Nívea nunca conseguiu encontrar a sua felicidade. Já se aproximava dos quarenta anos e continuava sozinha, apenas acompanhada de si mesma. E no entanto, não lhe faltava nada: era inteligente, bonita, tinha um bom emprego e um ordenado invejável. Só lhe faltava o chamado felicidade de mulher.
Os pais da rapariga, Constança Fernandes e Manuel Dias, preocupavam-se com a filha. Ajudavam-na, mais com o coração do que com a carteira pois se fosse preciso, Nívea até poderia ter ajudado eles financeiramente. Mas recusavam sempre.
Fica a viver connosco, filha diziam-lhe Constança e Manuel espaço nesta casa não nos falta! E esse dinheiro um dia podes precisar, quando achares o teu verdadeiro caminho!
Todos os dias mimavam a sua Nicoca quando ela chegava do trabalho cansada:
Pobre filha nossa, se não formos nós a preocuparmo-nos contigo suspirava a mãe.
O dia em que cá não estivermos, vais sentir o peso da solidão. Nem a quem te queixar! Tens de procurar a tua felicidade, filha! acrescentava o pai.
Juntavam-se os três na sala, à frente da televisão, e assim, ano após ano, dia após dia, se arrastava aquela procura de felicidade, sentados no sofá a ver novelas! Que monotonia, até fazia bocejar de tédio…
Estranho era ouvir o pai falar de «quando cá não estivermos». Nívea nascera quando Constança e Manuel tinham apenas 19 anos. Casaram-se de paixão, tão jovens! Ainda achavam cedo para tanto fatalismo.
Nívea, nos tempos da universidade, também conheceu um rapaz Álvaro. Era grande, desajeitado, até engraçado. Por onde passava, deixava sempre algo tombado, partido ou pelo menos desalinhado.
Constança gracejava com ele, chamando-lhe Álvaro-trambolhão ou andarilho da desgraça.
Manuel fazia de conta que tropeçava e tentava apanhar coisas no ar, como Álvaro.
Não filha, esse é um azarado! Tudo o que lhe cai nas mãos, estraga-se! Não é o teu destino, Nívea! tentavam convencê-la com doçura.
A água fendilha a pedra: com o tempo, Nívea também acabou por ver Álvaro como um trapalhão sem futuro.
Mas ali se enganaram os pais. Álvaro acabou o curso, abriu o seu escritório de advocacia, casou com uma mulher que achava encantadora a sua desajeitada autenticidade. Só precisava era de espaço! Por isso saíram da cidade, foram viver numa casa de campo.
A felicidade da Nívea anda por aí, é preciso é procurá-la! animavam-se Manuel e Constança, tentando convencer-se.
A família era de facto unida e afetuosa. Há poucos meses tinham ido todos juntos a umas férias no Algarve. À noite, gostavam de ver as fotografias, relembrando os dias de praia, sol e boa comida portuguesa. Grande descanso!
Foi nessas férias que Nívea conheceu um homem, Romeu, nascido em Vila Real, mas a morar em Lisboa.
Os pais de Nívea não perderam tempo a fazer troça, costume em casa:
Ora vejam, um romance com Romeu, bem português, caiu-nos do céu! gracejou Constança.
Manuel, a fazer rir todos, colocou uma almofada debaixo da camisa a fazer de Romeu gordo.
Nívea até ficou magoada. Romeu não era gordo, apenas forte, e era tão interessante: gostava de astrologia e à noite, à beira-mar, mostrava-lhe as constelações. Pela primeira vez, contrariando os pais, Nívea deixou-lhe o seu número de telemóvel.
No regresso a Lisboa, quando ouviram que Nívea e Romeu continuavam a falar, Constança foi taxativa:
Amores de férias? Isso não é decente! Nunca trazem coisa boa!
Não interessava que ambos fossem solteiros; o que importava era que o romance era de verão caminho para lado nenhum.
Procura a tua felicidade, filha! Para tudo contas connosco, sempre! afirmava-lhe Manuel, cheio de convicção.
No verão, os três iam juntos para a casa da aldeia. Rio, árvores, chazinhos sob a macieira, grelhados junto à pérgula. Frutas e legumes da horta. Os vizinhos apareciam para duas de conversa. Um dia, os vizinhos receberam o filho, Tomás, e o neto, António, um miúdo de cinco anos. Os dois pareciam gémeos: cabelos alourados, olhos claros, sardas e orelhas despontadas.
Souberam depois que a mulher do Tomás os trocara por um empresário qualquer. O filho ficou a cargo do pai a criança não interessava ao tal empresário, pois era a cara chapada do Tomás. Uma mãe, se gosta, aceita; mas aquele homem só queria o que não tivesse rasto do passado. Assim ficou Tomás com António nos braços.
Nívea achou graça aos dois. Havia ali uma ternura rara. Entre ela e Tomás saltou logo uma centelha especial, e o menino colou-se-lhe ao coração.
Constança não tardou a dizer, a provocar:
O Tomás já roeu a cenoura toda e deixou só o talo. Aposto que os pais dele te quiseram apresentar! Para que queres um homem com rebocadas?
Ele é um fracasso! Uma mulher se o larga, ainda com filho, não presta! dizia Manuel.
Foi a primeira vez que Nívea respondeu ao pai:
Mas é essa a questão, papá! Só uma mulher que confia num homem lhe deixa um filho. Sabe que ele vai cuidar e ensinar com amor!
Não, Nívea, isso não é a tua felicidade! Procura a tua, queremos netos do nosso sangue, não alheios! Que saudades de pegar em mãos pequenas e ouvir pés pequeninos a correr pela casa
Manuel e Constança fecharam-se. Cortaram relações com os vizinhos; disseram tudo o que lhes ia na alma, e os serões entre portas morreram. A tristeza continuou à volta da mesa de chá, sob a macieira, com suspiros de lamento porque Deus não dava a Nívea a felicidade sonhada.
O verão passou entre melancolia e amargura.
Nívea amava Tomás e o pequeno António com todo o coração. Amava também os pais e não queria magoá-los. Sentia-se até culpada por se apaixonar por alguém que não correspondia às expectativas deles.
No final do verão, deixou a aldeia com os pais, voltando à cidade, todos debaixo do mesmo teto.
Os pais, por amor, nem falavam de Tomás nem de António. Nem em brincadeira, nem a sério.
Um dia, Nívea viu um pequeno gatinho ruivo abrigado da chuva por baixo de um carro estacionado. Pequeno, molhado, desamparado, miava baixinho. Sem mãe. Assim como António. E não tinha ninguém no mundo. Bastava um movimento do carro e aquele ser indefeso perderia a vida quase antes de começar.
O impulso de Nívea foi instantâneo: curvou-se, aninhou o gatinho no casaco junto ao peito, sem se importar com a lama ou o cheiro. Só queria aquecê-lo com o seu calor.
Levou-o para casa. Secou-o com uma toalha e deitou-lhe um pires de leite. Sentou-se no chão e observou-o a beber. A língua cor-de-rosa mexia apressada, como uma pá de vento.
Coitadinho, que fome passaste! pensou Nívea.
À porta da cozinha apareceu Manuel com o jornal, seguido de Constança. Viram o visitante, mas nos rostos havia impaciência e desagrado:
E agora, filha, o que se faz com isto? Vai sujar a casa toda, arranhar móveis e paredes! Manuel, diz qualquer coisa! Na nossa casa não há lugar para bichanos! exclamou Constança.
E depois, ficamos com cheiro a gato, ninguém respeita! reforçou Manuel.
Mas ele é tão pequeno! Compramos um arranhador, ensinamos a ir à liteira olhem bem para ele, que mal poderá fazer? tentou justificar-se Nívea.
Não, não e não! Não precisamos de problemas cá dentro! insistiu a mãe.
Olha, filha: leva-o ao canil. Eles aceitam animais. E se não aceitarem, ameaça escrever no jornal! gritou Manuel, agitando o jornal.
Baixando os olhos, Nívea pegou no gato e saiu.
Doía-lhe por dentro. Como chegara aos quarenta sem nada seu? Nem filhos, nem marido, nem casa própria nem sequer um animal de estimação podia ter! Precisava do seu próprio espaço, nem que fosse um quarto modesto. Um lugar só dela, onde pudesse ser ela própria.
Em vez de ir ao canil, Nívea foi direta à primeira imobiliária. Bastou pouco tempo para lhe arranjarem um T1: aceita-se animais.
Pela primeira vez, Nívea sentiu-se dona de si. Comprou tudo para o gato. O veterinário disse que era gata, e perto dos dois meses. Nívea chamou-lhe Ginga.
E, de repente, sentiu-se mais feliz. Ao olhar para a Ginga, lembrava-se sempre do António e do Tomás.
Um dia, o telefone tocou. Nívea não esperava. Afinal, os pais tinham acabado de cortar relações com os vizinhos da aldeia. Mas era Tomás ao telefone:
Olá, como estás? O António quer falar contigo!
Apanhada de surpresa, Nivea sorriu, vieram-lhe à mente as sardas e os olhos de António.
Nívea! Temos saudades tuas! Vem visitar-nos! disse a vozinha doce do outro lado.
Vou, mas não vou sozinha! Posso levar a minha gata?
Do lado de lá, Tomás riu-se:
Podes trazer até o circo todo! Diz o teu endereço, já vamos aí buscar-te!
Foi assim que Nívea encontrou a sua felicidade. Contra todas as probabilidades, era feliz com Tomás, António e a Ginga. E, em breve, António teria um irmãozinho, ou irmã que importava? Seria só mais amor.
Quanto aos pais, Nívea nunca se esqueceu deles. Continuavam a ser seus pais, e ligava-lhes frequentemente, só para dizer que estava bem, que tinha encontrado a sua felicidade.
Não era a felicidade que eles sonharam para ela. Mas era a dela.
Talvez, um dia, Constança e Manuel percebam e aceitem a felicidade distinta da filha. E talvez nesse dia possam também eles pegar nas pequeninas mãos dos netos e ouvir o som de passinhos infantis a correrem pela casaNuma tarde de outono, quando as folhas já pintavam as ruas de dourado, Nívea recebeu uma carta manuscrita. Reconheceu o traço tenso da mãe. Sentou-se no pequeno sofá, Ginga enrolada nas pernas, e leu devagar, sentindo cada palavra tocar-lhe fundo.
Filha, a casa tem estado silenciosa. Não há novelas ou chá que encham o vazio do teu lugar. Sabes, começámos a perceber que a felicidade verdadeira é ver-te viver por inteiro, mesmo que seja longe do nosso sofá.
Desculpa se te quisemos só nossa, como quem guarda um tesouro fechado. Mas já aprendemos: amor é deixar ir, é confiar. Se quiseres, este Natal traz o Tomás, o António e a Ginga, claro. Queremos ouvir pés e patinhas pequenas na nossa casa outra vez. Só pedimos uma coisa trazes aquele sorriso teu, o que nunca aprendemos a dar-te, mas que é puro e só teu.
Com saudade,
Constança e Manuel
Nívea sorriu, com lágrimas doces.
No Natal, a casa antiga encheu-se do que todos procuravam há anos: vozes, risos e calor. Ginga, atrevida, saltava entre embrulhos, António mostrava as sardas ao avô, Tomás sorria ao lado de Nívea. E Constança, inclinada no vão da porta, enxugava discretamente uma lágrima: afinal, a felicidade, seja de quem for, quando faz casa em nós, é sempre família.
E, pela primeira vez, sentados de novo juntos à mesa, entenderam: há felicidade que não se prevê nem se impõe apenas se aceita, com o coração aberto.







