Vítor largou-lhe a mala mesmo à porta. De lá caíram comprimidos — Marina era enfermeira, andava sempre com uma reserva consigo. — Acabou, — disse ele

O Mário atirou a minha mala mesmo na soleira da porta de casa. Caiu tudo para o chão trabalho como enfermeira, ando sempre com comprimidos, afinal nunca se sabe.

Chega. disse ele com voz fria Pega nas tuas coisas e desaparece.

Fiquei ali no hall, ainda vestida com o vestido preto do funeral da avó. Faltava-me o ar.

Espera, Mário

Doze anos, Margarida. Doze anos à espera. Achei, pronto, que a tua avó ia deixar-te qualquer coisa decente, que a nossa sorte havia de mudar.

E o que é que ela fez? Ao teu irmão deixou-lhe um apartamento em Lisboa, mesmo no centro, cento e cinco metros quadrados. E a ti? Uma casa velha num fim de mundo onde nem os sem-abrigo querem morar!

A avó sabia

Sabia o quê?! gritou, dando um soco na parede. E a nossa fotografia de casamento caiu da prateleira. O vidro estalou. Sempre gozou contigo!

O Francisco foi lá duas vezes, se tanto, nos últimos dez anos, e tu todos os sábados ou domingos, a tratar dela, a lavar a casa. Olha o resultado!

Agarrei na fotografia caída. Nela, estávamos ambos a sorrir. Tinha vinte e quatro anos, ele vinte e seis. Jovens, ingénuos.

Vou avançar com o divórcio disse o Mário, agora mais baixo. Não quero uma mulher sem futuro. Vai lá para o que te sobrou.

Peguei na mala e saí. A porta fechou-se com estrondo atrás de mim, o barulho ressoou-me nos ouvidos.

No dia seguinte comprei bilhete para o autocarro para Monforte do Sul. A minha amiga Leonor tentou demover-me:

Esquece essa casa! Deixa apodrecer, ficas cá em minha casa, arranjamos-te um quarto partilhado

Mas recordava-me do que a avó me disse no último mês de vida: “Não te precipites, Margarida. Nem tudo é como parece.”

A viagem durou cinco horas. O autocarro passou por aldeias e campos. Em Monforte do Sul saí junto a um poste torto com horários de autocarros. Cheirava a erva e terra molhada.

És a neta da D. Laurinda? perguntou um homem de blusão coçado, saindo da carrinha de caixa aberta. Chamo-me Manuel. Dou-te boleia até casa.

No silêncio da viagem, só perguntou:

A D. Laurinda… já não está entre nós?

Não, já foi.

Ele fez o sinal da cruz.

Salvou o meu filho, tu sabia? Os médicos já diziam que não havia esperança. Ela não desistiu três semanas. E ele safou-se.

A casa estava no fim da aldeia, mesmo antes do pinhal. Cinzenta, velha, alpendre a cair.

Abri a cancela, caminhei no matagal. A chave demorou a rodar na fechadura.

Dentro, cheirava a bolor e poeira. Fui à sala pó sobre tudo, as cortinas cansadas do tempo. Nenhuma magia, só abandono.

Sentei-me no banco ao pé da janela, cobri a cara com as mãos. O Mário tinha razão. A avó deixou-me uma ruína.

O Francisco ficou com o apartamento. Apostava que já estava a tratar da papelada para o vender às escondidas.

Bateram à porta.

Tu és a Margarida, não és? Uma vizinha de lenço na cabeça, magra e direita. Sou a D. Lídia, moro ali ao lado.

Tinha as chaves, mas não me deu tempo para limpar. Julgava que vinhas amanhã.

Não faz mal, obrigada por ter olhado pela casa.

Foi pedido da Laurinda. Ela veio cá e disse-me: “A Margarida vai cá chegar. Espera por ela, Lídia, e diz-lhe para não ter pressa. Que vá à dispensa atrás do fogão. Tem lá algo para ela”. Perguntei o quê, sorriu e não disse mais nada. Era especial, a tua avó. Mas muito bondosa.

Quando a Lídia se foi, levantei-me para procurar. Atrás do antigo fogão, por uma porta estreita quase oculta, havia uma pequena despensa.

Empurrei. Estava presa. Carreguei com o ombro e abriu-se.

Acendi o telemóvel, luz trémula por entre as latas de compota, um saco com qualquer coisa, farrapos velhos. Atrás das latas, uma caixa de bolachas.

Abri-a. Papéis. Documentos. Certidão de propriedade. Não da casa do terreno. Doze hectares.

Li três vezes. Doze hectares junto com a casa. A seguir, mais papéis.

Contrato de arrendamento do último ano. A quinta Os Trigos arrendava à minha avó a terra por quinze anos.

O valor Fechei os olhos. Era mais do que eu fazia em três anos no hospital.

E em baixo, uma carta. Letra da avó, reconhecida de cor.

“Margaridinha, um apartamento é uma ratoeira. O Francisco vai vendê-lo ou gastá-lo, e a mulher dele já contratou advogados para dar a volta à proibição. Deixa-os.

Eles querem dinheiro rápido, eu quis deixar-te futuro. Esta terra é da família desde antes da guerra. Os rendeiros pagam todos os anos. Com este contrato, tens para tudo. Tem calma, não vendas, não vás. A casa recebe-te, se quiseres. Se não quiseres, vende ou deita abaixo. Mas a terra, guarda-a.”

Fiquei sentada no chão, a chorar. Não era felicidade era uma sensação de que a avó tinha pensado em tudo.

O Mário correu comigo à espera de um dinheiro que, afinal, tinha todo o tempo estado ao meu alcance. Só não sabia.

Passou-se uma semana. Limpei a casa, lavei tudo, troquei os vidros partidos.

A Lídia vinha sempre ora pão, ora leite. Falava-me da Laurinda, das curas com chá, das pessoas que a procuravam.

És tão calma como ela disse-me um dia Só tens a alma mais leve, menos de ferro.

Sorri. De facto, ainda era de algodão.

Ao oitavo dia ligou o Francisco.

Preciso de dinheiro, voz arrogante a Mariana quer vender o apartamento, mas o notário diz que não pode. Não queres abdicar da tua herança? Assim já dava…

Não respondi.

Porquê? Aquilo é só ruína! Para quê?

Aqui estou bem.

Estás doida, Margarida? Fica lá na aldeia, enfermeirazinha! Eu e a Mariana resolvemos isto com os advogados.

Desligou. Continuei a limpar em silêncio.

Um mês depois apareceu o Mário, de carro. Vi-o pela janela hesitou junto à cancela.

Saí ao alpendre. Parou, não teve coragem de avançar.

Margarida, podemos falar?

Diz.

Errei Desculpa. Fiquei sem trabalho, deitei tudo a perder, e ouvi dizer bom, que recebeste dinheiro.

Cruzei os braços, não respondi.

E se voltássemos ao que tínhamos? Percebi o erro. Agora podíamos restaurar isto juntos, até mudar para cá

Não, disse baixinho.

Como, não? franziu a testa. Margarida, foram doze anos juntos! Eu também erro, mas não sou má pessoa.

Aproximou-se, eu avancei, ele recuou.

Tu puseste-me na rua, Mário. No dia do enterro. Atiraste-me a mala à porta e disseste que não querias uma mulher sem futuro. Lembro-me das tuas palavras.

Ficou sem cor.

Estava nervoso

E eu estava de negro, destroçada disse serenamente. Vai-te embora. Não voltes.

Vais arrepender-te! resmungou, regressando ao carro. Vais apodrecer aqui sozinha!

Vi-o partir dali enquanto a Lídia me fazia sinal de aprovar do portão logo ao lado.

Fizeste bem, Margarida. Gente assim não se quer outra vez.

Meio ano depois. Vendi o apartamento em Lisboa onde vivia com o Mário as coisas dele enviei-lhe pelo correio. O divórcio foi rápido, sem dramas.

Todos os anos o dinheiro da terra chegava. Reparei o telhado, mudei os vidros, pus água canalizada. Vivia devagar, em paz.

As pessoas começaram a aparecer primeiro, a Lídia trouxe a vizinha com dores nas articulações.

Fiz-lhe um chá das receitas antigas da minha avó. Duas semanas depois voltou sentia-se melhor.

Depois vieram outras. Não cobrava dinheiro, não precisava. Aceitava o que me traziam: ovos, pão, legumes.

Numa noite de inverno, o telemóvel tocou de um número que não conhecia.

Margarida? É a Mariana, mulher do Francisco.

Diga.

Preciso de ajuda choramingava. O Francisco vendeu o apartamento. Os advogados conseguiram dar a volta à proibição. Recebeu o dinheiro e… foi-se. Para outra mulher.

Estava com ela há mais de um ano. Abandonou-me, abandonou os filhos. Ficámos sem nada. Vão-nos deitar à rua Estou perdida.

Fiquei em silêncio.

Sei que não tinha o direito, soluçou. Mas somos família, tu és tão boa Se tivesse aí um quarto, trabalho e pago, faço o que quiseres

Não respondi. Não te vou ajudar, Mariana.

Mas

Tu riste-te de mim no funeral. Quando o notário leu o testamento. Chamaste à minha casa casebre. Guardei.

Vai à Segurança Social. Eles ajudam-te.

Desliguei e voltei aos cadernos de receitas da avó. O coração sereno, sem mágoa nem raiva. Só vazio.

Na primavera, a Leonor veio de Lisboa. Sentou-se na mesa da cozinha e olhou em volta.

Incrível. Pensei que ias murchar aqui sozinha, e até parece de revista.

Pus-lhe um chá à frente.

O Mário já se casou outra vez contou , agora é com uma agente imobiliária. Parece que ela já o está a levar ao limite.

Pressiona-o para ganhar mais, mas continua endividado. Anda perdido.

Assenti. Era-me indiferente.

Vais ficar mesmo por cá? Não te aborreces?

Não olhei pela janela. Lá fora, a minha terra, a minha casa, o meu silêncio. Sinto-me bem.

Era verdade. Pela primeira vez, aos trinta e sete anos, vivia finalmente a minha vida.

Não levava às costas mais nenhum homem, nem esperava reconhecimento. Só vivia.

Ao fim da tarde, depois de a Leonor ir embora, saí ao alpendre. O sol punha-se sobre o pinhal, o ar limpo e frio.

O gato que apanhara no inverno ronronava-me ao lado. A D. Lídia passava com um saco e acenou:

Margarida, amanhã chega uma senhora da vila. Os médicos não a ajudam. Ouviu falar de ti. Alguma coisa no coração. Atendes?

Atendo.

Entrei e procurei a receita certa. Amanhã fazia-lhe o chá, conversava, ouvia. Como a avó.

Em Lisboa, o Mário discutia com a nova mulher por dinheiro; o Francisco fugia de credores, e a Mariana, a ex-cunhada, procurava sítio para os filhos, porque sozinha não conseguia dar conta.

A avó Laurinda sabia. E eu agora sei: herança não são coisas nem dinheiro. É a escolha de quem queremos ser quando a vida nos esmaga.

Podemos ser vítimas, ou levantar-nos e andar até onde somos esperados. E eu escolhi andar.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

three × 3 =

Vítor largou-lhe a mala mesmo à porta. De lá caíram comprimidos — Marina era enfermeira, andava sempre com uma reserva consigo. — Acabou, — disse ele
Išla som navštíviť brata na Vianoce… a zistila som, že ma vlastne nepozval, pretože jeho žena „nechce ľudí ako som ja“ vo svojom dome. Mám 41 rokov, môj brat 38. Celý život sme boli veľmi blízki – vyrastali sme spolu, delili sa o izbu, tajomstvá, brigády, aj tie zlé chvíle. No odkedy sa oženil, niečo sa v ňom zmenilo, aj keď som si to nechcela priznať. Minulý rok, už začiatkom decembra som cítila niečo zvláštne: brat nespomenul ani slovo o vianočnej večeri. Pritom sme ju vždy slávili spolu. Vždy. Jedného večera som si povedala, že už čakať nebudem. Pomyslela som si: „Ak ma brat nepozýva, pozvem sa sama.“ Veď je to môj brat, nie cudzí človek. Na Štedrý večer, okolo šiestej večer, som mu napísala, v koľko pôjde po mňa. Neodpovedal. Volala som mu – telefón vypnutý. Vnútri ma niečo pichlo. Zavolala som taxík a išla rovno pred jeho dom. Keď som prišla, počula som hudbu, smiech, deti, ako behajú… prestretý stôl, sviatok. Bolo mi až trápne klopať, lebo bolo jasné, že oslavujú. Ale zaklopala som. Brat otvoril. Zbledol. Rýchlo ma objal, ale bol viditeľne nesvoj. Povedal: — „Ahoj sestra… prečo si mi vopred nedala vedieť?“ Odpovedala som: — „Lebo ty si mi nedal vedieť nič. Preto som prišla. Čo sa deje?“ Skôr, než ma pozval dnu, pozrel sa dozadu – akoby váhal. Vošla som… a ostala stáť. Pri stole – celá rodina jeho ženy: bratranci, strýkovia, tety, dokonca sused. Všetci. Len ja som chýbala. Jeho žena ma pozdravila falošným úsmevom a pokračovala v servírovaní, akoby som nebola. Sadla som si na gauč, rozpačitá, neviditeľná. A práve v tom tichu som začula, ako bratova žena hovorí svojej mame – mysliac si, že to nepočujem: — „Vravel som ti, že príde pokaziť večer. Nechcela som tu ľudí ako ona.“ „Ľudia ako ja?“ Čo to znamená? Čo som urobila? Ťažko som sa nadýchla, snažila sa neplakať pred všetkými. Brat to tiež počul. Tvár sa mu zmenila. Prišiel ku mne a ticho povedal: — „Sestra, nevšímaj si ju. Ona je taká.“ Pozrela som sa naňho: — „Taká – aká? Čím som jej ublížila? Ako je možné, že prídem ku bratovi a cítim sa ako votrelkyňa?“ Vtedy mi priznal všetko: — „Ona ťa nechcela pozvať. Povedala, že máš silnú povahu, priveľa rozmýšľaš, stále chceš pomáhať a miešaš sa do vecí, kam nemáš. A… nechcel som sa na Vianoce hádať.“ Ostala som v šoku. Môj vlastný brat radšej nepozval mňa… len aby nemal konflikt so svojou ženou. Neurobila som žiadnu scénu. Nič som nepovedala. Len som vstala a povedala: — „Netráp sa. Odchádzam.“ Prosil ma, aby som zostala, ale nemohla som. Nechcela som byť niekde, kde som „navyše“. Išla som na roh ulice, s hrčou v hrdle. Doma som si zohriala ryžu s kuracím a večerala sama. Pozrela som si staré vianočné fotky s bratom. A zacítila som, že vo mne niečo prasklo – lebo nevedel ochrániť moje miesto pri sebe, našu blízkosť, našu minulosť. Dodnes sme sa o tom neporozprávali. On navrhuje, že „jeden z týchto dní“ ma príde pozrieť… ale ja ešte neviem, či s ním vôbec chcem hovoriť, alebo to nechať tak. Jedno je isté: tieto Vianoce už s nimi nezostanem.