a ser minado por aquela constante exploração.

Eulália não cede, e cada palavra sua só faz crescer a irritação de Letícia. Não tens vergonha? Tens dinheiro a rodos! Era bom que nos ajudasses todos! diz ela, olhando à volta como se tudo aquilo lhe devesse pertencer.

Essas palavras foram a gota de água. Letícia não aguenta mais, avança rapidamente para o bengaleiro, agarra o casaco mais próximo e atira-o a Eulália.

Rua da minha casa! Chega de abusos! grita Letícia, sentindo finalmente que tomou a decisão correta, ainda que tardia.

Eulália fica estática, abalada entre a mágoa e a raiva. Parece querer responder, mas Letícia já não está a ouvir.

Vais arrepender-te! O Nuno vai saber o quão egoísta és! grita ela, antes da porta se fechar com estrondo.

Letícia, de pé no hall vazio, respira fundo. A cada expiração sente o corpo a libertar a tensão acumulada. Tomou a atitude que devia ter tido há muito tempo.

Alguns dias depois, Letícia senta-se novamente à janela. Desta vez, o seu olhar está voltado para dentro, enfrentando toda a batalha interior. A sua vida teve momentos difíceis, mas nunca deixou de os superar. Agora, mais uma vez, sente que não pode fingir que tudo está bem. Nuno, seu marido, continua sem compreender as suas motivações e não percebe como a própria mãe os manipula.

Ela pega no telemóvel e marca o número dele. Nuno não atende. Letícia percebe que, a cada dia, a distância entre ambos cresce. Ele mal imagina o peso de tudo aquilo. E Letícia não quer continuar presa neste jogo de manipulações.

Nessa noite, num restaurante discreto de Lisboa, Letícia está sentada à mesa, iluminada pela luz suave das velas. Veste um vestido elegante, mas no rosto vê-se só cansaço e tristeza. Nuno aparece entre os presentes, olha em volta e só depois a reconhece. Hesita antes de se aproximar, mas acaba por se sentar frente a Letícia.

Letícia, porque não nos dás uma hipótese para conversar? Temos de tentar resolver isto, diz ele, mas a insegurança transparece-lhe na voz.

Letícia permanece firme, o olhar frio e decidido enquanto respira fundo, tentando acalmar-se. Sabe que está na altura de pôr um ponto final.

Não percebes, Nuno. Não é o que imaginas. Não sou mais o teu brinquedo, responde ela, cada palavra dita com esforço.

Nuno fixa-a, tentanto perceber. Levanta-se, ajeita nervosamente o casaco e tenta justificar-se.

Letícia, nunca quis isto. Sabes que não consegui travar a minha mãe, diz ele, mas as palavras soam a desculpa.

Letícia levanta-se, sem qualquer hesitação no olhar.

Cansei, Nuno. Já não preciso de ti. Acabou, declara, afastando-se sem olhar para trás. Nuno permanece, imóvel, sem saber o que fazer.

Passam dias e Letícia já não esconde a mágoa. Senta-se em casa, diante da janela, sentindo ainda o peso do ar. Não sabe o que lhe reserva o futuro, mas há uma certeza: nunca mais dependerá de ninguém.

O telemóvel vibra na mão dela. É o número de Nuno. Letícia atende. Do outro lado, a voz dele ecoa no silêncio.

Letícia, tens de me compreender. Não podes ir embora assim, diz ele.

Já fiz a minha escolha, Nuno. Não voltamos atrás, responde com uma leve tristeza, mas sem hesitação.

Coloca o telemóvel na mesa, convencida de que não espera mais por chamadas dele. Este é o último passo rumo à sua liberdade. E, nesta nova paz, Letícia sente o peso a desaparecer. Sabe que a sua vida está prestes a recomeçar.

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